will you be my valentine?
Sobre o romance de massas.

Detesto o dia de São Valentim. Acho tudo um pavor: os ursinhos de peluche a segurar um coração vermelho que diz “I love you” em cursivo; as pobres rosas solitárias, embrulhadas em plástico vermelho-transparente, à espera de morrer dali por quatro dias; as filas de estafetas da ubereats e similares à porta da Hussel, no shopping, para levantarem a encomenda dos chocolates; os namorados a invadirem as lojas de roupa interior para comprarem um conjunto de lingerie para as namoradas (🤮). Detesto, acima de tudo, a obrigação social e capitalista de cumprir com um ritual em nome de parecer bem.

Volta e meia fica viral um tweet norte-americano sobre receber flores. Ou é uma mulher feliz porque o namorado actual lhe oferece flores; ou é uma mulher infeliz a fantasiar com o dia em que um namorado lhe ofereça flores; ou é outra mulher ainda a desabafar como o romantismo desapareceu porque os homens já não oferecem flores.
Eu não percebo a panca com as flores. Não me podia estar mais a borrifar para se o meu hipotético parceiro me dá flores. O que raios é que faço com flores?
Oferecer flores é o acto supremo do romantismo? Querer receber flores é o que determina que alguém está pronto e predisposto a relacionar-se romanticamente com outra pessoa? É preciso gostar de flores para se ser romântico?

