RAP, Benfica e terapia
A minha reflexão sobre a polémica declaração do humorista.
Esta semana, o Ricardo Araújo Pereira foi convidado de um dos podcasts do Público e, no decorrer da entrevista, deverá ter dito a seguinte frase:
“Houve ali um espaço de 15 dias em que o Benfica perdeu o campeonato, a Taça de Portugal e a Liga Europa. Isso deixou-me bastante abalado.”
O que originou um chorrilho de comentários bacocos, como poderão ver nos seguintes exemplos que deixo abaixo. Podem clicar nas imagens para abrir e ver melhor.



Ora, isto deixou-me a pensar, irritou-me, e levou-me a reflectir sobre dois pontos essenciais.
É impressionante como lidamos com o RAP no espaço mediático português há, quê?, mais de vinte anos? Cerca de vinte anos? Algo por aí. Será possível, depois de tanto tempo como figura pública, de inúmeras entrevistas, etc., que ainda não percebam o seu humor e a forma de estar? Obviamente que o Ricardo não recorreu à terapia por causa do Benfica. O Benfica foi, na melhor das hipóteses, um gatilho que o levou a procurar a ajuda que precisava. E nem é preciso ouvir o podcast para o saber, dá para perceber pelos restantes slides do post!
Custa-me a falta de literacia mediática que se vive nos tempos que correm. Por esta altura também já era tempo de as pessoas saberem qual é o jogo dos jornais, principalmente nas redes sociais. Quase todos os dias há um post com alguém a dizer não sei o quê, que parece muito polémico, e depois vai-se a ver e não é bem nada. Custa-me estarmos tão em modo automático, em modo reacção rápida, que nem perdemos dois segundos a scrollar imagens para o lado e perceber o contexto. Nem digo ler/ouvir a notícia, estou a dizer simplesmente ver o carrossel até ao fim!
Mas não… É olhar e ver: RAP… terapia… por causa… Benfica… O QUÊEEEE?!?!?!? Como é que é possível?!? Ridículo!!! Vou comentar JÁ!
Isto leva-me ao segundo ponto. Claro que a polémica aqui é ele supostamente ter ido para a terapia por causa do Benfica, ou seja, por causa de futebol. E isso, já se sabe, não pode ser! Ao mesmo tempo que somos um país (tal como TODOS no mundo, à excepção dos EUA) louco por futebol, também temos por cá aquilo a que chamo de corrente intelectual anti-futebol. São as pessoas a quem faz muita confusão que se expresse emoções devido ao futebol. Porquê? Será que é porque futebol é… coisa de pobre? De “labrego”?
Reparem que só as emoções (euforia, alegria, tristeza, frustração) geradas por jogos de futebol é que são alvo de escrutínio e desdém. Podemos emocionar-nos com qualquer outra expressão cultural, mas ai de quem se emocione por causa de desporto - ainda para mais a bola!
É perfeitamente natural e normal termos sentimentos e emocionarmo-nos com outra coisa qualquer: um concerto, um filme, livros, séries, qualquer que seja. Mas um adepto desportivo, que tem um apego emocional a determinada equipa e acompanha as suas jornadas competitivas, não pode sentir nada. É reles, é desprezível.
Pá, discordo. Discordo muito, discordarei até ao fim dos tempos. Para mim, o desporto também é cultura. O futebol é algo cultural e um fenómeno sociológico. Parafraseando alguém do meio, dizer que o futebol são só 22 homens atrás de uma bola é como dizer que um violino é um mero pedaço de madeira. Gostar de bola é mais do que isso.
Voltando ao Ricardo, fica claro que “o Benfica” foi o gatilho, a gota de água que fez transbordar o copo de algo mais que se passava (ainda não ouvi a entrevista). E, digo-vos francamente, não me espanta. Durante a pandemia passei um mau bocado em termos de saúde mental e deixei de ver futebol e os jogos do Benfica. Epá, deixei. Já não andava bem, depois custava-me muito ver os estádios vazios fruto da distopia que vivemos naquela época, os jogos pareciam todos frouxos, sem encanto, a minha equipa não estava ao seu nível, não aguentava mais. Já tive outros momentos em que a minha vida estava tão aborrecida que, muitas vezes, o que me alegrava era a boa fase em que o Benfica agora estava. E também já estive a passar um momento específico tão doloroso que uma vitória épica, nos descontos finais, ao grande rival me deu outro ânimo e “salvou-me” de ir gastar energia com algo que não merecia a minha atenção. Agora, alguma coisa disto tem realmente a ver com “o Benfica”? Claro que não. É uma projecção de algo que está cá dentro. É uma das formas que temos de expressar, de forma segura e num ambiente controlado, as nossas raivas e frustrações (aaaah, os 90 minutos em que posso reclamar directamente com homens e chamar-lhes nomes à vontade), mas também as nossas alegrias e o nosso amor (aquele abraço a quem nos acompanha a ver o jogo, o sorriso ao cumprimentar os vizinhos do estádio, etc.). E qual é o mal disto?
