A Luta continua
Um pequeno rescaldo das eleições.
Bom. Cá estamos, não é? Deu merda. Uma amiga brasileira dizia-me que olhava para o que estava a acontecer e sentia que os portugueses estavam como eles quando o Bolsonaro ganhou.
O dia seguinte às eleições foi triste. Senti-me francamente em baixo, nunca me tinha acontecido. Agradeci infinitas vezes à Rafaela do passado por ter dividido uns dias de férias que me restavam pelo meu aniversário e pelo pós-eleições. Estava com pavor de chegar ao trabalho e ter de lidar com os resultados a serem o tema do dia, não me sentido livre nem segura para dar a minha opinião sincera.
Foi uma segunda-feira pachorrenta, apática. Senti-me perdida e com medo do futuro. Sem saber o que fazer, limitei-me a voltar a usar os meus brincos dos cravos. Uma pessoa sabe lá… Foi o acto de resistência performativa que tive à mão.
Não me quero estender muito sobre este tema, pelo menos não me apetece neste momento estar a escrever muito para lá do que já foi escrito. Mas deixo aqui alguns pontos soltos de reflexão.
Muito se falou da derrota da Esquerda nestas eleições. Esquerda essa que anda a ser ceifada pelo PS desde a Geringonça, à custa da conversa do voto útil, e com o PS a recolher os louros por boas medidas que não foram ideias suas e que só implementou pois estava dependente do PCP e do BE para governar. Ninguém fala do facto de, com um PS completamente descredibilizado junto da opinião pública, o PSD (nestas eleições com a AD) não ter conseguido ganhar largamente? Ter ficado, sejamos francos, num empate com o PS? Há uma derrota da Esquerda? Sem dúvida. Mas há, igualmente, a derrota de uma direita dita democrática. Há meses que me vinha a preocupar com o que se andava a passar com o PSD, com as guerras internas que resultaram num líder fraquíssimo e num partido vazio de ideias e de estratégia para o país. A ideia de se coligarem com o CDS para ressuscitá-lo dos mortos foi terrível, ainda para mais porque resgataram o nome da Aliança Democrática e tiveram de levar a reboque o PPM. E, em 2024, tive o Partido Popular MONÁRQUICO a concorrer a eleições no meu país. Pior do que isto só o suicídio político que o CDS cometeu com o seu Chicão. O que é que se passa, laranjas?!
Não aguento mais os malabarismos intelectuais para justificar o crescimento e os votos no Chega. Não, malta, não foi porque é “protesto”, porque “as populações estão esquecidas”, porque “a mensagem deles é mais fácil de perceber”. O Chega teve este crescimento absurdo porque foi levado ao colo pelos meios de comunicação social, é um partido financiado pelas famílias mais ricas deste país, e a sua mensagem é RACISTA, XENÓFOBA, HOMOFÓBICA e MACHISTA. E é DISSO que o povo gosta. Veio tudo correr a dizer que “não há 1 milhão de portugueses racistas” pois olhem, eu digo-vos até que não, não há 1 milhão, HÁ MAIS. Mensagens populistas chamam-se assim mesmo por serem… populares. Quando a tua vida está uma merda, ganhas mal, não tens um Estado social forte, há crises na saúde, habitação e educação, é fácil olhar para o lado e desconfiar do estrangeiro pobre que chegou agora e alguém te disse que “tem mais direitos dos que os de cá” (não tem). Quando não sabes o que é uma pessoa queer, é fácil caíres num pânico fabricado sobre supostas casas de banho mistas nas escolas e a “ideologia de género”. Quando um partido denominado “socialista” faz política de contas certas do Excel para ficar bem na UE e se esquece de melhorar a vida da população (desculpem, amigos PSers), é fácil ir na conversa de culpar “a Esquerda” e “o socialismo”, apoiando um partido podre que se apresenta como a “alternativa ao sistema”.
Estou francamente preocupada com as inclinações políticas da juventude. Passear no Reddit é poder vislumbrar o fundo do esgoto, pois temos acesso ao que os miúdos pensam. No outro dia li que “quem não desconta não devia votar”. Quem é que anda a ensinar isto? Onde é a sociedade civil falhou? A escola? Os pais e a família? Os jovens rapazes, principalmente, são super radicalizados, misóginos e perigosos.
