Romance engatilhado
A dualidade emocional de ver relações alheias.

Já falei da Samantha numa das primeiras Crónicas que escrevi, quando quis recomendar certos substacks que gosto de seguir. A Samantha é uma ilustradora e autora da página violetclair no Instagram. Penso que a descobri algures por 2017 e comecei a seguir por ter gostado muito da vibe dela, uma rapariga no final dos seus 20s - curioso, deveria ter a idade que tenho agora - que vivia em Nova Iorque e que ia partilhando ilustrações sobre as suas frustrações quotidianas, incluindo, como não poderia deixar de ser, sobre a vida amorosa e as aventuras no dating. Ela também costumava receber histórias das seguidoras e ilustrar os episódios delas, eram as screenshot stories. Ficou até criada uma espécie de comunidade à volta disso.
A Samantha também sofria de dores menstruais incapacitantes, algo que partilhava com os seus seguidores. Lembro-me de, eventualmente, ela ter conseguido o diagnóstico de endometriose e o seu conteúdo se ter focado mais nesse assunto. Foi algures aqui que lhe perdi o fio à meada e que o algoritmo a afastou do meu feed.
Por vezes pergunto-me se há alguma inteligência mística por detrás do algoritmo que faz desaparecer as pessoas do teu feed, só para as voltar a trazer noutro momento da tua vida. Provavelmente não, e só penso isto pois acredito que o ser humano tem uma tendência inata para procurar um oráculo em tudo. Mas quis o algoritmo que a Samantha voltasse a aparecer no meu feed, há cerca de um ano, por alturas em que fiquei de coração partido.
Foi interessante fazer um catch up da vida dela. A Samantha conseguiu fazer a cirurgia de histerectomia para remover o útero e livrar-se da endometriose; também recebeu um diagnóstico tardio de autismo, o que ajudou a explicar alguns dos temas da arte dela do passado; percebeu que em Nova Iorque estava rodeada de “amigos” tóxicos e que não gostava da cidade, e tinha-se mudado para outro estado, Portland. Estava solteira, a redescobrir-se numa nova vida e quase numa nova identidade, agora que tinha um diagnóstico que explicava tanta coisa que ela sempre estranhou em si. Fiquei tão feliz por ela.
Depois, houve uma altura em que ela partilhou connosco uma história caricata. A Samantha deu match com um fulano no Hinge, foi ao date e saiu maravilhada do encontro. Best First Date (BFD) foi como ela baptizou a situação e, consequentemente, o moço. Foi uma história digna de uma comédia romântica. O encontro correu às mil maravilhas. No dia seguinte, o BFD tinha ainda um outro date, que ele foi para honrar o compromisso e não deixar a outra pessoa pendurada. A Sam partilhou connosco isto tudo (entretanto, ela pôs paywall na maior parte dos posts… oh well…), incluindo as inseguranças que sentiu, como conversou com ele e ele atendeu ao que ela disse. Ela estava a duvidar do que poderia sair dali, pois eles estavam a 3h de carro um do outro, mas prosseguiram em continuar a sair juntos.
A distância foi um tema e quase um deal-breaker. Lembro-me de ela relatar um episódio em que o BFD disse que não lhe dava jeito fazer a viagem para ir ter com ela, ela anuiu, mas depois muniu-se de coragem e disse que ficou desapontada e queria que ele fosse, que se realmente aquilo era para ser algo, ele faria aquele esforço. E ele fez! Resumindo e baralhando, eles mantiveram-se a longa distância enquanto iam cimentando a relação até que, recentemente, o contrato de arrendamento da Samantha terminou e aproveitaram para irem viver juntos, finalmente.
Paralelamente a isto tudo, eu descobri e comecei a seguir a Talia, do dating.intentionally. A Talia é uma dating coach que se especializou em ajudar a malta a navegar nas apps. Uma vez que nunca tinha estado nesse mundo, aproveitei para dar o follow e aprender alguma coisa. Quase ao mesmo tempo da Samantha, a Talia foi partilhando com os seguidores o começo da sua nova relação, após mais de 60 primeiros encontros diferentes. Aos dias de hoje, já estão casados.
Na última semana, a Samantha partilhou um reels a relatar como a vida pode mudar muito em 11 meses. Que, há um ano, tinha ido a outra cidade fazer um recado, por acaso passou no Hinge, por acaso deu match com um gajo, por acaso teve o best first date da vida dela e agora, passados 11 meses, estavam a viver juntos. Enviei o reels para a minha melhor amiga e escrevi na mensagem “esta história dela ao mesmo tempo dá-me esperança e trigger lol if that makes sense”.
Perdoem-me a leviandade do uso do termo trigger, mas penso que deu para perceber. A história da Samantha mexe comigo precisamente por ser tão bonita, deixando-me exactamente naquele mix entre ter esperança (ela está a viver isto apenas aos 37-38 anos) e sentir uma certa inveja-FOMO, por estar a viver algo que eu nunca sequer cheguei perto, nem sei como lá ir parar.
Em Janeiro, munida de uma falsa noção de energia renovada, com os ensinamentos da Talia e a história inspiradora da Sam, achei que estava curada o suficiente para me lançar no mercado e fiz download de uma dessas aplicações de noivas por catálogo, no caso, do Bumble. Fiz o perfil e entrei no catálogo com a dica da coach: não vás à procura do amor da tua vida, procura alguém com quem não te importes de trocar umas mensagens. Certo. Comecei a swipar. Esquerda. Esquerda. Humm… esquerda. Esquerda. Uf… esquerda. Esquerda. Direita? Esquerda.
