Uma urgência espectacular
Para ler antes que esgote.
Os Imagine Dragons anunciaram uma data para dar um concerto, em Lisboa, no Estádio da Luz. Notícia que causou muito sururu, principalmente pelo preço dos bilhetes. O último concerto que se deu na Luz, o de Taylor Swift, também teve um falatório semelhante, os bilhetes caros. Em comparação, o dos Imagine Dragons é ainda mais caro, e nem estou aqui a meter ao barulho os infames bilhetes VIP de mais de 6 mil euros. O ano passado, os Coldplay vieram dar quatro concertos ao Estádio de Coimbra e, na altura do anúncio dos espectáculos, a discussão foi a mesma: o preço dos ingressos.
De facto, há algo nestes mega-concertos que anda fora de mão, mas ainda não me dediquei a ouvir falar sobre isso. Não é bem esse o ponto que quero trazer aqui hoje, embora o tema seja interessante.
A verdade é que, mais barato ou mais caro, todos estes espectáculos esgotaram de um dia para o outro, após o seu anúncio. Ok, há dois ou três lugares em sectores mais fraquinhos, tudo bem… Virtualmente, podemos dizer que os concertos esgotaram. Puff! Assim, do nada!
Estou safa porque, para o bem ou para o mal, não há assim tantos artistas que eu faça muita questão de ver ao vivo. Ou já tive oportunidade de os ver, ou muitos que poderia querer ver, estão mortos. E digo que estou safa porque, desta forma, acabo por me livrar deste fenómeno que me induz ansiedade: uma urgência imediata para comprar o bilhete no SEGUNDO em que é anunciada a data, sob pena de, num par de horas, estar tudo esgotado!
Isto causa-me ansiedade por uma mistura de factores curiosos que variam entre eu ser forreta, ser muito pouco impulsiva, e detestar que me apressem. E, dada a cultura actual da bilhética, o sistema está feito para quem é mãos-largas, impulsivo e apressado.
Pergunto-me como é que é possível, nesta economia, tomarem-se decisões destas ao minuto? Como é que os Imagine Dragons abrem a bilheteira e há tanta gente que, nesse preciso momento, tem preparados 90€ (o mais barato!) + taxas para comprar o bilhete? Como?! Não precisam de PENSAR sobre o assunto? Podem só ir ao site, seleccionar a data, escolher o lugar, click, click, click, método de pagamento, click, click, chegou à sua caixa de e-mail o bilhete; menos cem paus na conta?
Quando os Oasis anunciaram a reunião, dei por mim a pensar numa maluqueira… Olha, isto bem combinado, dava para ir conhecer Londres e ver um concerto… Qual quê! Preço astronómico dos bilhetes, burocracia digital que eu não consigo compreender para aceder à bilheteira e… esgotou logo?! Ok, deixem lá. Posso só ficar sossegada e ouvir oasis - só as mais conhecidas.mp3 em casa e em paz.
Este fenómeno está longe de se cingir apenas aos concertos. Um humorista que gostas de seguir anunciou datas para uma tour de standup? Tens cerca de duas horas e meia para decidir se queres ir antes que as datas esgotem. Felizmente, neste caso, o encargo financeiro não é tão grande. Ainda assim, tenho de decidir nesse preciso momento se estou disposta a largar cerca de 20€ para um espectáculo que só vou ver daí a MESES, mas que tenho de pagar agora, independentemente de saber se ainda tenho de carregar o passe, ir ao dentista, ou fazer outra coisa qualquer que já tinha planeado com o orçamento desse mês.
Não sei se isto é de agora ou se sempre foi assim, mas esta urgência e esta pressa na decisão não combinam comigo. Se calhar o problema está em mim, penso demasiado, fico paralisada num “ai, não sei… não sei…”, ou tenho demasiada ansiedade financeira sendo que, no final de contas, e realisticamente, não é por poupar os 20€ do standup que vou ficar mais rica.
Ainda assim, aborrece-me esta vivência no imediato urgente. Não temos mais tempo para parar e reflectir antes de tomar uma decisão? Ainda por cima quando essa decisão implica umas boas dezenas ou mesmo centenas de euros? Serei eu a última forreta do mundo?
Vou ter de deixar as perguntas em aberto porque não sei o que responder. Talvez o problema seja meu, das minhas necessidades de controlo e do meu instinto de primeiro dizer que “não” ou “não sei” ou “nim”. Há aqui qualquer coisa em mim que me paralisa antes de me poder entregar à experiência, e é óbvio que isto vai para lá de comprar bilhetes para espectáculos. Num arranjo cósmico curioso, este retorno de Saturno está a mostrar-me que eu preciso de tempo. Tempo para pensar, para perceber o que quero, tempo para me mentalizar da acção que vai decorrer.
Se calhar, aperceber-me disto pode ser uma viragem na minha pessoa. Este ano, tenho tentado dizer mais que sim do que não, mesmo quando as coisas não são apresentadas exactamente ao meu agrado, ou o plano não é proposto do modo que eu o faria. Às vezes surpreendo-me, outras continuo a achar que eu é que tinha razão. Oh, well… Felizmente para mim, isto é um work in progress e, ao contrário dos mega-concertos, dos solos de standup, das peças de teatro e dos bailados, não se esgota. Tenho tempo.
nota da edição
A ideia para este texto foi-me surgindo à medida em que me ia irritando cada vez mais com os espectáculos esgotados de um dia para o outro. Caramba, irrita-me mesmo eu nem possa ter 24h para pensar, que o raio das datas ficam logo esgotadas. Irrita-me tanto que eu, por teimosia, até penso “não vou comprar e não vou, que se lixe, protesto!”. Tal como se nota, gostava de ter conseguido dar um tom cómico ao texto, num humor zangado à la Larry David que eu tanto aprecio, mas acabou por me sair mais uma conclusão pseudo-introspectiva, pseudo-personal-essayist.
Nesta espiral de introspecções, dei por mim a pensar que, na altura de criar esta Crónica, tinha em mente escrever desses textos humorísticos e engraçaditos, para largar umas piadolas aqui e ali. E não tenho conseguido. Ao contrário dos tweets que têm, naturalmente, um formato de punchline, a minha escrita mais longa tem-me fugido para lugares densos, com reflexões que trazem ao de cima partes de mim que considero magoadas, tristes e abandonadas. Tenho muitos momentos em que sinto que não estou bem, apenas sou boa a fingir que está tudo ok e normalzinho, e acho que encaro a escrita mais longa como uma hipótese para não o esconder. Preciso de ir à terapia. Ironicamente, é mais uma das decisões que me paralisa e deixa no “nim”. Tenho medo de quê? Por que fujo? Vai só, mana. Vai!



Absolutely. Morri que você deu o exemplo de humorista também porque eu já desisti de ver a Bumba ao vivo, foda-se. É muita loucura, cruzes.
Fora toda a coisa de ter o dinheiro, o tempo disponível, correr etc ainda se tem que dar a sorte de estar online no exato momento em que as coisas são anunciadas.
Tenho mais o que fazer.
Um exemplo em oposto a Imagine Dragons foi Franz Ferdinand em que recebi mail com código para comprar na pré-venda mas esqueci-me completamente e quando fui ao site no dia seguinte ainda tinha bilhetes, para além de o bilhete mais caro custar menos que o bilhete mais barato de Imagine Dragons.