Ai, que bem cheiras
Algumas observações sobre o mundo online da perfumaria.
Talvez tenha sido de mansinho, ou então foi de um dia para o outro, mas a Internet anda obcecada com perfumes. Ok, talvez não a Internet e apenas um pequeno nicho. É possível que vocês não sejam cronicamente online como esta que vos escreve e o fenómeno vos tenha passado ao lado, portanto cá estou para vos trazer os meus reparos e observações sobre esta nova trend.
Não consigo precisar quando é que começou. Não me querendo armar em Vénus em Aquário, mas já armando, lembro-me perfeitamente de, nos idos do ano de 2021, já ter começado a seguir, no TikTok, uma rapariga que falava de fragrâncias com grande paixão, conhecimento e entusiasmo. Mas pensei que talvez fosse um fenómeno isolado e deixei para lá. No entanto, o bichinho ficou.
A verdade é que eu gosto de perfumes. Perfumes bons, entenda-se. Admito, sem vergonha, ser este um dos meus maiores traços de esquerda-caviar, sou realmente snob no que toca à arte da Perfumaria. Desde que me lembro que rejeito a ideia de ter perfumes de imitação, ao estilo do que é vendido nas Equivalenzas da vida, assim como olho (ou, melhor dizendo, cheiro?) com desconfiança para perfumes estilo Boticário, Avons, e outros que tais. Mesmo os da Zara, que são badalados pelas girlies dos perfumes, não me puxam. Sempre que estou na caixa de uma fast fashion experimento os testers que estão por lá e não gosto de nada. Não consigo explicar, mas todas essas fragrâncias me cheiram a perfumes de brincar.
Gosto de perfumes de boas casas, pronto.
Porém, no final do dia, eu sou mais da esquerda do que do caviar, então este foi um interesse que foi recalcado. Sem dinheiro para comprar perfumes aos meus padrões e sem vontade de ter dos outros, preferia andar sem nenhum. Durante a adolescência, fui conseguindo ter um ou outro exemplar, em ofertas de Natal e de aniversário. Quando esses acabaram, andei sem perfumes até que a minha prima me deu, não sei precisar quando, um 212 VIP Rosé que ela não tinha gostado assim tanto. De facto, não é um perfume espectacular, mas serviu para me incutir o hábito de me perfumar diariamente. Juntando ao que começava a ver na net, foi a gota de água que faltava para eu me deixar levar neste universo.
Avançando para os últimos tempos, começaram a surgir na minha timeline recortes de ecrãs com frascos de perfume, as respectivas notas e características. Vim a descobrir que eram do site Fragrantica, a bíblia para quem está neste nicho. Então, percebi que há contas de Twitter inteiramente dedicadas a falar sobre perfumes. Há mais TikTokers, há YouTubers. E, claro, há os curiosos, os comuns mortais curiosos, como eu. Gourmand, musky, sillage, lactonic, tudo palavras que estava a descobrir e agora fazem parte da minha vida online. Só que nem tudo são aromas doces e florais e, no universo online das fragrâncias, a coisa às vezes cheira mal.


O fragrancetwt (traduzindo, a comunidade do twitter das fragrâncias) assistiu recentemente a zangas, barracadas, trocas de acusações e lavagens de roupa suja (curiosamente, entre as duas pessoas que usei para o meu exemplo acima). Mas, beefs perfumados à parte, tenho pensado antes nisto de nos envolvermos num nicho específico de Internet e no consumo que lhe vem associado.
Não me surpreende, pois já andava cá na década passada, no auge das YouTubers de beleza e do super-consumo de maquilhagem. Quando o objectivo era coleccionar as paletas de sombras da Urban Decay e se olhava de forma gulosa e aspiracional para as gavetas cheias de blushes, pincéis e batons das meninas do YouTube.
