ALUGADO
O fenómeno dos cacifos privados do ginásio.

No balneário do meu ginásio existem, sensivelmente, 200 cacifos. Cada atleta tem de levar o seu próprio cadeado e não se podem deixar lá pertences, sob pena de se ver o cadeado arrombado. Na altura da inscrição, foi-me explicado que haveria a possibilidade de alugar um cacifo, ou seja, escolher um armáriozinho próprio, onde é colado um autocolante a dizer “ALUGADO”, pela módica quantia de +1€ em cada débito directo (a modalidade dos débitos depende do contrato que cada pessoa tem, portanto pode ser um pagamento semanal, quinzenal ou mensal, etc.). Pensei “que absurdo, para quê?!”, e segui a vida.
Ora, qual não é o meu espanto quando, nos últimos meses, vejo uma proliferação destes autocolantes nos cacifos do ginásio. Se dantes tínhamos apenas o “ALUGADO” nos cacifos destinados às pessoas do staff da limpeza, e um ou outro cacifo de alguma atleta, agora reparo em filas inteiras cheias do marcador de propriedade: ALUGADO ALUGADO ALUGADO ALUGADO ALUGADO. Mais uma vez, pergunto-me: para quê?!
Que necessidade absurda é esta que as pessoas sentem por deter posse, uma propriedadezinha privada, que as impele a autorizar o débito directo de +1€ só para ter um cacifo Alugado no ginásio? Para que tipo de pessoa é que compensa ter esta despesa extra? São atletas de alta performance que precisam de treinos regulares e assim até conseguem deixar alguns pertences no gym? Duvido. Genuinamente gostava de perceber qual a lógica de bloquear um armário o dia inteiro só para garantir que, quando chegam ao ginásio às 18h45 para a aula de spinning, têm lá o seu cacifo alugado. Quem são estas pessoas? E, se calhar, descobri.
Portugal não tem boomers. Não no sentido canónico do termo, pois não fomos participantes activos da II Guerra Mundial, logo, não tivemos um baby boom no pós-guerra. No entanto, tenho reparado que existe, sim, uma geração em Portugal que encarna as características que habitualmente são atribuídas aos boomers anglo-saxónicos, principalmente em termos do entitlement, que tem a tradução pouco intuitiva para direito. Um certo direito que esta geração pensa que tem a certas coisas, fruto de se terem emancipado financeiramente em relação à geração anterior. Os boomers conseguiram mais qualificações, melhores trabalhos, rendimentos fixos, benefícios atractivos nos seus locais de trabalho, acesso à propriedade e, de um modo geral, puderam viver aquele sonho americano da família que vive nos subúrbios e tem dois filhos e um cão. E isso deu-lhes um certo sentimento de moral elevada, uma nova forma de encarar o mundo, pouco empática e mais individualista, permitam-me dizer.
No nosso país, dificilmente pessoas nascidas neste período (após 1946) têm este mindset, até porque cresceram e tornaram-se adultos sob uma ditadura fascista, conservadora e aberrantemente focada em manter a população pobre. Não havia bons salários, bons empregos nem acesso à habitação. Isso aconteceu tudo depois de Abril. É assim que declaro, graças a um estudo sociológico levado a cabo Aqui Pela Je, com o máximo rigor científico que a minha capacidade de observação permite, dizer que, espiritualmente, a geração Boomer portuguesa são os bebés nascidos ao redor do 25 de Abril de 1974. Nós não temos boomers, mas temos, definitivamente, Cravoomers1.
Pausa para Higienização Moral: não, nem todas as pessoas nascidas nos anos 70, em Portugal, cresceram para se tornar adultos entitled. Nem todos foram tirar cursos universitários e conseguiram subir no elevador social. Continuamos a ser um país pobre, com uma população pobre, que vive sob condições financeiras precárias e longe do sonho boomer de pertencer a uma classe média confortável. Not all nascidos nos anos 70, pessoal!!!
Os nossos Cravoomers tiveram a oportunidade de crescer já sem as amarras do Salazarismo. Tinham agora uma escola pública que os incentivava a prosseguir os estudos. Alguns foram os primeiros licenciados da família. Num país de analfabetos, tiveram a sorte de se poderem tornar Gestores, Advogados, Engenheiros, Arquitectos, profissões anteriormente destinadas apenas à elite. Conseguiram bons ordenados. Compraram casa com acesso ao Crédito à Habitação Jovem e os famosos juros bonificados, quando um contrato de estágio era suficiente para o banco aprovar o financiamento. Foram adolescentes nos anos 80-90, ainda sem telemóveis e a poderem andar na rua, por isso no tempo deles é que era bom. Estão a seguir o meu raciocínio, certo? Conseguem perceber a minha visão?
