A queda da Torre de Babell
O barraco do evento literário e o nosso viés de simpatia.
Bastou um dia para que o Babell, o festival literário e cultural que teve a sua primeira edição este ano, no Porto, desse barraca. Não fui ao festival, portanto tudo o que sei foi com base nesta notícia, disponível no Jornal de Notícias. Resumindo, parece que a conferência de Byung-Chul Han, o famoso filósofo sul-coreano radicado na Alemanha, autor da Sociedade do Cansaço, começou com hora e meia de atraso porque, de imprevisto, a organização do festival teve de ir arranjar um tradutor e auscultadores para os membros da audiência. Ao que parece, Byung-Chul Han ia discursar em alemão, e ninguém no Babell se precaveu desse facto.
Tendo em conta o que li na notícia - recordo, novamente, que eu não estava lá -, perguntei-me no twitter se o filósofo não saberia falar inglês? Isto porque, pelo relatado no JN, foi perguntado ao público quem é que precisaria de tradução, visto que a conferência seria em alemão. Bom, quer-se dizer… né… quem é que vai precisar de auscultadores nesse caso? Sei lá, toda a gente?!?! À parte, talvez, de uma fã de Tokyo Hotel, que na adolescência tentou aprender o idioma germânico, e que por sorte estivesse por lá. Ou o Herman. Ou a nossa Rita Dantas. Alemão, definitivamente, não é uma língua que seja acessível. Ao contrário do inglês, entendido por todos como língua franca.
Perguntei-me se Byung-Chul Han não poderia ter falado em inglês, precisamente por esse facto, e para mitigar a chatice que estava a suceder. Admito que também pode ser presunçoso da minha parte, mas estava a assumir que o público do festival, consciente dos nomes internacionais sonantes que estavam convidados, entenderia com tranquilidade uma conversa em inglês. Isto gerou alguma celeuma na rede social do lado, com algumas pessoas a virem defender o direito do Sr. Han a falar o seu alemão. Porque é a língua em que ele pensa, porque o festival é que teria de acautelar isto a priori (sim, sem dúvida), ou então a questionarem-me porque é que ele haveria de falar inglês em Portugal (e porque é que haveria de falar alemão, sendo assim?).
Assisti à discussão com distanciamento e fascínio. É, de facto, impressionante a forma como mudamos o nosso discurso e as nossas reacções conforme temos ou não simpatia pela figura visada. Estamos todos cientes dos discursos em inglês tosco das nossas altas figuras de estado, quer seja lá por Bruxelas, quer seja no palco da Websummit. É divertidíssimo fazer pouco do inglês do Montenegro e achar inadmissível que ministros de um governo sejam tão pouco prolíferos na língua-franca, principalmente tendo em conta a exigência do domínio deste idioma para o cidadão comum, aos dias de hoje. Então, digam-me lá, porque raios é que não posso esperar que um académico de alto calibre saiba dar uma conferência, num festival literário, em inglês?! Só porque ele é super cool entre a esquerda e a classe intelectual? De repente, este homem é um coitadinho cujo cérebro só funciona em alemão? Lamento, mas não compro isto. Tal como tweetei, uma pessoa para servir às mesas precisa de saber falar inglês, mas de um filósofo contemporâneo não se pode esperar que fale inglês, tem de ficar uma conferência toda encalhada porque o divo vai falar numa língua que ninguém entende. Foda-se.
Isto transtorna-me especialmente porque eu adoro saber línguas, e adoro saber falar, ouvir e ler em inglês. Foi o idioma que calhou, fruto dos processos de globalização capitalista que todos conhecemos, mas está feito um acordo de cavalheiros a nível internacional para que, em caso de empate, resolvermos a falha de comunicação falando inglês uns com o outros. Mais técnico, menos técnico, mais fluente ou mais macarrónico, o que interessa é passar a mensagem. Sinto uma liberdade e um poder enorme por saber falar inglês, pela possibilidade de poder ajudar alguém na rua, ou eu própria ser ajudada, para poder viajar e estar à vontade porque pelo menos inglês sei falar, e para conseguir estar à conversa quando ocasionalmente calha estar numa mesa com pessoas de outras nacionalidades.
Então, havendo a possibilidade de se falar em inglês, para uma plateia que o mais provável era entender, não teria sido muito mais fácil?! Uma vez que o amadorismo tuguinha não acautelou as circunstâncias, coitados, às tantas estão mal habituados: por cá, já se aprende inglês desde tenra idade, erro nosso em achar que figurões intelectuais também dominassem o idioma.
É óbvio que a organização deveria ter sabido, à partida, que Byung-Chul Han prefere discursar em alemão. Sim, também acho que deve haver tradução portuguesa, mesmo falando em inglês, porque nem toda a gente deste país teve oportunidade de aprender a língua de Sua Majestade e não é por isso que tem de ficar excluído de eventos culturais. Só fiquei um bocadinho mal impressionada porque, dada a chatice, esperava mais flexibilidade do filósofo e uma ajudinha para desenrascar. Inglês não sei, mas em caso de necessidade de resolver chatices de última hora, ficou claro que Byung-Chul Han não sabe mesmo português. Deus pode ficar descansado, a Humanidade ainda está longe de conseguir reconstruir a torre.



Eu tenderia a concordar contigo (eu sou uma people-pleaser, até em portunhol me teria arriscado), mas conheço alguns alemães e alguns portugueses que até falam inglês, mas perdem o à vontade ao falar inglês, é como se ficassem manietados (e ainda por cima para falar sobre ideias complexas). Nunca o li, mas estou do lado dele.
Já sobre o desenrascanço, também acho que é uma virtude nacional não suficientemente elogiada. Se dependesse de mim, todos os eventos seriam planeados por alemães e executados nos últimos três dias por portugueses.
De quem lida de perto com esta logística, parece-me que algo estranho aconteceu na contratação desta conferência. Isto é o tipo de coisa que devia estar em contrato. Se não estava, seria natural que a parte contratante assumisse que seria em inglês, mas se estava, alguém o leu na diagonal.
Acho que demonstra a intenção frágil com algumas destas iniciativas culturais são feitas, mesmo que a sinopse seja sempre "para as pessoas". Sabemos que não é. Haver público é uma consequência (e uma ferramenta) da estratégia de marca.