Presa nas redes
Como lidar com clima actual do mundo digital ?

De vez em quando, ao passear na timeline do Substack, deparo-me com muitos textos sobre sair das redes sociais, deixar de lado o smartphone, fazer detoxes digitais no geral, coisas deste género. Já se sabe, uma pessoa demonstra interesse num só e depois é invadida por outros iguais a todos os outros. Mas tudo bem, não me importo de ler e há sempre uma perspectiva nova aqui e ali que poderá ser interessante. De qualquer das formas, aqui estou eu a escrever sobre esse mesmo tema, portanto…
Sou uma pessoa muito online. Fui criada na Internet. Tenho blogs desde para aí os 10 anos de idade. Passei pelo tumblr, fotolog e praticamente todas as redes sociais. Só que isto tudo acontecia quando a Internet era num só sítio: o computador. De torre, ainda por cima. Eu tinha de estar à secretária para estar na Internet. Quando precisava de sair, tinha mesmo de desligar e só voltar mais tarde ao mundo digital.
Com os smartphones, a coisa mudou de figura. A Internet cabe-nos na palma da mão e com um plano de dados móveis podemos estar online em todo o lado. Nada disto será novidade para ninguém que me esteja a ler e, por isso, talvez também se perguntem o mesmo do que eu: será que passo muito tempo agarrada ao ecrã do telemóvel? Será que estou demasiado online?
Bom, a minha resposta para isto é um misto entre não e sim. Não porque, apesar de tudo, o meu tempo de ecrã não está nem perto de coisas assustadoras que vejo por aí. Ainda assim, estou com uma média de quase 3h diárias de ecrã. Não porque, quando saio à rua, não sou de postar stories nem ficar a scrollar. Quando janto acompanhada, não costumo mexer no telemóvel à mesa. Facilmente passo horas sem mexer no telemóvel se estiver com alguém.
Por outro lado, no trabalho estou sempre a picar as redes. São raras as vezes em que vou ao WC sem levar o telefone comigo. E, mesmo que não se traduza em literais horas de ecrã, sinto que o mundo digital domina grande parte do meu espaço mental. No entanto, também é verdade que a Internet e os espaços digitais têm perdido diversidade. Se, dantes, eu estava no meu computador e entretinha-me a escrever para o blog, a scrollar no Twitter, espreitar o Facebook, brincar no WeHeartIt, Tumblr, Fashiolista, no Pinterest, etc. e tal… Agora o meu consumo de apps varia entre o Twitter e o Instagram. Ocasionalmente, quando quero pesquisar algo específico, vou ao Pinterest. E tenho o Goodreads para ir actualizando o meu progresso nas leituras. Vou ao tiktok uma vez por semana, às vezes menos, já que para aproveitar bem esta aplicação tenho de estar focada a ver e ouvir, e nem sempre me apetece ficar mais 45 minutos a olhar para o meu ecrã pequenino.
Pronto, contas feitas eu ando sempre entre o Twitter e o Instagram. E, sendo mesmo honesta, o meu espaço é o Twitter. Epa, é o que é. É assim há 15 anos (uff…). Saber isto leva-me a duas questões: por que é que continuo, então, a insistir no Instagram? E o que resta para mim, agora, no X/Twitter?
o crescimento e a queda do Instagram
Já disse que eu fui (sou?) uma pessoa muito online? À conta disso, descobri o Instagram desde que foi lançado. O problema? O Instagram só estava disponível para iOS e eu tinha o meu BlackBerry e um sonho. Por acasos da vida, consegui ter um iPod Touch (dos poucos milagres de Natal que me aconteceram, ficando aqui a nota para quem me lê de outros lados) e aceder ao Instagram. Era tudo arcaico e o gozo era publicar fotos com os filtros a envelhecer as imagens. Depois, os anos foram passando, os smartphones foram evoluindo, e o Instagram liberou-se para Android. Tornou-se na rede social popular que foi no seu pico: pessoas a partilhar fotos sem pensar muito, sem curadoria, apenas do momento presente. As fotos minimamente mais cuidadas já denunciavam uma it girl local ou uma blogueirinha, vinda de outras terras digitais, a explorar esta ferramenta visual. Era divertido. O Instagram era divertido.
