Artistas da Piça
Já estou farta deles todos.
Admito que tenho um preconceito com fadistas nova-geração, algo naquela vibe de nariz empinado não me inspira confiança. Há mesmo nomes que, de resto, abomino completamente. Há outros com os quais simpatizo mais. A Gisela João, admito, estava num nem-nem. Devido ao meu preconceito, nunca investi em querer saber mais sobre ela do que aquilo que me chegava acidentalmente; mas também não me causava uma raiva visceral inexplicável. Nem, nem.
No entanto, a Gisela foi conquistando o seu espaço público e simpatias de vários quadrantes artísticos e culturais. De repente, toda a gente falava da Gisela, e de como ela é uma pessoa incrível, uma artista formidável, beca beca beca… Ok, será que há aqui algo que me está a escapar?
Na última edição da Festa do Avante, a Gisela João foi uma das artistas convidadas. Não vi o concerto dela pois estava ocupada na fila para as tripas de Aveiro (enfim, peripécias da Festa!…), mas ela depois apareceu em palco para cantar a sua parte de Danúbio, no concerto da Capicua. A Capicua chama-a a palco, apresentando-a como uma pessoa maravilhosa, mais uma vez, e dizendo que a convidou para esta canção porque o tema precisava de uma voz como a da Gisela, uma voz que parece nascida das profundezas da terra, como disse a Ana. Ficou-me no ouvido, passo o trocadilho básico. Dias depois, vejo algures online a Gisela dizer que o seu concerto na Festa do Avante foi um dos mais especiais que ela já deu, que vibrou e adorou o público e a experiência. Aqui percebi que realmente deveria haver algo de especial na Gisela João, mas já cá volto.
Fui ficando atenta. Quando ela foi convidada de um episódio do Voz de Cama, não hesitei em ouvir e descobri uma mulher simpática, divertida e inteligente, e comecei a render-me. Esta semana, andando eu um pouco melancólica e metida para dentro, dei por mim a scrollar no feed do podcast A Beleza das Pequenas Coisas e esbarrei no episódio com a Gisela João. Play.
Este podcast do Bernardo Mendonça é perfeito para aqueles dias em que estamos mais instrospectivos e nos apetece ouvir uma conversa franca, que nos permita conhecer a fundo o entrevistado, o seu intelecto, a sua visão do mundo e a sua história pessoal. Uma espécie de Alta Definição não-azeiteira, digamos assim.
A entrevista com a Gisela João não foi diferente. Fiquei a conhecê-la melhor e adorei tudo o que ouvi. A Gisela falou da sua história, de como veio do nada, de Barcelos para a cidade grande, tentar singrar na música. Das dificuldades de ser uma artista que partiu do zero - do zero mesmo - e que subiu a pulso sem conhecimentos na indústria, nem contactos, nem padrinhos. Contou de algumas crises pessoais que teve, relacionadas com saúde mental, bem como daquilo que são os seus dias, ora bons, ora melancólicos. Adorei perceber o seu processo criativo. Acima de tudo, gostei de a ouvir falar de política e da sociedade, apesar de ela fazer algo tão habitual, sobretudo em mulheres, que é dizer que está para ali a falar mas não percebe nada disto. Percebes sim, Gisela. Tu sabes do que falas.
Alguma da conversa focou-se no último álbum da Gisela, o Inquieta, que é uma colectânea de novas versões de cantigas de intervenção. Ela dizia que era assim que se sentia: inquieta. Inquieta com o estado do mundo e do nosso país, com a ascensão do fascismo, e algo nela a impelia a cantar sobre isso. E assim nasceu este álbum, da vontade que ela teve de falar e de marcar uma posição cultural, social e política.
E eu, a este ponto, já estou completamente maravilhada, enfatuada e apaixonada pela Gisela João. Sabem porquê? Porque estou absolutamente farta de Artistas da Piça.
Agora vem o disclaimer: não, nem todos os artistas têm de se posicionar politicamente, nem têm de trabalhar toda a sua arte nesse sentido. Meu Deus, imaginem o tédio se, de repente, só houvesse canções de intervenção! Não se trata disso.
No entanto, tenho a dizer que começo a ficar farta da neutralidade. De pessoas com voz pública que conseguem avançar pelos dias sem nunca tomar uma posição que seja. E, sim, vou dizê-lo: não quero saber destes artistas. Ou seja, tudo bem, posso ouvir as músicas ou ler os livros ou ver os filmes, conforme o meio, mas não me vou envolver. Prefiro, se possível, dedicar a minha atenção e o meu apoio activo a pessoas que não têm medo de falar e que estão do lado certo da história.
