Desfile de misérias
A magreza continua a ser a protagonista na passerelle.
O ano era 2008, a série da Hannah Montana estava no auge e eu tinha um sonho: este cabelão lindo da Miley Cyrus. Volumoso, ondulado, comprido. Meu Deus, será que consigo? O meu cabelo é forte, encorpado, ondulado… Talvez se não o cortar, chegue lá. Mas, de alguma forma, nunca lá cheguei. Cresci e fiquei sempre com o cabelão da Miley Cyrus como um sonho longínquo e inalcançável, reservado para quem nasceu com uma bênção capilar rara, como ela.
Depois, o ano passado, a Miley fez uma série no TikTok chamada Used to be Young, onde relatava episódios dos primórdios da sua carreira. Num dos clips, ela remata, com humor, enquanto nos mostra uma fotografia promocional do filme “A Melodia do Amor”: I’m just your average teen with 250 individual hair extensions!
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I’m just your average teen with 250 individual hair extensions!
250 extensões de cabelo individuais. O cabelo era extensões. O. Cabelo. Era. Extensões. Nesse dia, parece impossível isto, fiquei finalmente em paz com o meu sonho adolescente de ter o cabelão da Miley. Nem a Miley tinha o cabelão da Miley! Eram 250 extensões individuais.
Há umas semanas vi o mais recente documentário da Demi Lovato, o Child Star. Nele, a Demi conversa com diversas personalidades do entretenimento que começaram a carreira em crianças, algumas mesmo em bebés. Uma das pessoas entrevistada foi a Alyson Stoner, colega da Demi Lovato no Camp Rock.
A conversa delas foi, à semelhança das extensões da Miley, perfeita para ajudar a reparar feridas que o meu eu-adolescente nem sabia que tinha. Quando olhava para as miúdas da Disney, pouco mais velhas do que eu, via-as super giras, divertidas, bem-vestidas e… magras. Podiam vestir roupas sem medo e ser fotografadas sem se preocuparem se aparecia uma barriguinha aqui ou ali.
Mas depois ouvimos os relatos delas. De como estavam, as duas, a passar por distúrbios alimentares, preocupadas em não engordar, complexadas com o próprio corpo. Os corpos que eu, de certa maneira, também invejava e aspirava. Da perturbação que sentiam quando percebiam que as fotografias que lhes eram tiradas, muitas para revistas adolescentes, eram editadas e as imperfeições apagadas. Achei o documentário muito impressionante e um alento no coração de quem acompanhou estas pessoas naquele passado supostamente maravilhoso, mas negro na realidade dos bastidores. Nem a Demi tinha o corpo da Demi. Eram distúrbios alimentares, doença mental não-diagnosticada, abuso de drogas.
Isto tudo porque esta semana aconteceu o desfile da Victoria’s Secret. Confesso que nem fazia ideia de que o desfile ia acontecer, mas o twitter inundou-se de clips, fotos e comentários ao evento. Supostamente, desta vez o desfile ia voltar às origens, com as modelos clássicas da marca, em vez do desfile ~woke~ que a VS tentou implementar há uns tempos.
O desfile da Victoria’s Secret nunca me encantou por aí além. Sabia que era um grande marco na carreira de uma modelo de passerelle, o auge do reconhecimento do talento, da beleza, da magreza (?) da modelo, ser finalmente um dos Anjos da marca. O meu orgulho tuga gostou de ver a Sara Sampaio a chegar lá. De resto, toda a cultura da magreza, os treinos rígidos das modelos, as dietas loucas - partilhadas pelas próprias - sempre me fizeram torcer o nariz em relação a todo o espectáculo.

Nos últimos anos, com as correntes do body positivity, as modelos plus-size e a moda dos “corpos reais”, havia no ar uma falsa sensação de mudança. Se calhar, agora ia-se aceitar corpos de diferentes tamanhos. Se calhar, vamos poupar às gerações futuras uma relação complicada com a comida e o próprio corpo. Se calhar… não. Vamos ser sinceros: o culto da magreza nunca saiu do mainstream. Ficou dormente, adormecido, discreto, a tentar passar pelas sombras. Talvez não fosse de bom tom dizer-se que se queria emagrecer ou enaltecer apenas o corpo magro pelo magro, mas era sabido que isso acontecia. A Kim Kardashian tinha curvas, mas esculpidas ao pormenor para serem as curvas certas. As modelos plus-size ficaram populares, curiosamente têm sempre um tipo de corpo muito específico, atraente, corpulentas mas ainda assim de barriga praticamente lisa. Era aceite ser-se não-magra, mas tinha de ser a forma certa de não-magra.
