Rodinha de hamster
Mais um dia igual a outro dia igual a outro dia.
Primeiro toque do despertador. Uns grilos para não me irritar com os sons polifónicos dos outros alarmes, mas que também já me irritam só por si. Snooze. Cri cri cri cri. Snooze. Cri cri cri cri. Desligo o despertador, finalmente. O tempo para os dois-três snoozes está contemplado, tenho o despertador de propósito a tocar mais cedo para me dar estas pausas, para que possa reconhecer que estou a acordar, que vai começar mais um dia. Siga. Casa-de-banho para tratar das burocracias higiénicas. Vestir. Ir tomar o pequeno-almoço, entretanto o meu pai chegou com o pão fresco e estou a preparar o meu café com leite. Lavar os dentes. Pegar nas coisas e sair, ir para o trabalho. É segunda-feira, a reunião estende-se devido a quem gosta demasiado de se ouvir falar, ao menos come-se assim tempo inútil. Já só tenho de esperar um pouco até à hora de almoço. Ir a casa, almoçar, sair. Uma tarde longa, entre fingir-me ocupada com coisa nenhuma e espreitar as redes sociais no telemóvel. Chegou a hora de sair, é segunda-feira, vou à aula de Pilates. Não gosto assim tanto de fazer Pilates, afinal; porém, tenho uma dor nas costas e assim estico o corpo. Tomar banho, o meu momento de solidão relaxante na cabine do ginásio. Chegar a casa, jantar sozinha na cozinha. Tempo para ver um episódio de alguma coisa. Ler. Dentes. Dormir. Primeiro toque do despertador…
Assim são os meus dias, variando quando saio do trabalho para ir directamente para casa ou quando vou a uma aula no ginásio. No trabalho, as coisas estão calmas, demasiado calmas. De forma algo bizarra, aprendi a contornar o aborrecimento. Quando não tenho o Vigilante no gabinete atrás de mim, a monitorizar cada clique que faço com o rato, posso deambular nas Internets. Fora isso, entretenho-me a limpar a caixa de e-mail, a actualizar o meu Excel do que tenho para dizer na reunião (que é pouca coisa), a passear nos portais imobiliários. Só tenho de aguentar cinco dias disto. Depois, no Sábado de manhã, estou sozinha e aproveito para escrever. E depois, a partir das 13h, posso ver-me livre desta rotina durante o dia e meio a que chamo fim-de-semana.
Estranhamente, habituei-me a lidar bem com isto. Bem dentro do possível, é claro. Sei que a semana vai passando, que sexta à noite estarei com a minha BFF, e depois tenho dois dias off. E assim vai a vida. É só esperar mais um par de horas, o dia acaba, e logo outro começa, mais perto do fim da semana.
Ao mesmo tempo, tenho momentos em que me abstraio disto e vejo o ridículo da situação. Só consigo sentir que sou um hamster a correr na rodinha, a correr, a correr. Já correu tanto que nem sente cansaço, está só a deixar as patinhas moverem-se por força do hábito e da memória muscular. Sempre a mesma roda e o mesmo movimento, na mesma gaiola.
Em Março, tive de tirar mais um dente do siso e o dentista receitou-me um elixir para bochechar, após a lavagem dos dentes. A casa-de-banho estava em obras, então tinha de usar o lava-loiças, na cozinha. Já que estava na cozinha e o bochecho tinha de ser durante 30 segundos, aproveitava e guiava-me pelo relógio da parede. E foi bizarro constatar, dia após dia, que eu ia começar o bochecho com o ponteiro exactamente na mesma posição. Portanto, para outra metáfora, tenho alturas da minha vida em que sinto que estou a viver nos momentos iniciais de um filme de ficção científica sobre uma realidade distópica, quando se pretende mostrar a vida rotineira do protagonista, com a mesma sequência de imagens a passar num breve loop. Estou presa e não sei como sair. Nem sei se quero sair.
Está a fazer um mês desde que chegou uma colega nova, para substituir outra que saiu. Mais uma que vi sair. Como é normal em determinado tipo de pessoa, ainda está entusiasmada com o novo trabalho. Tudo é espectacular, as ideias brotam de forma pró-activa, para grande gáudio do dono-daquilo-tudo. E ela já diz, com grande animação, para a semana fazemos a árvore de Natal!!!
Três Árvores de Natal 🎄🎄🎄
Este ano, vou fazer a minha terceira árvore de Natal ali. Lembro-me de, depois de saber que tinha ficado com o posto, pedir ao meu futuro patrão para alterar o contrato de 1 ano para 6 meses. Com o histórico que eu trazia a nível profissional, não queria arriscar. Podia não me adaptar, podia correr mal, podia isto ou aquilo e assim tinha uma data em caso de necessidade de uma fuga fácil. Mas fui ficando e ficando e ficando. O meu patrão acha que foi porque afinal descobri que gosto de trabalhar ali. Enfim. Mas de 6 meses já vamos em 30. 30 meses. Dois anos e pouco. Três árvores de Natal.
