a nova era da Demi Lovato
Um exemplo de força e superação.
Nesta última semana e meia, os feeds das minhas redes sociais têm estado inundados de vídeos e fotos dos concertos da nova tour da Demi Lovato. Vejo cada vídeo com uma emoção imensa, fico com lágrimas nos olhos, e sinto um misto de FOMO, alegria e muito orgulho dela e pelo percurso dela.
Eu adoro a Demi Lovato. Não sou dada a idolatrias cegas, mas tenho mesmo um carinho muito especial por ela, por acompanhá-la há tantos anos e conhecer a sua história.
Apesar de ser, de longe - de looooonge -, a melhor voz da sua geração, a Demi nunca teve propriamente um grande sucesso comercial nem foi uma cantora consensual, com uma base de fãs alargada. Mas é tão bonito ver que os fãs que ela tem, são-lhe completamente devotos, e eu sou uma delas.
É impossível uma pessoa não se emocionar ao ver um vídeo destes, agora que esta mulher tem concerto atrás de concerto esgotado, continua com este vozeirão incrível e, acima de tudo, aparenta estar saudável e feliz.
Para quem não sabe, esta tour esteve para não acontecer, porque a Demi Lovato esteve para morrer. Vamos fazer um pequeno recap, prometo ser breve.
Mais uma estrela teen da Disney, a Demi saltou para a ribalta algures em 2008, ao protagonizar o musical Camp Rock. Ainda nesse ano, lança o seu primeiro álbum a solo, com grandes bangers que foram banda sonora dos meus dramas adolescentes. Apesar de eu ter sido obcecada pelo High School Musical, houve algo na Demi que me cativou. Talvez a atitude mais rockeira, que contrastava com outras colegas do canal.