Mais recentemente, vejo algo no ar a mudar. Um medicamento para diabéticos tem um efeito secundário espectacular: faz emagrecer. Então, o Ozempic começa a ficar esgotado nas farmácias, prejudicando os diabéticos que dele dependem, pois começa a ser comprado por quem quer perder uns quilos. E não, não estou a diabolizar um medicamento que poderá ser uma ajuda rápida e preciosa para doentes obesos - isso é outra conversa. Estou a trazer à memória que, de repente, celebridades e famosos começaram a aparecer mais magros, devido ao uso de Ozempic. Alguns que eram até conhecidos pelas suas figuras plus-size, chamemos assim, como a Oprah. O que é que isto nos diz?
Não ando por esses lados do TikTok, mas chegam-me aos feeds relatos de que está a voltar, entre as miúdas mais novas, o culto da magreza (alguma vez foi embora?). A moda dos anos 2000 invadiu as escolas secundárias e passar ao pé de adolescentes faz-nos sentir que estamos num filme coming of age dos anos 90/00. As calças de cintura descaída voltaram e, com elas, o corpo da cintura descaída. Porque o que se veste, com esses jeans, não são os jeans, é o corpo.
Surpreendeu-me… não, minto, não me surpreendeu ver, a par dos clips do defile da Victoria’s Secret, comentários a elogiar os corpos magros e secos das mulheres que desfilaram. Gritos de entusiasmo porque voltaram as modelos com as suas figuras esculturais. E, como não poderia deixar de ser, a culpa virada para o espectador. “É só uma piada!”, pois claro. Que graça alguém insinuar, na Internet, que, após ver a Bella Hadid a desfilar, o seu jantar vai ser cubos de gelo.
A minha intenção não é propriamente moralizar acerca do corpo das modelos. Acho que os padrões são ridículos? Sim, acho. Se até acho que as próprias marcas beneficiariam de ter corpos diversos, para que os clientes pudessem ter uma noção do caimento das peças? Também. Porém, no final do dia, tudo é show-off, tudo é ficção.
Assusta-me é que ainda haja tanta gente, tantas miúdas, sem esta noção. Que olham para as modelos em lingerie, magras, ossadas à vista, e sintam que não podem comer para tentar alcançar aquele corpo. Que ser assim é a única forma de se ser bonita, aceite, e que façam mal a si próprias no processo. Não me chateia que mulheres adultas se submetam a dietas de líquidos para desfilar 57 segundos num soutien de fantasia. Chateia-me que isso não seja explícito ou tenha ficado esquecido. Chateia-me a vibe de que elas acordaram assim e que são desta forma sem esforço, porque não é verdade. Ter aquele aspecto é o trabalho delas e é para isso que orientam os seus dias. Tem de haver esta noção e este distanciamento para bem de todas nós.
Pergunto-me se algum dia seremos livres. Se algum dia possamos apenas viver sem medo de olhar ao espelho, eternamente insatisfeitas por muito que se emagreça, engorde, tonifique, depile. A veia optimista faz-me pensar que sim, mas depois acontece algo que traz a público o que todas sabemos, que só vale ser de uma maneira. Enfim. A luta continua.
to-do list outonal 🍂
Semana Cultural dos Cemitérios de Lisboa 🪦
A semana passada era para ter acontecido a minha visita nocturna ao cemitério do Alto de São João, por ocasião da Semana Cultural dos Cemitérios. No entanto, devido aos avisos de mau tempo, a visita foi adiada, o que acabou por ser perfeito para mim, já que nesse dia eu estava no pico do mal-estar da minha menstruação. Posto isto, na sexta-feira dia 18 lá fui com a minha amiga Maria picar o ponto nesta actividade. Adorámos! Vim maravilhada com a visita!
A guia foi espectacular, é sempre um deleite ouvir alguém tão apaixonado por aquilo que estuda. O cemitério tem jazigos lindíssimos, eu não fazia ideia. E tantos com pormenores tão caricatos que só quem sabe é que os vê; e saí de lá a saber de alguns.
Definitivamente vou estar atenta a outras visitas, desta vez já diurnas, que costumam acontecer sob determinados temas, focando-se nas figuras históricas ou caricatas que ali estão no seu descanso eterno. Se estiverem curiosos, aconselho-vos a assinarem a newsletter dos Cemitérios de Lisboa e irem estando atentos. Do que sei, são sempre actividades gratuitas.
Cinnamon rolls 🍰
Estou a escrever estas linhas depois de pôr no forno os meus primeiros rolinhos de canela de sempre. Mal posso esperar que saiam do forno para poder ver o resultado final!! Segui esta receita, depois de quase me ter paralisado com tantas receitas parecidas, porque me pareceram super fofinhos e saborosos. Vou dispensar a cobertura; optei em vez disso por, antes de ir ao forno, os salpicar de açúcar mascavado e mais um pouco de canela. Vamos ver!