Há uns dias, troquei umas mensagens com uma amiga sobre o meu período do desemprego. Olhando em retrospectiva, foi um período muito negro da minha vida. A dada altura, dei o snap e comecei a procurar trabalho. Queria algo perto de casa, para evitar perder tempo nos transportes, e com funções que não me dessem muitas chatices. Pergunto-me se fui amaldiçoada com um careful with what you wish for.
Efectivamente, trabalho perto de casa. Queria poupar o tempo que perdia a voltar de Lisboa, mas fui amaldiçoada com um horário de saída às 19h. Pronto, deu no mesmo. Queria poder sair do trabalho e sentir-me em casa, mas o escritório é na ponta da cidade oposta à que costumo habitar, longe das minhas ruas, dos meus cafés e até das minhas gentes. Pronto, tenho na mesma de fazer caminho até chegar aos sítios onde me sinto bem. As funções, realmente, não me dão chatices. Não me dão chatices a ponto de eu as despachar com tanta eficiência que fico sem nada que fazer, à mercê da censura do Vigilante. Enfim.
Se fosse no passado, talvez eu tivesse saído ao fim de seis meses, um ano. Agora ganhei medo. O mercado de trabalho está shit bananas e eu não sei o que quero fazer da minha vida. Não sei se quero o que pensava que queria, não sei se vale a pena. Paralisa-me a ideia de ter de me preparar para fazer exames nacionais do secundário, para ter um plano B caso volte a ser rejeitada na candidatura pelo concurso especial. Estou cansada antes de começar.
Queria um trabalho perto de casa e que não me desse grandes chatices, para eu poder ir vivendo a minha vida. Mas que vida é esta? How you spend your days is how you spend your life, li há pouco tempo e tenho-me assombrado por isto. É assim que estou a gastar a minha vida? Que desespero monótono. Trabalho a 15 minutos de casa e não tenho tempo para nada na mesma. Não faço nada de especial na mesma.
É nesta altura que me obrigo a pensar nas coisas boas que ganhei com estes 30 meses. Apesar de ter dias maus, nunca são tão maus quanto os dias que passei desempregada, no pico daquilo que desconfio ter sido um episódio depressivo. Ou seja, ao menos tenho trabalho. Isso significa, igualmente, que ao menos tenho salário. Outra coisa boa destes dois anos e picos é que me comprometi a sério com a minha gestão financeira e, para quem ganha o salário mínimo, tenho um pé de meia que me deixa orgulhosa. Pronto, já agora, os sucessivos aumentos do salário mínimo têm sido um alívio, embora estejamos longe de um SMN digno - enfim, é outra conversa. Por último, e talvez o mais importante, quis o destino que eu arranjasse este trabalho no ramo do imobiliário: já aprendi imensa coisa coisa sobre compra e venda de casas, o oficial e o oficioso. E havia muita coisa que eu não fazia ideia de como funcionava. Se, por um lado, sinto que este trabalho foi um careful with what you wish for, em termos de aprendizagens práticas, claramente tratou-se de uma blessing in disguise.
Andava a planear mentalmente dois textos diferentes para falar disto, mas a temática era tão similar que juntei tudo num só. De um modo geral, sinto-me aborrecida. Aborrecida com a vida, com a minha falta de tempo, com o facto de passar a maior parte dos dias presa num sítio sem fazer nada. Espanta-me, no entanto, como me consigo abstrair disto a ponto de ir vivendo os dias sem me chatear. Ou talvez não me chateie, mas vou-me moendo, internalizando as frustrações. Possivelmente isto é só o Retorno de Saturno a Saturnar, este sentimento de ter a vida a escapar-me e de me faltar tempo para tudo, embora sem saber como me livrar disto.
Quando me deixo mergulhar no poço da auto-comiseração, algo que me é fácil, admito, dou por mim a pensar: o que fiz para merecer isto?! Mas será que alguma vez eu me vou sentir realizada com o meu trabalho? Ou tenho mesmo de esquecer essa ideia? Não sei.
Um pouco à semelhança do que me aconteceu em Maio, fartei-me de estar a ter pena de mim própria. Alguma coisa eu tenho de fazer por mim, algo diferente. Finalmente fui em frente e marquei o que andava há tanto tempo a adiar, vou começar na terapia. Tive de comprar o passe Navegante porque as consultas são do outro lado, o que até não é mau. Dá-me uma obrigação para sair de casa, e posso sempre aproveitar para passear na cidade grande e surpreender-me de alguma maneira, não sei. Ver outras gentes, ir a livrarias, algo diferente, por amor de Deus. Algo que me arranque desta inércia que me é tão confortável, embora não me faça assim tão bem.
Estamos em Novembro. Há um ano, estava prestes a entrar num momento péssimo da minha vida, hei-de escrever sobre isso quase de certeza. Ironia do destino, este ano vai ser radicalmente diferente. Estou a preparar um fim-de-semana recheado, com direito a ida ao cabeleireiro (finalmente!), a começar terapia e ainda um Benfica-Porto. Pode não ser melhor - continuo com frustrações e tristezas, embora sejam outras - mas ao menos será diferente. Ao menos, esta hamster sairá um pouco da rodinha para ir brincar noutro lado.






Cada vez mais sentido faz o que muita gente diz hoje em dia, vivemos para trabalhar e não trabalhamos para ter uma vida ao nosso gosto.