Quatro fotos de diferentes ângulos de um quarto de hotel, com a cama cheia de pétalas de rosas. Na descrição, alguém afirma convictamente que, para si, tem de haver este nível de romantismo na sua vida afectiva. Que essa pessoa é, sim, uma romântica, e quem estiver ao seu lado tem de compartilhar deste empenho no romance.
Sim, de facto. O pináculo do romantismo são ursos de peluche feitos em série, uns iguais aos outros; um jantar de Menu Especial Dia dos Namorados em que todas as mesas são servidas com o mesmo prato; uma rosa já pré-embalada vinda de um balde onde estavam outras iguais; uma noite num hotel com a mesma decoração em todos os quartos; tudo para preencher com um visto ✅ a tarefa “celebrar o dia dos namorados”. Esta ideia não é do teu agrado? Talvez não sejas uma pessoa romântica.
Os poemas de amor do Camões são de níveis estratosféricos de piroseira. “Amor é fogo que arde sem se ver”. (🤮) E é esta parolice que temos de aprender na escola como se fosse o baluarte da poesia portuguesa… poemas que, sabendo o pouco que sei do Camões, parecem-me mais exercícios bacocos de lirismo para fazer uma gracinha às funcionárias do bordel, do que a expressão artística do mais poderoso dos sentimentos. Irritavam-me tanto os poemas do Camões que eu cheguei a pensar que simplesmente não gostava de poemas de amor.
Tenho em mim uma miríade de conflitos internos com este tema. Custa-me saber que só se associa o romantismo a estes gestos padronizados e, se não gostas, então é porque não és uma pessoa romântica. Se calhar, com jeitinho, ainda levas com um diagnóstico de algibeira e isto acontece porque tens “problemas de intimidade”, ou dificuldade em “admitir que também queres viver algo assim”, talvez sejas uma pessoa “avoidant”, ou então tudo se resume a daddy/mommy issues, para os Freudianos de bancada.
Se calhar não sou romântica nem gosto de poemas de amor, mas como se explica, então, viver assombrada por uns versos específicos de Emily Dickinson? I showed her heights she never saw… Ecoando na minha cabeça, em momentos aleatórios, relembrando-me de um romantismo passado não-vivido, pois she could not find her yes.
Se calhar não sou romântica porque não gosto de dar como presente um ursinho a segurar um coração vermelho, apesar de já ter fantasiado trocar cadernos com um alguém para, daí a um ano, os voltarmos a trocar, entregando de volta apontamentos, textos, recortes e palavras para o outro. Se calhar não gosto de receber flores, mas é óbvio que, na ocasião certa, se dá um cravo quando se sabe que se tem ao seu lado uma mulher de Abril, a única flor que serve para alguma coisa e que me faz sentir que eu estou a pegar em algo de maior.
Se calhar não sou romântica, sou fria e desnaturada porque desprezo a expressão padronizada de afecto que é vendida em massa. Apesar do amor que trago dentro de mim e infelizmente ainda só tentei entregar a quem não o quis receber. Apesar de ter começado a escrever esta Crónica numa manhã em que me deparei com um recorte digital que me engatilhou profundamente, porque a ferida ainda não cicatrizou. Apesar de achar que poucas coisas são mais bonitas, honestas e genuínas do que escrever um livro de poemas para lidar com o luto da morte do amor da tua vida, como fez Maria Teresa Horta, que não nos é ensinada na Escola, vá-se lá saber porquê.
Irritam-me as obrigações sociais e capitalistas destas festividades pseudo-inventadas. Como se, não participando, significasse que não sentes. Irrita-me a falta de compreensão e interpretação e também de tolerância perante o outro e a sua opinião. Irrita-me a quantidade de coisas inócuas a que as pessoas se prestam porque “é assim que tem de ser”. E irrita-me ter escrito este texto com esta técnica preguiçosa de repetir sempre o mesmo começo de frase.
Apeteceu-me escrever sobre isto, honrando a minha teenager de opiniões fortes, mas a verdade é que não me podia estar mais a cagar para o dia dos namorados. Digamos que vivo uma espécie de neutralidade, o dia em si não me aquece nem me arrefece, mas sou obrigada a lidar com ele na mesma. Aliás, até me enerva, por outro lado, a forma forçada como é dirigido às solteironas - sim, é sempre SÓ às mulheres - pseudo-aconchegos para as tentar apaziguar e acarinhar, coitadas, porque é dia dos namorados e elas não têm um desses. Então é o Galentines, é o you can buy yourself flowers, não precisas de um homem para te oferecer chocolates, diva, podes tu comprar! usa o código HUSSEL10 para entrega grátis em tua casa; estás solteira neste dia 14 de fevereiro? Compra um satisfyer, usa o meu código de desconto. Compra, compra, compra!!! Mesmo não tendo o objecto da comemoração - o namorado - podes sempre comprar alguma coisa, não podes é passar ao lado de uma festividade que, por razão alguma, só não faz sentido para ti.
Nunca, em momento nenhum da história, é ensinada aos homens esta espécie de culpa da solteirice. O que seria, campanhas de marketing constrangedoras e que só provocam vergonha alheia, para mostrar aos homens que não precisam de namorada, podem ir comemorar o São Valentim com os bros. Podem oferecer-se a si mesmos um par de boxers novos. Podem comprar um apetrecho sexual para uma punhetinha mais divertida nesta noite que só não é igual às outras porque alguém um dia inventou que este era o dia dos casais.
Que profunda foleirada, isto tudo.
“Vive e deixa viver”, costuma ironizar o José de Pina no Irritações. Lá está, por amor de Deus, comemorem o dia dos namorados se têm com quem celebrar. Mas não venham fingir que presentes cliché e chapa-cinco são o cúmulo do romantismo e que quem não vai nessas cantigas não sente o amor. Por outro lado, vamos baixar o volume às alternativas ao São Valentim, dedicadas às gajas encalhadas, porque quem está solteiro nem é coitadinho nem precisa dessa condescendência fingida. Por último, não deixa de me entristecer o quanto as pessoas mascaram uma aparente relação feliz atrás de uma rosa, um jantar de sushi, tudo devidamente documentado e postado em story de Instagram, claro. Às vezes, o casal está miserável, passam os dias a discutir, estão fartos e embirram um com o outro, mas God forbid!, é Dia dos Namorados e eles trocam uma lembrançazinha porque “tem de ser” e eles são pessoas muito românticas.
Não sei… Eu cá prefiro a ideia de amar alguém todos os dias.
Crónica do São Valentim passado:







Subscrevo. Detesto as efemérides comerciais, sejam elas quais forem. Ainda pior as que foram importadas, sem raiz histórica. Porque é pop. Os poemas de amor também me custaram a entrar, mas hoje em dia, um daqueles bom, enche-me as medidas. Amamos todos os dias, de forma diferente e à nossa maneira. Que se danem os ursinhos e o cursivo.
Adorei como passaste de uma irritação para um tema importante, onde todo este marketing e conversa andam à volta das mulheres (como tudo, como sempre). Sou da mesma opinião e tenho 0 paciência para este dia e, como tu, também me irrita a inundação que levas deste dia. A standardização das prendas, a falsidade dos gestos, todo o evento. Também sinto que chamares o dia pelo que é, é seres "grinch". Não sou, gosto do amor, gosto de o celebrar, só não gosto deste dia porque é irritante. Depois sinto que os gajos metem as gajas todas na mesma caixa, ao oferecerem o "pack gaja" flores e chocolates/um peluche. Por amor de deus!! Conheçam a vossa parceira, como dizes, e ofereçam algo de acordo com ela. Enfim, na mesma, uma relação não se mede por este dia consumista.