Por muito que custe aos enojados da bola, o futebol é muito mais do que os 22 gajos a correr atrás da bola e que ganham milhões. É criar laços com a família e os amigos em prol de uma simpatia clubística comum, tal como o é com aqueles que nos são próximos e gostam mais da equipa da outra cor. Para mim, é só mais uma forma de percebermos como o ser humano é uma fonte inesgotável de emoções, e isso é bonito.
(Acho que fica claro, mas vou esclarecer na mesma visto que, nos tempos que correm, é complicado interpretar um texto pelo que está escrito e também pelo que ficou por dizer: o que falei aqui não é para desculpar nem para defender qualquer tipo de violência, expressões de homofobia e racismo, nem de vandalismo por causa de futebol.)
Cá estamos no mês de Março, um dos meus preferidos do ano já que é o mês do meu aniversário e de outros familiares próximos, o começo da Primavera, o regresso dos dias mais compridos, etc. Depois do Janeiro infinito, Fevereiro entrou com grande velocidade. Ainda assim, algures ali no meio senti o tempo novamente a abrandar, não sentiram? A dada altura preocupou-me voltar ao sentimento de que estou a viver os dias à espera de sexta-feira, à espera do fim-de-semana, à espera do fim do mês. Mas pronto, faz parte da monotonia da vida. Cabe-me a mim encontrar outros encantos para os outros dias.
Em Fevereiro consegui cumprir muitas das coisas que tinha deixado planeadas do mês anterior e tive outras surpresas a acontecer:
fui ao show de burlesco (com a minha mãe eheheh) ✅
fui com os meus amigos ao Barreiro ver o PTM (e adorámos não só o espetáculo, como o Barreiro em si) ✅
comecei o curso de iniciação à costura da Filipa Castilho com a minha bestie Margarida (e está a ser fantástico!) ✅
tive o jantar de aniversário de uma grande amiga minha
cá em casa começámos as obras na casa-de-banho
No que diz respeito ao que li, vi, ouvi, não tenho grande volume de coisas diferentes. Como é que é possível, em Janeiro fiz tanta coisa e em Fevereiro parece que não tive tempo para quase nada?
li o livro “Livre” da Cheryl Strayed
vi o documentário The Vow, que foi um ARROMBO de documentário. Bastante loooooongo, mas até gostei porque deu para conhecer a fundo a organização e o crescendo da bizarria
depois, vi o documentário Seduced - Inside the NXIVM Cult, focado numa das vítimas do culto do documentário anterior
fechei o capítulo da NXIVM e comecei a ver o The Way Down: God, Greed and the Cult of Gwen Shamblin - socorro, estou viciada em documentários sobre cultos?!?!?!?
ouvi os Falsos Lentos que continuam a fazer-me boa companhia
E assim me despeço que o e-mail já vai longo. Na próxima newsletter que receberem, eu já terei feito anos e também já saberemos o resultado das eleições (😬). Ufff… Vá, vamos pensar noutras coisas. Às 18h já continua a ser de dia!!!
Até para a semana,
Rafaela




Por acaso conversei sobre este episódio com uma amiga e ainda estou com a conversa "fresca" por isso estava a ler o que escreveste e a pensar exatamente no que lhe disse e no que pensei durante o episódio (que não achei particularmente interessante, porque acho que o RAP esteve muito à defesa a falar do tema).
Não sendo benfiquista, como sabes, pus-me a pensar em todas as vezes em que senti que os resultados do meu clube tiveram uma influência direta na forma como me sentia no resto da vida (bastantes até) e, por isso, nem achei assim tão descabido que o futebol fosse um gatilho para que ele percebesse que era preciso ir procurar ajuda — acho que ele devia ter mantido as sessões mais tempo, para poder desconstruir realmente as questões.
Claramente, como mencionas, há uma forma muito própria de os media comunicarem na internet, com estas citações escolhidas a dedo, o que vai sempre originar dezenas de respostas ridículas — e bem sabemos que a interação é valorizada. Claro que as pessoas iam implicar — por ser o Benfica, por ser o RAP, por ser terapia, sei lá. Qualquer coisa serve hoje em dia.