Águas de Março
E as 29 promessas de vida no meu coração.
Escrevo-vos esta newsletter na véspera do meu aniversário, pois adivinha-se um fim-de-semana atarefado e, além de não ter tempo para a escrever noutra ocasião, queria precisamente fazer deste texto algo sobre a virada de mais um ano.
A 8 de Março de 2024 vou fazer 29 anos. É o meu último ano nesta década maldita que vou aproveitar para me despedir sem mágoa nem nostalgia. Os meus 20s foram, muito resumidamente, um verdadeiro shitshow. Eu pensava que a adolescência tinha sido complicada (que foi), mas a década de vinte foi tão desafiante que cheguei a pensar talvez ser uma daquelas pessoas básicas cujo pico de vida foi o liceu…
Durante os nove anos em que a minha idade começou pelo número 2 eu acabei a faculdade ilusoriamente deslumbrada com uma área profissional que não reflecte os meus valores, comecei a trabalhar e rodei de trabalho de merda para trabalho de merda, tive estágios mal pagos, chefes bullies, “azar”, pensei em ser freelancer, fiz uma pós-graduação em marketing digital, fui vendo a minha parca “carreira” a definhar, tendo começado numa agência com algum renome em Portugal e acabado numa agência de vão de escada em Alcântara. Algures no meio disto trabalhei no shopping, fui lojista e fui dispensada. Fui igualmente dispensada dessa última agência durante o primeiro confinamento, em 2020, e acabei por ficar desempregada dois anos. Ainda tentei viver do meu projecto astrológico (lol…) e o resultado foi um burnout em cima de outro burnout.
Não há dúvida nenhuma que o meu percurso académico e profissional marcou-me, negativamente, nesta primeira década de adultez. Foram muitos - muitos, mesmo - os dias em que me arrastei da cama para aguentar mais um dia numa agência de merda, a fazer um trabalho de merda, sob as ordens de um qualquer chefe de merda. Olho para trás e vejo como, muito possivelmente, eu estive debaixo de uma depressão altamente funcional, no período em que ia para o trabalho a fantasiar que o meu autocarro tivesse um acidente grave que me impossibilitasse de ir trabalhar e depois, ao final do dia, quando chegava a casa e só tinha energia para me deitar a ver Gilmore Girls e alienar-me da minha vida. Dá para perceber como é que passei dois anos desempregada, eu estava completamente arrebentada e só estava no mercado há meros quatro anos. Enfim.
A nível pessoal, mais shitshow. Os 20s não me trouxeram amor, nem aventuras que eu queira guardar com carinho. Vivi um aparente período feliz de auto descoberta que terminou com um coração partido de forma cobarde. Fui-me reerguendo disso e de outras mazelas do passado, e quando tudo parecia que ia encaminhado para algo fixe, também não foi. Mais heartbreak. Ainda não é desta. Not now!!!
Foi, igualmente, nesta década maldita que tive grandes crises de amizade. Grupos que se fizeram e desfizeram. Laços que eu considerava eternos caíram por terra, por nada de especial, apenas pelo efeito fatal da passagem do tempo e do crescimento. Há lutos para os quais ninguém nos prepara, e a morte de uma amizade antiga é um deles. Foi duro. Mesmo.
No meio disto tudo, vês os dias, os meses e os anos a passarem e a fugirem-te entre os dedos. Embora racionalmente saibas que toda a gente está na merda à sua maneira, a vivência é muito solitária. Parece que só eu é que tive azar no trabalho, só eu é que escolhi mal o curso da faculdade, só eu é que não tenho histórias de engate divertidas, só eu é que ainda vivo em casa dos pais sem perspectivas de sair, só eu é que não viajei assim tanto, só eu é que não saí muito à noite, só eu é que não passei da cepa torta. Somos inundados com uma falsa ilusão de que temos esta década para resolver e solidificar as bases da nossa vida e é assustador estares cada vez mais perto da década seguinte e sentires-te na mesma.
Sei que isto é mentira. Da mesma forma que, embora tudo o que vos contei até agora me ter marcado e me pesar, também tenho coisas boas que trago comigo. Foi nos 20s que solidifiquei a amizade com a minha melhor amiga, que me mostrou um mundo que eu não conhecia, me ajudou a pensar, fazendo com que eu conseguisse evoluir como pessoa e crescer. Perdi “amigos” para abrir espaço a outros, alinhados comigo, com os meus interesses e o meu sentido de humor. Que gostam de mim por quem eu sou e me dão espaço para existir sem me julgar.
