Estado da Arte
Ler Patti Smith e questionar se ainda dá para qualquer um se tornar artista.
Numa das minhas idas à Feira do Livro, aproveitei que o Just Kids, da Patti Smith, estava em promoção de livro do dia e trouxe-o. Já o tinha debaixo de olho por recomendação da Sofia e, também, pode ser muito falado por essa Internet fora. Costuma ser um livro mencionado como bom de se ler durante aquela crise dos 20s.
Ainda não o acabei mas já vou no último terço. Just Kids traz-nos as memórias da Patti Smith, com especial foco na relação que construiu com Robert Mapplethorpe, contando-nos como foi ter ido viver para Nova Iorque para seguir o sonho de ser artista. De facto, é um livro muito bonito e interessante de se ler. A escrita da Patti Smith é despretensiosa, directa, conta-nos a sua história com muito ritmo, deixando muita coisa à imaginação do leitor.
No entanto, este não é um texto com a review do livro. (Costumo escrever quase sempre reviews dos livros que leio no Goodreads.) Este é um texto sobre algo que eu tenho andado a pensar já há algum tempo e que se cruzou com a leitura das memórias da Patti. À primeira vista pode não fazer sentido, mas tentem acompanhar o meu raciocínio: eu sinto que, antigamente, era mais fácil uma pessoa poder dedicar-se a ser artista e conseguir um lugar no espaço público de forma orgânica.
Claro, não sejamos extremistas. A maior parte dos seres humanos vive em pleno anonimato e a minha percepção pode estar enviesada por uns poucos exemplos, só que havia algo de diferente há umas décadas, não me lixem. No seu livro, a Patti Smith, praticamente uma high school dropout, conta-nos como estava cansada de viver na sua cidade-natal, a trabalhar numa fábrica. Tinha em si o instinto de querer ser artista. E é assim que ela decide, com 32$ no bolso - que ela encontrou na cabine telefónica na estação rodoviária - apanhar um autocarro com destino a Nova Iorque. Tinha 20 anos. Imaginem terem 20 anos e partirem para Nova Iorque, com 32$, para serem artistas. E resultar!
Não querendo estar aqui a contar a história toda, ela chega e a vida não é maravilhosa. Passa uns meses sem-abrigo, consegue encontrar um trabalho como lojista, reencontra o Robert - outro rapaz que também queria ser artista - e lá se unem para viverem juntos e se apoiarem na jornada. Vivem em casas de amigos, em quartos alugados, no hotel Chelsea, num estúdio sem WC. A caminhada não foi fácil, mas acabaram por fazê-la.
A percepção com que fico, com histórias destas, é que a bolha boémia dos artistas não era aberta a toda a gente, mas quem fosse freak e resiliente (e talentoso) o suficiente, veria o reconhecimento a chegar. Nesse hotel dava-se um encontro de várias pessoas das artes, o name dropping neste livro é insano. De alguma forma, foi possível para a Patti Smith, chegada ali há um ano, estar num quarto com a Janis Joplin a mostrar-lhe uma canção que ela tinha escrito para a Janis cantar. Nem consigo ter uma comparação actual para tentar entender o absurdo - no bom sentido - de uma situação assim. Uma jovem poeta anónima cruzar-se com a Chappell Roan, talvez? Sinto que, aos dias de hoje, era impossível.
A Patti Smith, com poucos estudos e sem curso nenhum de faculdade alguma, estava a escrever artigos para a Rolling Stone. Eram outros tempos, a impressa escrita estava ao rubro e talvez desse para apostar numa miúda que, não tendo formação académica, tinha talento para a escrita e um conhecimento intuitivo sobre música. Que revista poderia fazer isto hoje em dia? Que revista ou jornal convidaria uma pessoa anónima para escrever?
Não sou uma sentimentalista do passado. Não acho que nasci na “época errada”. Adoro esta época. Adoro ter acesso a anestesias, raios-X e técnicas avançadas de saúde oral (desculpem, ando a passar uns stresses dentários). Mas não deixo de sentir uma nostalgia quando percebo que os meios culturais ficaram fechados, muito devido à concentração megalómana desses meios em meia dúzia de canais.
Recordo a história do Nuno Markl, por exemplo, que começou quase por brincadeira a estagiar, no final da adolescência, na Rádio Voz de Benfica. Uma das muitas rádios piratas que apareceram na década de 80, em Portugal. Como é que, em 2024, um rapaz de 19 anos pode descobrir uma rádio pirata para ir experimentar, mostrar o seu gosto musical, crescer no meio e acabar a tornar-se uma figura incontornável da comunicação social do seu país? É impossível.
