Adolescência
Uma opinião pouco popular sobre a série do momento.
Tomou a sociedade civil de surpresa, levantou o pânico e surpreendeu o público. Sim, estou a falar da série Adolescence. E, sim, só estou a falar disto agora. Será que vim tarde? Confesso que fiz um bocadinho de propósito… Apeteceu-me ver os episódios com calma e deixar maturar a minha opinião, resistindo ao imediatismo de comentar no momento, quando toda e qualquer pessoa tinha uma palavra a dizer. Até podemos questionar se faz assim tanto sentido toda a gente dar a sua opinião, mas que se lixe, foi para isso que se fez Abril. E eu também tenho coisas a dizer.
Começando pelos aspectos mais técnicos… Mais uma vez, parafraseando o João Maria Jonet, eu vou dizer uma coisa muito elitista… a série rebentou porque, de facto, tem uma história cativante e uma boa produção, sem dúvida. Porém, este louvor grandioso como se, de repente, estivéssemos perante o pináculo televisivo poderá ser porque as pessoas não vêm assim tantas séries boas…? E, vendo-se confrontados com uma história, actores, diálogos e argumento que fogem à chapa 3 hollywoodesca, ficam embasbacadas e embevecidas perante o que estão a assistir? “Ah, mas oh Rafa, aquilo foi gravado num só take!” Ok, é louvável, mas não é único. Não querendo ir ao ponto óbvio - teatro existe - se querem ver coisas gravadas num só take, também vos posso recomendar o filme Soft & Quiet, que nos deixa à beira do abismo emocional durante hora e meia.
Depois, entrando na temática propriamente dita da série, que tanto chocou e abanou o público: um menino fofinho de 13 anos foi detido pela polícia por suspeitas de assassinar uma colega da escola. A moral da história: o miúdo estava a ser radicalizado pela manosphera machista que prolifera na Internet e é um chamariz para tantos outros rapazinhos adolescentes. O problema? Devido à produção não-muito-hollywoodesca da série, quem não é cronicamente online não percebeu NADA do que se estava a passar.
Eu percebi. Mas eu vivo na Internet. O cidadão-médio viu aquela cena em que o filho do polícia lhe explica que, através dos comentários no Instagram, se percebe que estão a fazer pouco do rapaz, chamando-o incel, dizendo que ele tomou o red pill e menciona a regra dos 80-20, e o resultado disto foi… o pânico dos emojis!!! Porque nenhum pai que não esteja na internet a sério sabe o que é um “incel” ou o que significa a “regra dos 80-20” e muito menos percebe a referência do “red pill”. Então, desta cena importantíssima que explica o enquadramento político e cultural daquele rapaz, o público agarrou-se ao que conseguiu perceber: os emojis usados pela menina significavam não-sei-o-quê, que insultaram o moço, e se calhar ela fazia-lhe bullying.
Pais!! Atenção!!! Os emojis têm significados escondidos! Atentem nas conversas dos vossos filhos e nas mensagens subliminares que escondem!!! E vai um post da PSP a explicar emojis; e mais um português que inventou um “dicionário de emojis” (coitado, ninguém o avisou que já existe a Emojipedia?), tudo isto para ensinar que a beringela 🍆 é… pila 🤯😱 e que o pêssego 🍑 é… “órgão sexual feminino” - nada mais cómico do que adultos a tentar descodificar mensagens e depois darem o significado errado: o pêssego significa rabo, não se limita a um género. Atenção à sequência 👉👌 que quer dizer “sexo” 😵!!!
Nada disto é um “significado escondido”, é bastante explícito no contexto de uma conversa por mensagens escritas. Enfim. Isto entristeceu-me. Fiquei triste e deprimida que, de uma série sobre radicalização online de rapazes adolescentes, a mensagem que ficou no público foi o pânico dos emojis. Eu não aguentava já mais posts a explicar emojis! That’s not the point!!!
Além deste tiro ao lado na atenção de quem vê, a série comete o erro de dar o entendimento subliminar de que o menino poderia estar a ser vítima de bullying da menina-má que o insultou via bonecos. Claro que eu não caio nisto nem na armadilha das vítimas perfeitas, mas será que se conseguiu transmitir a mensagem? Será que ouviram o rapaz contar que a foi convidar para sair por pensar que a auto-estima dela estava na lama, depois de ter sido vítima de partilha de conteúdos íntimos? Perceberam que ele se queria aproveitar dela? Humilhá-la? Ou só perceberam que ele, coitadinho, se calhar no fundo até gostava dela, e ela rejeitou-o? Humm…
Bom, ficou entendido que o problema vinha, de algum modo, dos telemóveis. Do online. Dos emojis (????). Da vida secreta que os adolescentes vivem à margem do controlo dos pais. E é aqui que a porca também torce o rabo: qual é o papel dos pais no meio disto tudo e o que se pode fazer para tomar algum controlo? Como é óbvio, não tenho respostas. Além disso, não tenho filhos - que é o argumento que toda a gente gosta de utilizar quando alguém ousa dar uma opinião sobre educação de crianças. Mas tu não tens filhos!!! Não tenho filhos, mas já fui adolescente; já tive adolescentes a crescer na minha família; olho à minha volta e vejo pais com filhos pré e adolescentes. Sou um membro da sociedade civil. Acho que posso mandar o meu bitaite, lamento.