Rapidamente a marcas perceberam o apelo de lá estar. As blogueiras de moda deixaram de lado os artigos longos nos blogs em detrimento de mostrar só as fotos dos looks no Instagram. Juntando o útil ao agradável, nasceu a profissão Influencer, uma forma mais agradável de designar aquilo que apenas é um clássico product placement. Assim, podemos fingir que a pessoa influencer tem alguma voz no que mostra e não é somente a montra para os seus X seguidores. Adiante.
Para o comum mortal, as trends foram-se igualmente alterando: as fotos agora eram cuidadas, serviam para mostrar algo: um restaurante, um sítio, um livro. Tornou-se cringe usar os filtros, talvez fruto da evolução da qualidade das câmaras dos smartphones. Com a chegada das stories, surripiadas do Snapchat já na era Zuckerberg, o feed perdeu relevância. O algoritmo matou a verdadeira piada da rede social, o instantâneo que se depreende do nome Instagram. Deixou de se publicar para mostrar o que acontece nesse instante. Guardam-se as fotos para juntar e publicar em rol, a última grande trend que traz alguma relevância ao feed são os photo dumps.
Isto falando da parte visual e artística - digamos assim - da rede social. Social. Onde ficou esse lado? No Instagram, seguimos e somos seguidos pelos nossos familiares, amigos, colegas, etc., pessoas da vida real, muitas migradas do Facebook onde se pressupõe que quem vê o teu perfil é “Amigo”. Andando nesta vida há uns aninhos, vamos acumulando gente nos seguidores do Instagram, mas será que são Amigos? Familiares com quem não te dás; amigos que não estão presentes na tua vida; colegas com quem já não trabalhas, e nem vou falar dos ex-namoricos, engates falhados, situações. São estas as pessoas que vêem o teu feed e as tuas stories. O que queres partilhar, então? Eu, confesso, partilho muito pouco. O meu feed não é actualizado há mais de dois anos. Nas stories, muitas vezes me forço a postar algo minimamente pessoal, por norma fico-me por partilhas de artigos, ilustrações, e similares.
Então, por que raios continuo ali com a conta? Naqueles moldes? Porque é que sigo mais de 450 contas se abro aquela aplicação para cuscar sempre as mesmas pessoas? Por vezes faço uma limpeza no following e constato, como é óbvio, que NUNCA senti falta de uma conta que deixei de seguir.
O Instagram está insuportável de se usar. Por todo o lado saltam anúncios e publicidade. Eu sou, claramente, uma espectadora na rede. Mas estou ali a ver o quê? Tirando alguns perfis específicos que gosto de seguir, nada me cativa. Não quero publicar fotos para os cuscos do outro lado verem o que ando a fazer. Mesmo quando me poderia apetecer mostrar algo, acabo sempre por não o fazer, depois passa o momento e eu sigo com a vida e o mundo continua a girar. Portanto, what’s the point?
Pior é veres a degradação de um espaço digital onde gostavas de passar tempo.
o que aconteceu ao twitter e o que é o X?
Foi com transtorno que assisti à compra do Twitter pelo Elon Musk. E foi com horror que fui presenciando a degradação daquela que era a melhor rede social da Internet. Era, não há hipótese. O Twitter era o centro do mundo, onde as coisas se sabem em primeira mão sempre, o sítio onde nasciam os memes, as piadas… E, não menos importante, uma última rede social onde se priorizava a comunicação escrita em vez de fotos/vídeos. É mesmo um ecossistema muito próprio e, à laia de concorrente de reality show, só quem está lá dentro é que sabe. Como assim, vem agora um bilionário tosco comprar isto e torná-lo num sítio inóspito da Internet? Eventualmente vai dar prejuízo e ele vende ao desbarato à Google ou assim… Pois, ‘tá bem.
Com a vitória de Trump nas eleições e a aproximação do seu novo BFF Musk a cargos de poder na Casa Branca, comecei a perceber que a compra do Twitter - agora X - não foi perda de dinheiro, foi investimento. Musk arruinou a rede social sob a fachada de ser o defensor da liberdade de expressão, ou seja, dando liberdade às opiniões racistas, misóginas, homofóbicas de voltarem a existir, sem controlo nem consequências. Os anunciantes fugiram da rede a sete pés. O visto azul, que distinguia perfis oficiais, agora pode ser comprado e, com ele, passar-se à frente dos outros utilizadores. A renumeração que os Vistos Azuis podem ganhar através das interações transformou o twitter num poço de bait, uma competição para se dizer a coisa mais absurda de todas só para gerar engagement e tentar tirar uns trocos dali.
