Bodas de Sossego
Dois anos de paz.

A manhã seguinte ao desgosto é a mais brutal de todas. O despertador toca, a tua mente ganha consciência, e imediatamente pensas “acabou”. É das únicas manhãs em que o teu corpo não luta por dormir mais cinco minutos. Estás plenamente acordada e estás a rever mentalmente tudo o que se passou.
Acabou.
Acabou.
Acabou.
Está a fazer dois anos desde que despertei nessa manhã seguinte, a única em que não premi um snooze. Levantei-me e fui para a casa-de-banho tratar das burocracias humanas do despertar, cheguei à cozinha, “hoje despachaste-te cedinho” diz-me o meu pai. Pois foi, hoje despachei-me cedo.
Este desgosto foi um choque mas não uma surpresa. Já andava a ser adiado desde o primeiro dia, para ser totalmente honesta comigo. Mais uma trapalhada emocional em que me envolvi para fugir de outras, bem como de outros aspectos menos felizes da minha vida que aconteciam ao mesmo tempo que durou esta ilusão. Sabia que nada nesta situação era saudável para mim, mas ainda assim tive de lá ficar até ao limite. Até à noite anterior à manhã seguinte ao desgosto.
Penso que posso ter adiado tanto este final por saber que, depois desta, ia fechar a loja durante tempo indeterminado. O padrão repete-se, pessoa atrás de pessoa, e decidi que queria quebrá-lo, ainda que isso significasse ficar-me só pela minha pessoa, a arrumar esta cabeça e este coração. Por outras palavras, decidi que ia curtir o meu coração partido em todo o seu esplendor. Curiosa escolha de palavra, não é? Foi um processo horroroso de muita dor e mágoa, mas algo que eu precisei de passar e, já que o estava a passar, queria desfrutar. Tanto quanto uma pessoa acabadinha de partir o coração consegue, pelo menos. Então, em jeito de homenagem a estes dois anos de desgosto, quis partilhar tudo o que fiz naqueles primeiros tempos sem chão e que me ajudaram, a pouco e pouco, a reerguer-me.
O acordar imediato durou exactamente uma manhã, no dia seguinte estava de volta à preguiça que me assola sempre que ouço o malvado despertador. Decidi, para me dar algum alento, escrever uma mensagenzinha pirosa na etiqueta do alarme, e fiquei com este “You’re here ❤️🩹 i love you” , de mim para mim, até hoje.
Como é óbvio, precisei de escrever e escrever e escrever, portanto outra das primeiras medidas foi abrir, no Notion, uma página chamada Cabecinha Pensadora para poder desabafar as minhas mágoas do desgosto (e outras, entretanto). E, caramba, como escrevi. Eu escrevia à secretária, no trabalho; eu escrevia no telemóvel, antes de dormir (clássico!); eu escrevia sentada na sanita; sei lá… sempre que o meu peito não aguentava mais, lá estava eu a abrir o raio do Notion para despejar a minha verborreia.
Encomendei o livro Perder-se, da Annie Ernaux, porque fui pesquisar livros desta autora e a sinopse foi demasiado on point para eu não o comprar no imediato. Devorei este livro, foi mesmo muito catártico para mim lê-lo. É o diário que a Ernaux manteve durante o tempo em que foi amante de um diplomata russo casado, quando ela se viu perdida (ah!) no meio daquela paixão obsessiva. Foi um grande aconchego porque eu pensava que se até a Annie Ernaux, Nobel da Literatura, se perde de obsessão por um tipo qualquer, quem sou eu para não passar por isso?! Como bónus, esta leitura fomentou ainda mais a escrita de que falei no ponto anterior.
Agarrei-me aos livros e acho que foi algures aqui que comecei a ler, pela primeira vez na vida, com verdadeira atenção, sem estar a percorrer as palavras com os olhos mas com a cabeça perdida nos meus cenários imaginários. Mergulhava nas histórias que estava a ler com o máximo de foco, para escapar e me distrair da iminência do coração partido e, depois, do coração propriamente partido. Aproveitei para ler livros que me dessem real gozo, que me entretivessem e pelos quais estava genuinamente curiosa. Destaco, por exemplo, o My Year of Rest and Relaxation, da Ottessa Moshfegh; o I’m Glad My Mom Died, da Jennette McCurdy; e o Kitchen Confidential, do Anthony Bourdain.
Desloguei-me da conta B que tinha no twitter, onde mantinha contacto com a pessoa, e, mais tarde, voltei lá para encerrar de vez esta conta. Mudei o meu nome na conta principal para deixar de ser “a rafa”, que foi tudo o que afinal eu fui para ele. Silenciei-o na redes sociais. Apaguei todas as fotos, prints, e demais recordações que me fossem lembrar da pessoa ou de momentos em que estava a pensar na pessoa, ou outros easter eggs quaisquer perdidos no rolo da câmara, prontos para me arruinar o dia se por acaso me cruzasse com eles.