Instalei o Bumble e passadas 18 horas dei por mim a choramingar, na casa-de-banho do meu trabalho, com saudades da ex-ilusão.
Ainda troquei umas poucas de mensagens com um moço, recomendou-me a minha pior leitura do ano, e depois não voltou a responder. Outros matches não deram em nada, outros nem abri a conversa. Eventualmente, desactivei a conta, pois de cada vez que passeava no feed, só tinha vontade de chorar. Não aparecia ninguém com quem eu quisesse sequer trocar umas mensagens, fará ir conhecer ao vivo, e nem falo dos passos seguintes. Se esta é a forma de conhecer potenciais parceiros, ou eu não estava preparada naquele momento, ou não vou ter hipótese nenhuma.
O que me encantou na história da Samantha foi todo o imediatismo da coisa. Ela entrou no Hinge (se calhar devia experimentar este catálogo e não o outro), encontrou alguém que lhe despertou interesse, deu match e resultou! Ela está apaixonada e a coisa começou logo no primeiro encontro. Sem as tangas do “o amor constrói-se” ou do “arrisquei dar swipe right em alguém que não é o meu tipo” ou ainda o “dá tempo até chegar a atracção” - tudo coisas que eu interpreto como “ao início achei-o feio” quando as oiço. A Talia diz coisas parecidas aqui e ali e é por isso que estou mais investida na história da Sam e do BFD e não tanto na dela e do marido.
Eu sei que é irrealista e falso estar com este olhar tão atento a uma relação alheia, de onde só me aparece o que ela quer partilhar. Também sei que o dating é um jogo de números. A Talia foi a mais de 60 primeiros-encontros, recordo. Quando penso nisto, apercebo-me do quanto eu não tenho em mim a energia nem a vontade para ir conhecer e entreter 60 pessoas diferentes. Se é preciso ir a 60 primeiros-encontros para encontrar alguém que eu inicialmente achei feiote mas no final até pode ser que resulte, então eu não sei se quero assim tanto um relacionamento romântico. Se calhar estou bem assim.
Embora esteja super feliz com a história da Samantha e me dê esperança, também sinto a tal inveja-FOMO. É uma dualidade de emoções perante a situação. E reparo que, no tema do amor, eu sempre senti uma dualidade de emoções. Será que quero mesmo uma relação? Ou não quero? Eu acho que quero, ou não teria passado a vida toda praticamente sempre a crushar em alguém, na esperança de que resulte. Mas acho que não quero, quando não estou disposta a jogar o jogo das noivas por catálogo para tentar arranjar uma. Algo em mim me dá o cringe quando penso em fazer actividades só para tentar desencantar um engate, a la personagem de Sex and the City, let’s go there and try to meet some guys-kinda thing.
Se calhar, em vez de frieza, tenho em mim um grande romantismo porque anseio conhecer alguém de forma mais natural, orgânica, dentro de um contexto, não necessariamente offline, não é conhecer as pessoas online que é o problema para mim (lol…). Mas a noção de que estou, de forma voluntária, a colocar-me no catálogo, desconcerta-me. É como se estivesse a anunciar a um rol de gente a quem o meu perfil aparece “olhem para mim, aqui estou no catálogo, vejam nestas duas a três fotografias se me acham atraente o suficiente para darem swipe-right, mesmo não sabendo mais nada sobre mim”. É a noção de que está toda a gente ali para o engate e eu não tenho o chip para a conversa de circunstância com estranhos sob o clima do engate.
Tudo isto se pode resumir de forma simplista assim: na hora da verdade, eu, neste momento, não tenho o mínimo interesse em estar activamente à procura de namoro. No entanto, parece que dizer isto é uma declaração falsa, como se eu não pudesse apenas estar ok e não querer estar nas apps, como assim não queres andar a ir beber copos com umas quantas noivas do catálogo? De certeza que isso é só para esconder problemas de intimidade/indisponibilidade emocional/insegurança e outros termos de terapia que entraram no léxico comum. Eh pá… Não.
Genuinamente sinto que estou bem assim, de momento. Tal como já partilhei em tempos, andei a vida toda “apaixonada” aqui e ali. É a primeira vez, desde que me lembro de ser gente, que não tenho uma fantasia romântica a assombrar-me os pensamentos. Talvez, neste momento, seja assim que devo estar.
A Samantha passou por uns anos complicados e foi só quando se começou a estabilizar como pessoa que, por acaso, passou no Hinge e teve o match com o seu BFD. Ela tinha 37 anos. Eu ainda vou com 29. Talvez, eventualmente, algures no tempo e quando estiver mais alinhada, eu passe os olhos no catálogo e vá ter o meu melhor primeiro encontro de sempre. Talvez.
[...] When I see you, the whole world reduces To just that room And then I remember and I'm shy That gossip's eye will look too soon And then I'm trapped, overthinking And yeah, probably self-doubt You tell me to get over it And to take you out But I can't, I'm too scared And here's the night bus, I have to go And the doors are closing, and you were waving And I like you, and I'll never let it show And you won't wait, and maybe I won't mind I work better on my own And now I'm home, a little bit drunk And I ask myself What if it's not meant for me? Love What if it's not meant for me? Love




Também já passei por isso de instalar apps à procura de alguém mas nem matches tinha :x
Cheguei a um ponto que desisti completamente e simplesmente assumi que vou ficar sozinho e fico-me pela família e amigos