E agora, outra vez?
Apontamentos sobre o pós-eleições & a catástrofe de Valência.
Saíram os resultados das eleições que impactam o mundo todo, mas que só aqueles que são de lá podem votar. Ganhou o Trump, claro. Não foi surpresa para mim, tendo em conta o desarranjo que foi a campanha dos Democratas. Desde a insistência numa recandidatura de Joe Biden, já debilitado, a finalmente aceitarem - tão tarde, diria - que ele não estava capaz e ser retirado, até à nomeação à pressa de Kamala Harris, isto estava condenado desde o início. Enfim, eu ando afastada da política norte-americana (ou tão afastada quanto um habitante dos Estados Unidos do Mundo da América consegue estar), portanto não tenho grandes análises para trazer, nem acho que valha a pena, a esta hora já está tudo dito. Ainda assim, custou-me ver os Democratas a fazer, pela segunda vez, o mesmo erro: subestimarem a figura de Donald Trump, achando que desta vez já não ganha, é o Donald Trump por amor de Deus!!! Então nem se esforçaram. Não se esforçaram em ter primárias para escolher um candidato, acharam só que bastava empurrar o velho mais uns aninhos. E, quando isso não deu, acharam que a Kamala ia ganhar baseada em vibes, porque ela é uma tipa engraçada aqui e ali, negligenciado os problemas que estão a afectar o mundo e que poderiam ter peso na vontade de votar do eleitor de centro-esquerda norte-americano. O que aconteceu a arranjar um candidato aparentemente super cool e que pisca o olho à esquerda, embora a gente saiba que é tudo muito pela rama, só que ao menos há um fingimento capaz de segurar as pontas? Um Obama? Pronto, cá estamos.
Como não me surpreendeu a vitória de Donald Trump, não me vi mergulhada num terror existencial. Também porque, recordo as eleições aqui do nosso cantinho, fiquei tão em choque com esses resultados e a verdade é que a vida tem continuado… ok? Claro, o governo de Montenegro é uma merda e tem sido um chorrilho de parvoíces, erros, falcatruas e desastres uns atrás dos outros. Mas o PS lá permitiu que o Orçamento fosse aprovado e então vamos gramando com o mal-menor. Ok.
Então, estou dividida. Valerá a pena estar em pânico com a vitória de Trump? Não vai tudo ficar mais ou menos na mesma? E ontem bateu-me… espera, agora vamos aturar QUATRO anos de Administração Trump OUTRA VEZ! Mais quatro anos de coração nas mãos porque o destino do mundo está ao comando de um autêntico boneco, um escroque sem qualquer sentido de Estado, de respeito institucional pelo cargo que ocupa, nada, sendo que agora tem uma máquina política forte por detrás dele, desde logo pelo seu Vice, o JD Vance.
Dói-me pensar na questão da Palestina. Já foi, perdemos. Não sei o que pensar em relação ao rumo da guerra na Ucrânia e que implicações tem isso para a União Europeia. A nível mais local, como lidar com uma nova horde de expats americanos a fugirem dos seus erros e que vêm, com os seus dólares, viver para países onde os locais não têm acesso a habitação nas suas próprias cidades? E não, não há problema de ter estrangeiros a procurarem melhores condições de vida noutro país, fugindo de situações políticas desfavoráveis. Pergunto-me quando é que vamos, então, tratar de ter o país confortável para todos? Quando é que se começa a construir habitação em brada para alojar tanta gente? Os expats (nome chique para “imigrante rico”) e os imigrantes (pobres). E os locais.
Que merda.
Solo el pueblo salva al pueblo
Assistimos todos com horror ao que aconteceu em Espanha, na região de Valência, com as cheias. Foi uma catástrofe, um verdadeiro terror que chocou toda a gente. Se calhar chocou porque foi em Espanha, aqui ao lado, tão pertinho, em vez de ser, como estávamos habituados, na América Latina, no Haiti, nas Filipinas, sei lá eu, nesses países que estão p’ra ali. Enfim, nem é por aí que vou com esta conversa.
Também não é sobre o desastre que estão a ser as alterações climáticas e de como os donos do mundo nos obrigam a perder uma batalha que facilmente podíamos ganhar. Não. A tragédia de Valência pôs-me a pensar noutras coisas…
Não estou a par da complexidade da jurisdição local espanhola. Parece que o governo queria enviar ajuda mas depois o governo regional não queria aceitar a ajuda? Uma trapalhada assim do género. Então, de forma espontânea e por força das necessidades, a população meteu mãos à obra para começar a limpar os estragos.