Pude ver a minha sobrinha crescer, passar pelas águas sombrias da adolescência e tornar-se uma mulher, embora a veja sempre como a bebé mais fofinha do mundo que se suja a comer gelado e que eu tenho de limpar.
No meio das crises profissionais e após o desemprego, tive a lucidez de perceber o que me estava a fazer falta e encontrei um trabalho que, apesar dos seus pesares, me trouxe estrutura e me permite agora poder sonhar com a construção de novos objectivos. Tornei-me consciente do meu dinheiro e passei a gerir as minhas finanças de forma mais responsável. Investi em certificados de aforro!
Andei no ginásio, no treino funcional e por enquanto faço Yoga. Fiz um curso de Astrologia. Decidi começar a aprender italiano sozinha. Estou a aprender a coser à máquina. Descobri que adoro cozinhar. Fui comprando mobílias novas e mudei a disposição do meu quarto umas três vezes. Lancei um podcast (com a Margarida).
Pintei o cabelo, voltei a deixar crescer a minha cor, e agora vejo-me a ganhar brancos. Tive cortes curtos, mais ou menos, e cabelo comprido. Descobri que afinal fazia mesmo sentido usar um creme de pentear para definir o meu cabelo ondulado, em vez de me sentir uma fraude por usar produtos que se diziam para “cabelos encaracolados”. Engordei, cresci para o corpo de adulta, mas continuo com a acne de miúda. Fiz um plano dental e agora gosto de ir ao dentista.
Embebedei-me quando me apeteceu embebedar, fumei quando me apeteceu fumar, fui-me embora de sítios quando me apeteceu sair.
Fui vivendo.
Os meus 20s não foram, definitivamente, uma época feliz. Não foram, não vale a pensa estar aqui com uma falsa felicidade descoberta no final do texto. Tiveram os seus momentos de magia, claro, mas são anos que não me vão deixar saudades. Lamento, não vão.
Há uns tempos era comum ler tweets ou ver tiktoks de malta a dizer “os 20 são realmente uma merda, nos 30 é muito melhor porque bla bla bla”. Também já não me iludem com essa. Sei o ponto da minha vida actual e, a menos que o universo ou o Buda ou lá o que é, me troque as voltas e traga boas surpresas assim de arrombo, o meu começo na década de 30 vai ser desafiante. O que me reconforta é que será desafiante mas, talvez pela primeira vez na vida, vou estar consciente de que tomei as decisões por mim, porque eu quis, a pensar no meu futuro. Os 30 serão desafiantes mas - oh, meus amigos! - trago cá uma armadura… Sei-me mais crescida, segura de mim e com outra maturidade. Olho para trás e vejo a década dos 20 anos como a década do Palhaço Tiririca, Pior do Que Está Não Fica!
Por isso, tal como em Dezembro estava tão entusiasmada pela virada do ano, também hoje estou entusiasmada com o meu aniversário e por entrar no capítulo final desta fase. Que os 29 sejam, de facto, o meu ponto de viragem e que eu consiga deixar para trás o que não faz falta levar comigo. Será um ano de enterros e, se tudo me correr bem, renascimentos. E já não tenho em mim mais alegorias foleiras sobre términos e começos com que encher este parágrafo.
Siga, 29 anos. Vou muito a tempo.
Bom, quando esta newsletter vos chegar, já saberemos o resultado das eleições… Mas estou a escrevê-la na quinta-feira, pelo que só vos trarei um comentário ao resultado (se me apetecer) na próxima semana. Olhem, é da maneira que, no meio do caos mediático que deverá estar montado nesta segunda-feira, se divertem a ler sobre as palermices vividas desta fulana.
Um grande abraço,
Rafaela



Olha é muito isto:
"No meio disto tudo, vês os dias, os meses e os anos a passarem e a fugirem-te entre os dedos. Embora racionalmente saibas que toda a gente está na merda à sua maneira, a vivência é muito solitária. (…) Somos inundados com uma falsa ilusão de que temos esta década para resolver e solidificar as bases da nossa vida e é assustador estares cada vez mais perto da década seguinte e sentires-te na mesma."