Ainda nos anos 70-80, a música rock portuguesa viveu o seu auge, com um boom que nos trouxe bandas míticas que duram até aos dias de hoje. Vê-se isso na série Os Filhos do Rock, da RTP. Os Xutos&Pontapés começaram assim, como uma mera banda de garagem que, de concerto amador em concerto amador, entre espaços míticos como o Rock Rendez-Vous, chegou à fama nacional. Que banda começa, hoje em dia, desta forma? Que acabe por conseguir uma carreira consagrada com mais de 30 anos?
Acabaram as rádios piratas. Acabaram as revistas experimentais. Acabaram os espaços da cultura emergente. Acabaram os concertos amadores. Acabaram as soirées onde era possível conhecer outros artistas, agentes, donos de galerias, críticos de arte, gente disposta a apostar em quem vem do nada.
Sinto que estamos num mundo nepotista. Salvo algumas excepções, os lugares já estão reservados para quem lá está, ou para quem nasceu na família certa. Há pouca esperança para os anónimos talentosos. As filas intermináveis para o casting dos novos Morangos com Açúcar nada mais foram do que uma ferramenta de Marketing. Pobres miúdos que passaram horas a fio à espera de se apresentar, quando os protagonistas já estavam todos escolhidos das respectivas agências de modelos.
Podemos argumentar que, com a Internet, se deu uma democratização no acesso ao reconhecimento artístico. E, de facto, deu-se. Logo assim à cabeça, os blogs foram uma grande alavanca para quem foi talentoso (e esperto) o suficiente para navegar a onda. A Ana Garcia Martins começou o seu A Pipoca Mais Doce porque estava a fazer um workshop de escrita de humor e precisava de um espaço para escrever os TPC. E para escrever sobre o que lhe apetecesse, já que como jornalista estava limitada. Cresceu de forma orgânica, numa altura em que as redes sociais eram uma miragem e a palavra influencer não existia. Passado estes anos todos, já publicou livros, teve negócios vários, fez um solo de standup, fez dobragens para animação, foi comentadora de reality-shows e tem uma rubrica na rádio.
Na música, o YouTube veio ajudar a mostrar ao mundo pessoas talentosas que tocavam e cantavam nos seus quartos. Lembram-se da Ana Free? Começou por ficar viral no YouTube, com os seus covers de guitarra acústica, e daí foi transportada para o estrelato, ainda que cingido àquela época.
Será que hoje em dia é possível? Com a saturação de conteúdos em que vivemos? Com a ditadura do algoritmo? Com tanta gente a fazer tanta coisa, muitas vezes parecida com o que já existe, a tentarem chegar à fama pelo caminho que outros trilharam?
O meio do humor fascina-me. Acompanho vários humoristas há vários anos. Uns são melhores, outros são piores. O mais fascinante para mim é que, mesmo sendo mediano, estando no lugar certo à hora certa, investindo tempo (e dinheiro) e tendo resiliência, dá para chegar a algum lado. A maior parte do público não é assim tão exigente, e piadolas de meia tigela conseguem arrancar gargalhadas e aplausos com relativa facilidade. Talvez o humor seja o último baluarte onde é possível entrar sem nepotismo ou puxões de cordelinhos aqui e ali. Até porque no standup há, precisamente, a cultura do amadorismo, com as noites de open mic, e nunca se sabe quem poderá estar a ver. Por contraste, quem é que se predispõe agora a ir ver concertos de bandas de garagem que ninguém conhece de lado nenhum?
Não sei, se calhar sou apenas uma romântica incurável, mas gostava que os talentos para a música surgissem desta forma orgânica. Porque alguém da indústria foi à caça de gente nova em concertos amadores e não porque se virou cadeiras num talent show de serão de domingo. Gostava de ter pessoas diferentes a comentar na televisão e não apenas Os Únicos Quatro Jovens Políticos Portugueses (esta é para quem me lê vindo da bolha twitteira). Gostava de conhecer novos actores talentosos em vez das carinhas larocas já agenciadas. Gostava que o número de seguidores das redes sociais não ditasse o futuro artístico de quem é realmente talentoso. Gostava que as editoras apostassem em autores que não são bisnetos do Eça de Queiroz. Gostava que voltássemos a ler revistas e a ter espaços culturais para conviver.