Agora, no mundo das fragrâncias, surge mais ou menos o mesmo fenómeno. Threads enormes com recomendações de perfumes que, graças às descrições criativas, nos dão vontade de ter (leia-se, comprar). Há sempre uma fragrância nova, uma casa perfumista ainda mais de nicho, um novo perfume queridinho da malta especializada. Como deu para perceber, passo mais tempo na rede social que ainda prioriza o texto, mas já vi vídeos a analisar este fenómeno, e é impressionante os quartos com prateleiras e prateleiras cheias de frascos de perfume, das mais variadas marcas, com todas as variações da mesma fragrância, que são exibidos pelos TikTokers e YouTubers da perfumaria.
Por que é que isto pode ser um problema? Porque, do outro lado do ecrã, estão os comuns mortais sujeitos a este constante sentimento de FOMO, sempre ansiosos porque não têm aquele perfume e ainda não experimentaram aquela fragrância. Vai crescendo dentro de cada curioso uma espécie de Síndrome do Impostor, como se o nosso coleccionismo mais lento fosse menos válido. Como assim eu acho-me uma interessada em perfumaria se ainda nem cheguei a cheirar o Pear Gelato? Por outro lado, não sabes sequer por onde começar? Não te preocupes! Provavelmente a pessoa que gostas de seguir já disponibilizou um serviço de consultoria (!!!) para te guiar nas tuas compras.
Mas dizem os antigos que quem não tem dinheiro, não tem vícios, e a verdade é que se a maquilhagem já era um hobby caro, a perfumaria é um hobby caríssimo. Felizmente, consigo contar com a minha maturidade e apertada gestão financeira (e os bons descontos da Primor) para não me desgraçar, porém, já começam a aparecer vídeos e tweets com dicas para as pessoas não caírem na ruína orçamental à conta dos perfumes, portanto algo de grave se começa a passar.
O maior problema, diria eu, tem a ver com o mundo online, o imediatismo ilusório das redes sociais e o prazo de validade curtíssimo do assunto do dia. O perfume que hoje está badalado, amanhã é substituído por outro. Há uma constante necessidade de se mostrar um novo tesouro escondido, de postar outro print de notas aromáticas, enfim, you get the point. As redes sociais trouxeram uma falsa noção de proximidade entre aquilo que hoje denominados de influencers e o que é o público-geral. De repente, a girly dos perfumes tem um perfume novo, e ela é só uma moça na internet, como eu, então eu também posso e preciso de ter exactamente esse perfume.
Só que o que nos falha na racionalização da coisa, é que as redes sociais são uma ilusão. Uma farsa que é montada à medida da história que cada um de nós quer contar. As meninas (e meninos) dos perfumes podem estar todos os dias a falar de um exemplar novo, mas não explicam nem são transparentes sobre como é que o dito cujo lhes foi parar às mãos. Não é que o tenham de fazer, só que, da mesma forma que sabemos que um filme é ficção, temos de começar a entender que a vida online tem os seus efeitos especiais. Assim, não vale a pena estarmos tristes, ansiosos, ou a sentirmo-nos impostores porque alguém que vive no telemóvel mostra um perfume novo de que nunca ouvimos falar. Muitas vezes, apesar da imagem de um frasco inteiro, eles estão só a falar de amostras que estão a testar. Podem ser pessoas com maior disponibilidade financeira. Ou, como prevejo que esteja para breve, podem estar a divulgar perfumes recebidos em packs de PR, seja das próprias Casas, seja de algum site de vendas, associando ali um link de afiliado como quem não quer a coisa.
Seja livros, maquilhagem, roupas, skin care, perfumes, ou outro interesse de nicho que surja no online, é importante mantermos os pés na terra do offline. Perceber o que resulta para nós na vida real, e não viver em função daquilo que gostaríamos que fôssemos, nem sentir que precisamos de mais e mais e mais para impressionar uns supostos alguéns da Internet. Num mundo e num sistema que prioriza o consumo, dar um passo atrás e pensar antes de comprar acaba por ser, à sua pequena escala, um acto de resistência.
Façamos compras e consumos mais conscientes e moderados. Afinal, assim como nos borrifos de perfume, tudo o que é demais enjoa.



