Flops gastronómicos
Comidas que considero sobrevalorizadas.
Os meus amigos detestam ver-me a comer frango assado. Dizem-me, espantados e incrédulos, chocados com a minha ousadia: “tu não sabes comer frango!!!” Isto porquê? Porque eu uso talheres, só gosto das partes “secas” (o peito e outros bocados com mais chicha branquinha), acabo por pôr de lado a pele e nunca, em circunstância alguma, pego num pedaço do frango com as mãos e - pausa para gag - chupo os ossos.
Blhergh!!! 🤮🤮🤮
Também não como peixe com as mãos, preferindo a eficiência (e higiene!) da faca e garfo. Muitas pessoas, ao verem-me manusear os talheres, dizem-me que eu posso comer com as mãos, dando-me assim uma espécie de autorização, não fosse eu saber que a tinha e estava ali a fazer cerimónia coquette desnecessariamente. Nada disso, acontece apenas que eu não gosto de comer com as mãos, com excepção da óbvia finger food (hambúrgueres, pizzas, sandes, tacos, vocês percebem), e, acima de tudo, detesto a ideia de ter de ossos/espinhas/nervos/gorduras/miudezas várias na boca. Dá-me assim um nojinho, pronto.
Mas adiante, que já me dispersei demasiado e não vinha para aqui expor as minhas esquisitices sensoriais. Comecei por falar do frango assado porque tenho vindo a pensar e a reunir mentalmente uma lista de comidas, ou até mesmo “eventos gastronómicos”, que considero flop.
Flop
noun
noun: flop; plural noun: flops
a heavy, loose, and ungainly movement, or a sound made by it.
“they hit the ground with a flop”
informal
a total failure.
“the play had been a flop”
Algumas podem concordar, outras vão discordar, outras podem ainda provocar-vos reacções viscerais de incredulidade. Sejam fortes!
Sem mais demoras, aqui vai a minha lista de flops gastronómicos
Buffets/rodízios
Por norma, para eventos “maiores”, há sempre alguém que manda a ideia de se ir a um buffet ou a um rodízio. Eu percebo, as intenções são boas: comida à descrição, para todos os gostos, a um preço (supostamente) simpático face à quantidade de comida disponível.
No entanto, a realidade mostra-se bem diferente. Talvez não ajude o facto de que, apesar de eu até me considerar bom garfo, não ser particularmente gulosa pelas coisas que as pessoas adoram neste tipo de refeições, como os queijos e os enchidos. Depois, a quantidade é imensa mas a qualidade… deixa a desejar, na maioria das vezes.
Temos uma catrefada de entradas, a ver: pão seco, queijos, chouriços e enchidos, salgados cansados, pão de queijo resfriado e emborrachado, um ou outro item não-identificado. Ao lado, temos as saladas: a alface, a cenoura, o milho, os repolhos cortados em juliana e envolvidos em maionese… Umas massas frias para complementar. Depois, as cubas com a comida propriamente dita, sempre uns pratos genéricos portugueses que dá jeito cozinhar em grande quantidade, um arroz de pato, um bacalhau com natas. Às vezes meio frio, quase sempre sem um sabor memorável, tá bom para matar a fome mas não é nenhuma especialidade da casa. Para terminar, o rol de sobremesas várias, que também já me impressionaram mais, logo eu, que adoro um docinho.
Como complemento, às vezes temos o buffet e o rodízio, por norma o chamado “rodízio brasileiro”, que toda a gente te vai dizer que é incrível, é espetacular, a carne é saborosa… E tu vais, e o senhor traz o espeto com aquela carne meio esfriada (eu não suporto comida esfriada, caso ainda não tenham percebido), a pingar sangue para o teu prato (detesto carne mal passada), e a cortar uma fatia de picanha que, de toda a picanha que já comeste, aquela é definitivamente uma delas. E acabas a pensar se o problema será teu.