Dizem que o Just Kids é um bom livro para se ler na fase perdido-na-vida característica da década dos vinte anos. Não concordo. A Patti Smith não estava perdida. A Patti Smith viveu no período mágico que foram os anos 60/70, nos Estados Unidos, para os artistas loucos que tiveram coragem para arriscar. Ela sabia o que queria e trabalhou com afinco e compromisso na sua Arte. Porque, na altura, o mundo era outro. Os trabalhecos para ganhar trocos eram comuns, as rendas eram uma pechincha e Nova Iorque era o lugar dos boémios do pé-descalço.
Recordo como estive (estou?) perdida na vida na década dos 20 e sinto que, ler este livro, iria alimentar esperanças de conseguir algo que, aos dias de hoje, é muuuuuito complicado e talvez eu nem quisesse assim tanto. Ou iria deprimir-me e deixar-me com FOMO de um contexto sócio-cultural que eu não pude viver. Enfim. Talvez, para os perdidos da vida, seja mesmo melhor continuar a espreitar as séries experimentais da RTP Play*. Assim como assim, o nosso canal público ainda faz o brilharete de apostar em projectos de jovens talentos nacionais. Haja esperança!
Concordas ou será isto um grande disparate?
*Assim de cabeça, podem espreitar a Frágil, a 5Starz, a Casa do Cais e a Emília (que menciono mas ainda não vi - talvez tenha cehgado a hora de colmatar essa falha).



É verdade que acabaram as rádios piratas, as revistas experimentais, os espaços de cultura emergente, os concertos amadores e as soirées. (Ainda há concertos amadores, claro.) A verdade é que o mundo mudou — e hoje parece ser mais difícil alcançar o sucesso no meio artístico —, mas não consigo deixar de ver na internet uma facilidade que, no passado, as pessoas não tiveram.
Acho que é à conta da internet que mais pessoas (de todas as áreas de criação) têm sucesso, mesmo que fiquemos com a ideia de que ela dissemina injustiças e dificuldades, porque é controlada por algoritmos perversos. (Ela dissemina injustiças e dificuldades, mas também oferece tantas possibilidades.)
Não há rádios piratas, mas há YouTube. E há os que se safam e os que, pelo menos até ao momento, ainda não se livraram do anonimato. Não há revistas experimentais, mas, hey, há isto! O Substack e outros tantos.
Como estamos inseridos no nosso tempo, é complicado compreender o nosso tempo, mas vale a pena tentar. Gosto de pensar que a Patti Smith passou pelo mesmo. E sinto que os novos Xutos & Pontapés e os Nuno's Markl andam por aí à espera da sua vez — aguardam num mundo necessariamente mais digital, mas igualmente imprevisível.
De qualquer das formas, é sempre bom ler peças do género, sobretudo aqui! Fazem falta mais páginas de autores portugueses. (Também eu tenho pena de, ao dia de hoje, a febre dos blogues dos 2000 ter desaparecido. Acho que o Substack podia originar uma boa febre de ideias e partilha. Somos todos suckers por qualquer coisam, não é verdade?)
Concordo muito com esta parte "Acabaram os espaços da cultura emergente. Acabaram os concertos amadores. Acabaram as soirées onde era possível conhecer outros artistas, agentes, donos de galerias, críticos de arte, gente disposta a apostar em quem vem do nada" e ainda no outro dia comentava isto com alguns amigos meus mais velhos que eram adolescentes nos anos 90 (eu era uma criança), porque eles lembram-se de existirem esses espaços no bairro alto, etc (que hoje desapareceram ou perderam a essencia). E ainda que aos dias de hoje exista uma tentativa de (re)criação desses espaços culturais (estive no outro dia no novo Largo residências) o que sinto é que tens de pertencer a certos grupos e apresentar-te de certa forma, para seres e te sentires bem recebido (nota: senti-me um peixe fora de água) . Acho tambem que há aqui um fenómeno relacionado com o aparecimento da internet, redes sociais, telemoveis, etc. Os movimentos que falas nos anos 60, 70, 80 eram orgânicos e estas novas formas de comunicar e interagir com outras pessoas tornaram tudo muito mais mecanico e pouco natural. Antes sabias que se saissses de casa entre as 19h e as 20h ias encontrar os teus amigos no muro, na praceta, na rua, no café do bairro, you name it. Ias sem planos ao sitio tal, porque à sexta sabias que havia musica ao vivo (hoje tens mil eventos disponiveis em todas as plataformas e redes sociais). Procuravas um sitio onde estivessem pessoas como tu e a rotina tornava os desconhecidos em conhecidos e em amigos. Eu hoje em dia, se quiser encontrar pessoas com os mesmos gostos que eu vou onde? Perdeu-se o conceito de tribo e de comunidade.