A relação adolescentes-pais fascina-me em muitos pontos. Um dos principais é a total desconexão que surge a dada altura, uma incomunicabilidade que aparece lá em casa e que resulta num escalar de tensões. Ora, os adolescentes são, efectivamente, crianças. Portanto quem tem de saber lidar com isto são os adultos. Faz-me confusão como é que os pais têm tão pouca curiosidade sobre os filhos adolescentes, limitando-se a reclamar que eles “só querem sair com os amigos”. E que a conversa com os filhos se resuma ao “então e as notas?” “e a escola?” “como é que estão as notas?” “as notas” “as notas” “as notas”. Foda-se as notas. Vêem as notícias em família, à hora do jantar? Comentam? Ouvem a opinião dos vossos filhos? Levam-nos convosco a votar? A uma manifestação? Falam sobre o que se passa no mundo? Conhecem alguma coisa do que eles pensam sem ser sobre “as notas”? Mostram-lhes filmes? Livros? Vão a um concerto juntos?
Não quero ser totalmente injusta para com os pais. Há, efectivamente, uma vida secreta que o adolescente começa a construir e que não partilha lá em casa. Mas até isso faz parte do crescimento, da construção da sua autonomia pessoal. O adolescente sofre desta dupla injustiça: deixa de ser visto como uma criança-fofinha porque se começa a afirmar e a tentar compreender para lá do seio familiar, e depois começa a ser cobrado como se fosse um adulto a sério, só porque deu uma resposta arisca ou está de trombas à mesa, perdendo a compreensão dos adultos à sua volta. Além de toda a confusão mental e emocional fruto do crescimento, ainda acaba confrontado com a incompreensão e falta de empatia dos seus cuidadores.
No entanto, volto a reiterar, não quero ser injusta com os pais dos adolescentes. E há algo que também transparece na série, pode ou não ter sido apanhado por toda a gente: os pais estão cansados. A vida adulta é esgotante. Os trabalhos ocupam o dia inteiro e ainda mais o espaço mental dos adultos. Os membros do agregado familiar chegam a casa tarde e têm poucas horas, ao fim de um dia cheio, para estarem juntos. O capitalismo é, igualmente, inimigo da família. Não abre espaço para o convívio, para o acompanhamento mais próximo entre pais e filhos. E assim se vai abrindo um fosso na intimidade da família. Quem nunca ouviu, principalmente do progenitor masculino, algo nas linhas do “foquei-me no trabalho e quando dei por mim, o meu filho já era crescido”? Eu já.
Por fim, ironia do destino, esta semana ficou viral um vídeo do Numeiro em que ele discursava coisas abjectas, nas linhas do “mulher que tem namorado não pode sair à noite com amigas” ou algo do género. Não sei porque não vi. Não precisei de ver, pois, lá está, sou cronicamente online. Tinha uma ideia de quem era o Numeiro, um YouTuber qualquer que ficou famoso e depois se foi embrulhando em esquemas e burlas. A Joana Marques, no Extremamente Desagradável, fez o favor de mostrar outros conteúdos desta personagem e aí já estava o conteúdo machista. Portanto, o vídeo desta semana não me surpreendeu. Eu já conheço aquele discurso e sei que anda aí. Felizmente, esta viralada chegou a muita gente fora da bolha do Numeiro. Chegou aos pais. E talvez tenha servido de alerta, de chamada de atenção. Sim, é isto que os teus filhos de 13 anos poderão estar a ver. E é esta a mensagem preocupante que eles têm na palma da mão, não os emojis. Estejamos atentos.




Adorei. Tudo on point. Penso da mesma forma. Em vez de encararem a série como uma porta de entrada para conversas importantes e necessárias perderam-se nos emojis ??
Além daquilo que já falamos: a pouca empatia que há para com os adolescentes, que se estão a descobrir. É a primeira vez que se descobrem fora do mundo dos pais. Estão a descobrir quem são, hormonas, desenvolvimento do corpo e isto passa tudo ao lado porque lidam com eles como se fossem adultos, excepto que são....crianças.
Na mouche! Achei o mesmo sobre a conversa dos emojis. Passa ao lado. Ainda me falta ver o último episódio, estou sem pressa, mas também não estou surpreendida. É como dizes, isto anda pela internet e não é subtil, nem escondido. O meu filho mais velho só tem 2 anos e já penso muito em acesso à internet, como introduzir, quando, com que limites, etc.