(Engraçado notar que, nestes casos, os seres humanos afinal entreajudam-se. Será que afinal é isto a… natureza humana? A tal natureza humana que alguém nos começou a ensinar que era gananciosa? Mas, no meio do desastre, uniram-se esforços em prol da comunidade, certo? Fica o apontamento.)
Surgiu, bonito e poético, o slogan solo el pueblo salva al pueblo para ilustrar a situação. Frase dos tempos da Guerra Civil espanhola para nos fazer ver que, afinal, no final do dia, só nos temos a nós próprios para contar e salvar. E foi e está a ser. E acho que faz sentido, afinal de contas, com uma cidade submersa em lama, depois de chuvas torrenciais, é preciso toda a ajuda possível de encontrar.
Foi aqui que fiquei a pensar no seguinte: as alterações climáticas estão cá. O planeta está todo fodido, pardon my french. Acontecem desgraças destas e temos de meter mãos à obra. Quando é que os nossos Governos começam a pensar seriamente em dar formação de Protecção Civil às populações? Meus amigos, que lindo, solo el pueblo salva al pueblo, mas convém saber como! Como é que devemos proceder em caso de sismos? Em caso de cheias? Em caso de incêndios? Derrocadas? Furacões?
Quando é que, à semelhança do que vemos em episódios de uma qualquer série norte-americana no episódio de alerta de furacão, temos alertas do Governo para avisar a população de que vem aí catástrofe e tomarmos as medidas de protecção necessárias? E já sabemos que é hora de levar a sério, preparar as coisas, juntar o que tem de ser junto, e esperar a tormenta passar?
Quando é que se faz uma revisão dos códigos do trabalho para que as pessoas possam não ir trabalhar na iminência de um desastre climático? Claro, isto para os trabalhos bullshit, porque quem é bombeiro, médico, enfermeiro, não deixa de trabalhar, estes são os trabalhos que não são bullshit. Estou a falar das pessoas presas ao escritório a preencher o Excel. Os desgraçados dos motoristas das multinacionais. Os estafetas. Os lojistas de shopping. Como assim a ministra do trabalho de Espanha tem de apelar ao bom senso para que os patrões não obriguem motoristas de camião a sair para entregas com cheias? Está na hora de os patrões perceberem que, por um ou dois dias, não vão ter lá os escrav… os empregados. E não vão à falência por isso.
Ainda neste seguimento… Depois de uma catástrofe como a de Espanha, com uma cidade completamente destruída, é precisa mão-de-obra para ajudar a retomar a ordem. Solo el pueblo salva al pueblo, lembram-se? Houve pessoas de Madrid a meter dias de férias para irem para a região ajudar, levaram comida, voluntariaram-se para estarem a cozinhar e a distribuir refeições. Estamos preparados, enquanto sociedade, para ter de fazer isto? E não estou a dizer usar dias de férias. Estou a dizer, precisamente, dispensar pessoas dos seus bullshit jobs para irem, de facto, prestar um serviço civil de apoio após-catástrofe.
Há uns tempos discutia-se um possível regresso do Serviço Militar Obrigatório. Na cabeça de muita gente, faz falta ir à tropa. Eu não acho. Não faz falta nenhuma ir à tropa porque eu não tenho de estar a levar com pessoas a gritarem-me ordens porque têm um pingarelho preso no casaco que eu não tenho. Não lido bem com estruturas de poder verticais. O que eu acho que faz falta, e muita, é um Serviço de Protecção Civil Obrigatório. O mundo mudou. Temos de aprender primeiros-socorros, suporte básico de vida, como é que nos podemos mover na cidade conforme a catástrofe, o que fazer no pós para remediar as coisas e retomar a normalidade.
Fico-me por aqui. Deixo de fora os temas Musk, também interessante dentro do fenómeno Trump; o que se está a passar em Afeganistão com as mulheres; e a situação de gaslight colectivo que os nossos governos nos estão a impingir com os desacatos da claque israelita, em Amesterdão. Isto só dá para umas desgraças de cada vez. Força e coragem.
Solo el pueblo salva al pueblo ✊




Realmente um Serviço Obrigatório de Proteção Civil faz todo o sentido, Rafa a PM!
De facto emocinou-me ver o povo a ajudar-se entre si em Valência.
Mas sinto mesmo que é uma questão de tempo até calhar a nós cá em Portugal.
P.S.: Se calhar já tens post sobre mas gostava de ler algo escrito por ti sobre o movimento 4B.