Tive dois eventos de trabalho nestes dois ambientes. No buffet, supostamente um dos mais incríveis da Margem Sul, o arroz de pato estava azedo. No rodízio, pronto, realmente a carne sabia a carne. Vai um dinheirão para estes supostos paraísos gastronómicos e mais valia ir a um restaurante normal, com uma ementa normal, pedir uma dose do que nos apetece realmente comer, e ser bom. Sai mais barato e melhor, vão por mim. Buffet = flop.
Grelhada Mista
Quando o evento não é num buffet, é com um prato pré-seleccionado e, por algum castigo divino, acabam sempre a escolher o raio da grelhada mista. Já não me apanham noutra, prefiro literalmente qualquer outra opção.
Não suporto grelhada mista. A carne já vem fria na travessa (mais uma vez, detesto!!!) e seca - pois se é carne grelhada! Depois, tirando as febras, eu não como mais nada. Não gosto de entremeadas. Não gosto daquelas salsichas de churrasco. Nem sei que mais vem na grelhada mista. Acompanha de salada e batatas fritas moles e - adivinharam!!! - já meio frias. Não, obrigada.
Sardinhas
Tenham calma!!! Aguentem!!! Já sei que toda a gente adoooora sardinhas, eu não gosto, não por uma questão de sabor (adoro peixe grelhado), mas porque tem muitas espinhas.
Agora vem o argumento de tooooda a gente que adoooora sardinhas: mas as espinhas nem se sentem!!!
Por favor. Sentem, sim.
“Oh, mas isso engole-se tudo!”
Ah, so you agree?? Sentem-se as espinhas?
Boa sorte com isso, fico-me pelos carapaus.
“Petiscadas”
Não considero que os petiscos sejam propriamente um flop, só não acho que sejam uma refeição. A versão portuguesa disto acontece, sobretudo, no Verão, com os caracóis, as ameijoas, os tremoços, o pão torrado… Mas também acontece em festas onde não há um prato principal, há snacks. Na internet, acontece sob a forma daquela trend horrorosa do “girl dinner”, acompanhada de uma fotografia com um prato com meia dúzia de uvas, três bolachas de água e sal e duas rodelas de queijo; ou então com as “tábuas de charcutaria”.
O que considero flop nisto é quererem-me vender a ideia dos “snacks” como refeição. Eu percebo que se eu comer tostinhas com paté de atum em quantidade suficiente, eu vou ficar “cheia”. No entanto, não me vou sentir alimentada. Fico aqui num limbo onde sinto apenas que estou a comer mal, picando batatas fritas, tostas com qualquer coisa, pão, encho a barriga de “comidinhas” mas como se não tivesse comido nada de concreto… isto não me é lógico. Por isso, ok, tudo bem, os snacks são bons, mas depois dêem-me um prato de sopa, por amor de Deus. Ou uma bifana. Ou os dois!
E que tal? Já tinham pensado nisto ou não? Adoram sardinhas, aposto. Pronto, nada contra! O lado bom de ser uma pessoa que come de talheres e não gosta de certas comidas emblemáticas, é que eu não sou uma chata do caraças que faz comentários inusitados sobre a forma como os outros comem! Porque isso é o que eu aturo dos outros! Sabem quantas vezes é que me virei para uma pessoa e lhe disse “o quê?! Tu comes peixe grelhado à mão?? Não sabes que é muito mais prático comer de talheres e escusas de ficar todo sujo??” - zero! Zero vezes!
Em jeito de despedida, queria anunciar via newsletter que recentemente fui convidada pelos Opinionistas para preparar um autor e gravar um episódio. Escolhi a Clara Não e o episódio entretanto já saiu! Preparar isto foi uma tormenta, gravar foi incrível! Convido-vos a ouvir, caso ainda não o tenham feito.
Boa semana e bom apetite para todos!





Eu vinha reclamar das sardinhas, mas depois de ler sobre a venda de snacks como refeição venho só dizer: estamos juntos!!! Snacks são snacks. Refeições são refeições! Cada coisa no seu prato 😎
Percebo-te tão bem, também odeio buffets e sim, as sardinhas são um inferno!