Pois bem, passados poucos anos, a Demi lança o seu primeiro documentário, o Stay Strong (2012). Aqui, admite que teve, desde adolescente, problemas com abuso de substâncias, depressão severa, distúrbios alimentares e auto-mutilação. Ela tinha apenas 18 anos quando foi, pela primeira vez, para um centro de reabilitação. Aí, recebeu igualmente o seu diagnóstico de doença bipolar.
Uma coisa admirável nela é a sua honestidade crua e a forma como ela não teme expôr-se de forma vulnerável, mesmo quando erra. Nesse filme de 2012, onde alegou estar num ponto melhor da sua vida, ela já tinha recaído. Admitiu-o mais tarde, no Simply Complicated (2017), o seu segundo documentário. Aqui descobrimos ainda mais pormenores sobre o seu historial familiar, bem como os abusos que aconteciam nos bastidores da Disney.
Acompanhar a vida da Demi Lovato, enquanto fã que lhe tem o carinho parassocial possível, é estar com o coração nas mãos. Ela está bem? Está mesmo bem? Está em risco de recair? Já recaiu e finge que não?
É anunciada a vinda dela, pela primeira vez, a Portugal, ao Rock in Rio 2018. A minha sobrinha, 9 anos mais nova do que eu, também cresceu com a Disney e tem uma ligação muito especial à Demi Lovato (aliás, acho que foi por ela que voltei a acompanhar mais a vida da cantora). Por um milagre, uma pessoa conhecida queria vender os bilhetes dela para esse dia, que já estava esgotado, e ofereci-os à minha sobrinha no Natal. Íamos ver a Demi no próximo ano!
Em Junho de 2018, a Demi lança de surpresa a canção Sober, onde admite que teve uma recaída. Dias mais tarde, ela canta a música pela primeira vez ao vivo, no nosso Rock in Rio. Este concerto foi surreal e de uma emoção desmedida, por ser a primeira vez que a tínhamos cá e por ter sido meros dias após sabermos que ela já não estava sóbria. Foram duas horas com toda a gente a chorar pelas almas. Imaginem estarem nesta plateia dado o contexto:
Exactamente um mês depois, sai a notícia de que a Demi Lovato foi hospitalizada por ter sofrido uma overdose. Se, na manhã de 24 de Julho, a assistente pessoal dela tivesse chegado dois ou três minutos mais tarde, ela teria morrido. Aliás, para todos os efeitos, a Demi Lovato esteve clinicamente morta.
Naquela noite, chegou a casa e ligou ao dealer, que lhe vendeu heroína traçada com fentanyl. Além de lhe fornecer a droga, o traficante também abusou sexualmente dela na mesma noite.
Esta overdose fez com que a Demi sofresse três AVCs, um ataque cardíaco, falência de órgãos, danos cerebrais e pneumonia por se ter engasgado no próprio vómito. Ela ficou parcialmente cega e está legalmente impedida de poder conduzir um carro. Tudo isto foi revelado pela própria, noutro documentário dela, o Dancing With The Devil (2021).
Como digo, tenho uma distância saudável na admiração a celebridades, mas ter sabido desta notícia deixou-me de rastos. Nem consegui estar no twitter porque, perante uma notícia de uma cantora pop que sofreu uma overdose, as pessoas são cruéis, e não consegui lidar com o escárnio e as piadas de quem não conhecia a história desta pessoa.
A recuperação foi lenta e um tanto conturbada. Sem nunca ter tido uma equipa de jeito a acompanhá-la, a gestão da imagem pública da Demi ficou sempre aquém daquilo que ela merecia. Passou por uns momentos bizarros - meu deus, a fase em que ela foi para uma casa abandonada cantar para aliens…. - e depois, há uns anos, teve mais um rebranding e voltou ao rock. Admito que adorei, porque eu acho que ela é uma grande rockeira. Mas não é uma opinião consensual, e nem todos os fãs adoram este estilo.
Com a reputação tão debilitada, os concertos da era Holy Fuck eram mais pequenos e menos cheios. Soube há dias que a Demi, na altura, publicou um story em que admitia que aquela seria a sua última tour, pois não aguentava mais.
Então, por todas estas razões e mais algumas, foi com agrado que fui acompanhando a construção desta nova era. Acima de tudo, porque dava para vê-la a recuperar e a colher os frutos de toda a cura que foi fazendo. Agora, admito: apesar de, claramente, eu gostar muito da Demi Lovato, não acompanho por aí além a música dela. A verdade é que passo meses a fio sem ouvir nada, não conheço as músicas todas-todas e nem sempre gosto de tudo o que ela lança.
Em 2017, contudo, o álbum Tell Me You Love Me fez-me muita, muita companhia. Acho que é um álbum muito conciso, variando entre o pop e o r&b, com letras certeiras para muita coisa que eu estava a passar na altura. A minha canção preferida é capaz de ser mesmo a última, Hitchhiker, praticamente desconhecida do público, mas que retrata tão bem aquele nervoso miudinho quando se tem uma crush nova e só queremos acreditar que a coisa vai correr bem.
It’s Not That Deep é a nova era da Demi, é uma era divertida e de festa, e a sonoridade remete-nos para música house. Ainda estou a decidir se gosto ou não, se me relaciono ou não, talvez não tenha calhado bem eu só ter ido ouvir o álbum há dias, quando estava em fase lútea e pouco animada no geral. Sinceramente, só de a ver em palco tão feliz, ganho um novo e renovado apreço pelas suas canções. Tal como tem sido recorrente nos concertos pop, a Demi também tem uma gimmick com o público e, em cada concerto, é sorteada uma “Era” passada da qual ela canta uma canção-surpresa. Já pudemos ouvir a Catch Me, que ela compôs apenas com 16 anos; a Here We Go Again, hino de breakup de teenagers dos anos 2010; mas também a Anyone, aquela que poderia ter sido a última canção escrita pela Demi Lovato, dias antes da overdose, em que se ouve um desesperado pedido por ajuda.
A hundred million stories
And a hundred million songs
I feel stupid when I sing
Nobody's listening to me
Nobody's listening
I talk to shooting stars
But they always get it wrong
I feel stupid when I pray
Why the fuck am I praying anyway?
If nobody's listening
Anyone, please send me anyone
Lord, is there anyone?
I need someone, oh
Anyone, please send me anyone
Oh, Lord, is there anyone?
I need someone
Oh, anyone, I need anyone
Oh, anyone, I need someone
Não sei se acredito em forças divinas, em destinos pré-traçados, ou apenas no bom e velho dizer “todos temos a nossa hora”, mas naquela manhã de Julho de 2018, a Demi não tinha de morrer. Ela teve de sobreviver, ter uma segunda oportunidade e continuar neste mundo, agraciando-nos com a sua garra, perseverança, capacidade de reinvenção, força, humor, genuinidade e, claro, com o seu vozeirão inigualável de encher estádios.

You can take everything I have
You can break everything I am
Like I'm made of glass
Like I'm made of paper
Go on and try to tear me down
I will be rising from the ground
Like a skyscraper
Like a skyscraperDemi Lovato - Skyscraper
Demi, come to Portugal!!!! 🇵🇹🇵🇹🇵🇹



AAAAAAAAAAAA chegar ao substack e ter para ler um texto teu dedicado à Demi <333 é tão bom vê-la feliz e saudável. Gostava muito que ela fizesse uma tour pela Europa, para vê-la novamente.