Isto levou a que o Twitter se transformasse num antro de contas proto-fascistas que passaram a poder falar abertamente, divulgando a sua propaganda praticamente sem contraditório. E, sim, ajudou à festa da reeleição de Trump. Tudo fica mais claro quando percebemos da aproximação de Musk a Trump que, agora, até vai mandar bitaites sobre como se deve governar o país.
(Imaginem o André Ventura, de repente, ser Primeiro-Ministro e ter como braço direito a mandar bitaites o cromo do Miguel Milhão, o dono da Prozis, por exemplo. Agora multipliquem isto por doses industriais de dinheiro, ganância, poder e importância internacional. São os EUA. Somos nós, cidadãos do mundo em que eles mandam.)
Como isto ficou tudo tão claro no pós-eleições, muitas pessoas começaram a questionar a continuidade da sua presença numa rede social que é propriedade de Musk. Eu própria me questionei isso: quero continuar a participar nisto? A dar notoriedade a um produto deste gajo?
As vibes no X (já nem lhe consigo chamar Twitter, porque o Twitter não é aquilo) estão esquisitas. Nos últimos dias temos assistido a uma verdadeira debandada: pessoas e contas institucionais a anunciarem que vão deixar de participar na plataforma e a preferirem a alternativa que surgiu há uns tempos, o Bluesky.
Onde é que me situo nisto, tendo em conta o espaço mental que aquela rede social me ocupa? Quero continuar lá? Quero tweetar menos? Graças às alterações no block eu já mudei o meu modus operandi, pois tranquei a conta - a única forma de nos protegermos de quem não queremos que nos veja. A princípio foi estranho mas já me habituei e não desgosto. No entanto, perdi um pouco do social da rede social.
Numa onda de tentar largar o meu vício pelo Twitter, quero inscrever-me em mais uma rede social? Já houve outras mortes digitais no passado: a blogosfera (a recuperar agora no substack?), o Facebook (morte natural a partir de certa geração) e o tumblr (este deixa saudades, até porque continua a existir, mas vazio). Por que é que é tão complicado largar o Twitter? E acredito que seja um misto de muita coisa: ainda assim, no meio do lodo, continua a ser o sítio onde as notícias chegam primeiro; é onde tenho construída uma comunidade de amigos e conhecidos online que gosto de ler e acompanhar; é o sítio onde estou há mais de metade da minha vida. É suposto só deixar ir? Sair?
pensamentos finais
Não quero largar as redes sociais porque não sou nenhuma eremita. O mundo digital faz parte do nosso espaço social e cultural e não quero, enquanto pessoa que gosta de se manter informada e actualizada, ignorar isso do pé para a mão. Ainda é através das redes sociais que me mantenho a par de notícias, que acompanho as lutas de colectivos de esquerda e, também, onde tenho espaço para expressar a minha criatividade.
No entanto, talvez não me faça mal tentar reduzir o meu consumo diário das redes. Em Janeiro, instituí no meu telemóvel um bloqueio para as aplicações a partir das X horas. Soube muito bem. Depois, com novas rotinas, adiei a hora do bloqueio para mais tarde, já me permitindo scrollar mais um bocadinho. Para quê?! Já não chegou o dia todo a picar a aplicação? O que é que vais saber às 22h que não possa esperar pela manhã seguinte? Continuo a seguir tantas contas para quê? Continuo a ter pessoas a seguirem-me que eu já não quero lá para quê?
Talvez também esteja na hora de voltar a tornar as aplicações divertidas para eu usar e livrar-me do controlo que, mesmo sem saberem, os outros têm sobre mim.
E talvez até esteja na hora de perceber que, tal como tudo tem chegado ao seu fim, realmente este é o fim do twitter/X. Em vez de combater tanto a mudança, talvez seja benéfico abrir espaço para outros sítios novos. Enfim, veremos qual é a próxima rede que me apanha.