Os Cravoomers eram aquilo que eu, há 10 anos, identificava pejorativamente como “os quarentões”. Agora na ternura dos 40 já temos millennials e tive de actualizar o demarcador para “cinquentões” - nem todos estão lá, mas para lá caminham. Há Cravoomers ainda nos 47, 48… Como disse o outro, é fazer as contas.
De volta ao ginásio, que eu não me esqueci de onde isto vinha. Um belo dia, sentada à espera da aula, estava a falar comigo uma Cravoomer com quem costumo trocar umas palavras e conversa de circunstância. Pelo corredor, aproxima-se outro Cravoomer, amigo de ginásio da minha conhecida, que trazia na mão o famoso autocolante ALUGADO, e nesse seguimento surge esta conversa:
- Opa, sim, fui ali pedir para alugar um cacifo porque isto [o gym] agora anda uma loucura… tá sempre cheio!
- Então, eles [o staff] disseram-me que tiveram 3 mil novos sócios!
- Uma pessoa chega aqui [são 19h21] e depois anda à rasca a ver se tem cacifo [tem] então fui-me informar, e é só +1€! Quer dizer, por cada vez que tens o débito, tás a ver?
- Aaah… então vale a pena. É +1€? Pois, é que uma pessoa chega aqui e às vezes é uma dificuldade para arranjar cacifo… [não é]
Mais uma vez… Para uma determinada pessoa poder garantir que tem um cacifo à sua espera às 19h, fica um ginásio inteiro privado de usar aquele espaço. Isto faz algum sentido? Claro, not all Cravoomers, mas noto esta tendência nos cinquentões de não tolerarem qualquer tipo de adversidade ou mínimo desconforto. Arriscar chegar ao ginásio e ter de perder 30 segundos à procura de um cacifo livre? Deus me livre!!! Activa aí o débito directo de +1€ que o meu ordenado pós-Abrileiro aguenta. O quê, vão-me dizer que só posso marcar a aula na app de véspera e depois não tenho vagas? Activa outro débito de +1€ que me permite marcar aulas com uma semana de antecedência, agora que ninguém me prive do RPM sff!!!
Pergunto-me se será esta a tal “natureza humana” que os anticomunistas alegam sempre existir como a principal causa para não se conseguir abolir o sistema capitalista. Porque há sempre alguém que não tolera o desconforto de viver em comunidade, de estar sujeito às mesmas regras dos outros. Se é possível pagar para ter outras regras, então vou pagar! Até me sinto mais importante, agora faço parte da casta superior do ginásio que tem o privilégio de marcar aulas com uma semana de antecedência, ao contrário da plebe que só o pode fazer de véspera. Agora tenho o privilégio de poder deixar a embalagem do champô no cacifo, já ninguém me vai arrombar o cadeado porque, ao contrário da plebe, eu pago para ter a minha propriedadezinha privada e ali está colado o meu autocolante ALUGADO.
A privatização dos cacifos do ginásio faz-me especial confusão porque, tal como outras venturas capitalistas, não é sustentável a longo prazo. É um sistema que carrega em si próprio a falha que o auto-destrói: se todos os atletas decidissem alugar um cacifo, não haveria cacifos suficientes para todos alugarem; se todos os cacifos estiverem alugados, então o ginásio só pode ter um número máximo de 400 membros (vamos assumir 200 cacifos por cada balneário). Haver 50 cacifos alugados significa que 50 pessoas têm reservado um espaço, deixando outras centenas de praticantes a disputar os 150 que sobram. Mas e quando os 50 alugados forem 75? Ou 80? 90 cacifos? É possível marcar aulas na aplicação do ginásio, mas estão sempre garantidas vagas exclusivas na máquina de senhas da entrada (é onde, de resto, eu tiro sempre senha para poder deixar o telemóvel no meu cacifo não-alugado). Nos cacifos, haverá esta gestão? Em que moldes é que o ginásio define o rácio limite entre cacifos privados e cacifos públicos? Por que é que isto é, sequer, uma opção? Eu sei, eu sei… Para o ginásio sacar +1€ de todos aqueles que querem ter um cantinho a que podem chamar de seu.
Pois bem, sou contra isto tudo. Se é assim tão chato e difícil arranjar cacifo, então a luta devia ser com a gestão do ginásio, que claramente aceita novos membros sem infraestrutura que o permita, em vez de se embarcar na solução capitalista e privilegiada de pagar para aceder a um novo patamar de privilégio. Se isto não for justificação suficiente para se abolir com os cacifos privados enquanto conceito, então acho que deviam ser abolidos pelo simples facto de eu só querer ir desfrutar de uma aulinha de exercício físico, e acabar revoltada por entrar nestes buracos negros de análise político-social no balneário.
Irra, que ter uma visão marxista da realidade às vezes é mesmo uma maldição.





Hahahaha adorei. Só tu para fazeres deste tema uma análise político-social deste tema e muito bem falado (como sempre). Dá-lhe, karlita marxa!
E é por isto que tenho Substack. Muito bom!
Obrigado.