Queria escrever um parágrafo para dar raspanetes à Esquerda mas, sinceramente, não acho que mereçam assim tanto. Por muito que a tua mensagem seja boa, ponderada, com soluções concretas para os problemas do país, esta não chega aos eleitores porque, quando são partidos verdadeiramente anti-sistema, o sistema sabota-os: não lhes dá voz e distorce o que dizem. Ainda assim, é de esperar que a Esquerda faça uma reflexão e encontre uma nova estratégia para chegar às massas e recuperar a sua força.
Li este texto fantástico da Ana Drago, que também vos deixo aqui.
Honestamente, não sei o que vai sair disto. Se o PSD vai ceder e negociar com o Chega para conseguir formar governo, ou se vai continuar neste finca-pé, apresentar um orçamento, este não ser viabilizado e lá vamos nós a eleições outra vez. Estou curiosa para ver o que é que o Marcelo vai dizer ao país, depois de ter ouvido os partidos e de terem chegado os votos da Emigração.
Seja como for, os próximos tempos não se avizinham fáceis. Legitimou-se o ódio e as suas vozes estão mais audíveis. Quem anda pelo Twitter deve ter notado a diferença abismal no tom e na quantidade de respostas vindas dos eleitores da corja. Não estou em pânico mas tenho algum medo, não vou mentir. Espero mesmo - MESMO - que isto não descambe mais do que já está.
Entretanto vamos estando aqui na resistência. Na luta. ✊
Noutros tópicos mais alegres… A semana passada vi, finalmente, o vídeo que a YouTuber ContraPoints fez sobre o Twilight, tendo em conta que alguns amigos meus tinham visto e adorado. Não a conhecia, mas cliquei no vídeo e fiquei agarrada!
Que belíssima peça informativa, humorística, de verdadeiro entretenimento! A ContraPoints pega no Twilight e faz uma espetacular análise social, psicológica e política ao nosso mundo. Apetecia-me pausar o vídeo a cada 5 minutos e ir comentar o que acabava de ver, fiquei maravilhada. Cada segmento tornava-se mais interessante do que o anterior, fiquei dias a pensar no que tinha visto e, muito honestamente, tenho vontade de rever.
Sei que é assustador ver o vídeo e reparar nas suas quase 3h de duração, mas experimentem carregar no play e dar-lhe 10 minutos a ver se não ficam presos até ao final.
Um grande abraço,
Rafa ✊


Gostinho bittersweet de ter aparecido na minha newsletter preferida, mas ter de ser logo assim, com notícias ruins e esse sentimento compartilhado de quem já viu (e ainda vê, vou ser sincera) o próprio país se afundando num lamaçal das piores opiniões possíveis.
Quando o Bolsonaro foi eleito, bebi uma garrafa inteira de vinho do Porto (!!!) e passei muito mal, tanto do álcool quanto de desgosto. Fui dormir aos soluços e ainda ouvindo muitos gritos desaforados das janelas vizinhas, que o brasileiro além de tudo é exaltado. Acordei no sofá da casa do meu irmão no dia seguinte e me sentia meio etérea, como se fosse tudo ainda irreal, um pesadelo (e era). Meu sobrinho, que tinha 5 anos na época, alheio àquilo tudo, ficou extasiado quando viu que eu ainda estava na casa dele, me chamou pra ver seus brinquedos e pediu ajuda para fazer a lição de casa. Foi o meu primeiro chamado para: "que merda, mas seguimos de alguma forma".
Não tenho lá muitas palavras de consolo porque não sei se há e também não sei se as realidades dos dois países são absolutamente transponíveis (acho que não, apesar das infinitas semelhanças, meia noite te conto um segredo).
Mais tarde, naquele mesmo dia, fui à faculdade, visivelmente arrasada. Lembro que uma professora olhou pra mim e me disse: "eu sei. Mas vai passar" - essa pequenina troca foi, talvez, o meu brinco de cravos. Uma esperança mais simbólica do que palpável, mas efetiva na mesma, pra dizer de novo: sim, é uma merda, mas não tudo. Ainda estamos aqui e pronto, vamos aos poucos vendo o que dá - e se ajuda, ela hoje trabalha no governo do Lula :)
Não tenho muito o que dizer além de: eu sei, Rafa, mas vai passar. Vou deixar então o Chico falar por mim:
"Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
N'algum canto de jardim"
Beijinho <3