Voltando à Festa do Avante: não é regra absoluta mas, por norma, os nomes que actuam na Festa são de pessoas politicamente atentas. É normal, é propício face ao cariz político do evento. O que faz com que, nos concertos, as intervenções entre o artista e o público tenham esse cunho político-social. Mais do que a ladainha habitual do “muito obrigado por esta noite”, “que público incrível!”, “estou muito contente de estar aqui”, há uma conversa, uma tomada de posição. Por vezes, surpreendente: não conhecia o trabalho do Stereossauros, mas esteve em palco de t-shirt alusiva ao 25 de Abril, falou de como ele próprio é visitante da Festa desde adolescente, e ainda passou uma versão a cappella de Grândola Vila Morena pela voz da Amália Rodrigues. Nesse concerto, o Carlão subiu a palco e partilhou o choque de, em novo, ter de andar a fugir de skinheads na Cova da Piedade e, agora, a filha lhe contar que entre os adolescentes estão a voltar estas simpatias com a extrema-direita. São meros exemplos de entre tantos concertos com tantos artistas de diferentes nacionalidades, com diferentes lutas e diferentes mensagens.
Caramba, transmitem algo mais do que a mera mensagem-padrão da piça, num concerto da piça, e trazem algum alento. A verdade é que, face ao clima actual que estamos a viver, sinto que um artista tomar uma posição anti-fascista me dá alento, faz-me sentir que não estou sozinha e que ainda há a coragem de usar o espaço que têm para falar e para lutar por um mundo melhor.
Que nunca nos esqueçamos de que tudo é político, incluindo a Arte e a música. E que optar pela neutralidade é, igualmente, uma posição política. Foquemo-nos então nos artistas mais corajosos.
Podem decretar mandar calar-tе
Dizer que a nossa voz é um enguiço
Podem decretar o fim da arte
E a gente faz uma canção sobre isso
A Garota Não - Canção Sem Final
Sobre o Inquieta
Na entrevista, descobri que a Gisela João é, agora, uma artista independente. Ou seja, não está agregada a nenhuma grande produtora musical, trabalha só ela e a equipa dela. Depois de ouvir o podcast, fiquei com vontade de ir ouvir o álbum e assim o fiz. Fui sem expectativa, porque fico de pé-atrás com estes projectos de revisita a clássicos do cancioneiro nacional, acho sempre que acabam por se ficar com versões um bocadinho tacky - à falta de palavra em português que me transmita o sentimento… foleiras, vá. Ficam um bocadinho foleiras.
Assim, foi com agradável surpresa que percebi que, no Inquieta, a Gisela pegou nas canções e deu-lhes realmente uma nova roupagem: as músicas têm um toque contemporâneo, estão frescas e soam a algo novo e não a um cover manhoso. Na entrevista com o Bernardo, ela confessou que não tem formação musical e que acaba a conseguir fazer música porque tem, ao seu redor, pessoas que a sabem traduzir. Lembrou-me um pouco do processo do António Variações, que também era muito intuitivo e nada formal. Ao ouvir o álbum, percebi como a Gisela está rodeada de pessoas que devem gostar imenso dela, pela forma cuidada e bela como as canções soam. Nota-se que foi um álbum feito com muito amor. Fiquei com vontade de o comprar, ainda para mais sabendo que foi uma produção independente. Querendo fugir o máximo possível a intermediários, fiquei com pena que no site da Gisela só esteja a versão vinil. No entanto, descobri o site Rastilho, uma loja portuguesa de música e merchandising que existe desde 1996, e é daqui que vem a minha compra, para escapar às mega-stores internacionais. Chamemos-lhe o meu activismozinho consumista da piça.





Estou muito feliz a ler o teu texto porque estive num concerto da Gisela João na sexta-feira e ela é realmente uma artista diferente — o Inquieta foi um dos meus álbuns favoritos do ano passado. Acho que, além do vozeirão, sempre que é convidada para podcasts, ela é muito generosa e genuína nas suas partilhas e nota-se que as opiniões que partilha são pensadas, honestas.
Aproveitando um comentário ali abaixo, estou muito curiosa em saber o que vais achar d'A Garota Não, porque até acho que os temas das músicas dela ligam muito a temas sobre os quais já te vi escrever.
Bom dia, gostei imenso do seu texto.
Tenho a referir, que sim a Gisela João, é uma pessoa excelente, numa outra vida, fui transportá-la para um concert na Guarda, e tive ocasião de privar um pouco com ela, foi de um acolhimento e de uma simpatia extrema e genuina. no decorrer das Festas da Srª da Agonia 2025, deparei-me com ela a sair do comboio, mas ia tão simples e descontraida, que não tive coragem de a abordar, para não atrapalhar o seu caminho.