Aproveitei a promo da black friday e ofereci-me a mim mesma uma subscrição do Filmin, que eu tanto fantasiei dividir com o indivíduo. Deixei de me silenciar em relação a coisas que eu realmente gosto e sobre as quais não falava muito porque ele não gostava e eu queria essa aprovação acima de tudo. Peguei na playlist que tinha de músicas que me faziam lembrar dele ✨❤️💌😍 e mudei para músicas que me faziam lembrar dele 🔪🥀💔☠️😞. Chorei a caminho do trabalho ao som de All Too Well (10 Minute Version) (Taylor’s Version) [From the Vault].
Pesquisei sobre o conceito de Limerence, encontrei a newsletter do Dr. Tom Bellamy, e ainda hoje recebo e-mails de lá, que vou lendo, apesar de já estar melhor. Comecei a seguir a Jillian Turecki e, num episódio do seu podcast que por acaso ouvi, ela referiu que pessoas com tendência a fantasiar muito e a sonhar acordadas com uma potencial relação/pessoa é porque são muito criativas, então, devem encontrar uma forma saudável de extrapolar essa criatividade, em vez de ficarem a alimentar ilusões. Deve ter sido o pontapé que me faltava, porque logo em Janeiro finalmente ganhei a coragem para abrir o substack e assim nasceu esta Crónica Lunática, com o propósito de me fazer escrever 1x por semana, para extrapolar aqui a criatividade que tenho a mais e que dedicava a propósitos muito menos nobres. Sim, este foi um substack consequente de um coração partido, e percebo-o agora. Muitas das Crónicas dos primórdios foram desabafos sobre isto, mais discretos, menos discretos, todos verdadeiros.
Sei lá, que mais?! Nesse ano, tive o jantar de Natal do trabalho num sítio onde o barman tinha semelhanças físicas com o sujeito e dei por mim a olhar fixamente para o pobre moço, que quando deu conta retorquiu com aquele sorriso serrado e educado de quem está a atender ao público, e eu lá desviei o olhar, parecia uma cena de um filme indie de categoria B sobre uma protagonista perdida na vida.
Enfim, as semanas foram passando, os meses, um ano… dois… sei qual foi o dia em que deu o clique do let it go, sei que já me pode ou não ter dado o ick, mas também sei que há bem pouco tempo estava no sofá da psicóloga a chorar baba e ranho por causa disto. É um processo.
Foi um caminho que não me assustou pois, em tempos, libertei-me de uma outra amarra emocional, bem pior do que esta, e que eu durante muito tempo pensei que iria sempre ter comigo. A liberdade que senti quando encerrei esse capítulo ajudou-me neste. Sabia que me doía, mas que era largar um peso que tinha a mais.
Agora, ao fim destes quase dois anos, não posso dizer que me sinto curada. Sinto que encontrei outro problema, o de sentir que estou melhor assim. Fui de ansiosa a evitativa num ápice. Fujo da ideia de conhecer alguém, de estar nas apps, ir a dates, e correr o risco de começar este processo de novo. Eu enamorada, a outra pessoa mais ou menos a atirar para o menos, e acabar destroçada. Estou cansada.
Se sinto falta de alguma coisa? Não sei. Não há muito para sentir falta, os momentos felizes que alguma vez vivi, em qualquer “romance” que tive, foram muito poucos. Às vezes tenho saudades de quando as conversas corriam bem, porque nesses dias corriam mesmo bem. Ou de um pica-aqui pica-ali, um flirt que acalenta. Às vezes tenho saudades de ouvir um comentário lascivo sobre o meu corpo e de uma partilha mútua de fantasias, quando agora tudo o que me resta é o vazio do que é pornográfico. Só que isto é tudo tão poucochinho no final de contas.
Tenho muito por desdobrar em mim sobre este assunto - no geral, não necessariamente sobre este caso em particular. Reconheço que sou uma pedra dura onde custa a furar, e que preciso de tempo. Nunca sabemos quando estamos prontos e há momentos em que temos de nos atirar de cabeça. Mas por enquanto ainda não dá. Agora, ainda tenho de me curtir a sós.





Vivemos o mesmo em timelines semelhantes e podia estar a ler-me. Vai melhorar. Se te acontecer como a mim, um dia sem dares conta vais deixar de te sentir evitativa e pronta para o que vida te atirar para cima. Pode ser um amor, pode ser outro desgosto, pode ser apenas mais sossego, e vai estar tudo bem, porque depois deste processo vem uma tranquilidade de teres tudo o que precisas que é amor-próprio. :)
tou eu aqui no refeitório da uni, com aquela fila dos habituais 15-20 min de espera, portanto o post veio mesmo a calhar ahahhaahh li pela newsletter mas tive que vir comentar porque identifico-me imenso e acho que está tudo tão bem expresso! 🥹 no meu caso tenho pra aí 1 ano e meio desde a manhã seguinte, e o caos/posterior sossego foi o que me fez começar a escrever intensivamente também. also, tou agora a ler "os anos" da ernaux e não sabia dessa fofoca sobre o russo!! perder-se vai já pra lista TBR então 🤭💕