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Avatar de João Salazar Braga

É verdade que acabaram as rádios piratas, as revistas experimentais, os espaços de cultura emergente, os concertos amadores e as soirées. (Ainda há concertos amadores, claro.) A verdade é que o mundo mudou — e hoje parece ser mais difícil alcançar o sucesso no meio artístico —, mas não consigo deixar de ver na internet uma facilidade que, no passado, as pessoas não tiveram.

Acho que é à conta da internet que mais pessoas (de todas as áreas de criação) têm sucesso, mesmo que fiquemos com a ideia de que ela dissemina injustiças e dificuldades, porque é controlada por algoritmos perversos. (Ela dissemina injustiças e dificuldades, mas também oferece tantas possibilidades.)

Não há rádios piratas, mas há YouTube. E há os que se safam e os que, pelo menos até ao momento, ainda não se livraram do anonimato. Não há revistas experimentais, mas, hey, há isto! O Substack e outros tantos.

Como estamos inseridos no nosso tempo, é complicado compreender o nosso tempo, mas vale a pena tentar. Gosto de pensar que a Patti Smith passou pelo mesmo. E sinto que os novos Xutos & Pontapés e os Nuno's Markl andam por aí à espera da sua vez — aguardam num mundo necessariamente mais digital, mas igualmente imprevisível.

De qualquer das formas, é sempre bom ler peças do género, sobretudo aqui! Fazem falta mais páginas de autores portugueses. (Também eu tenho pena de, ao dia de hoje, a febre dos blogues dos 2000 ter desaparecido. Acho que o Substack podia originar uma boa febre de ideias e partilha. Somos todos suckers por qualquer coisam, não é verdade?)

Avatar de Rafaela

Concordo com tudo o que disseste! Embora comece a sentir que a Internet está complicada, o algoritmo realmente é tramado. Ainda assim, cá estamos a tentar :)

Também sinto muitas saudades dessa era dos blogs, nunca saí realmente, fui sempre tendo um bloguinho moribundo, até que dei o salto para o substack e tenho gostado muito. Leio coisas muito interessantes por aqui e de pessoas "anónimas", portanto, tal como terminei no texto, há esperança!

Avatar de Inês

Concordo muito com esta parte "Acabaram os espaços da cultura emergente. Acabaram os concertos amadores. Acabaram as soirées onde era possível conhecer outros artistas, agentes, donos de galerias, críticos de arte, gente disposta a apostar em quem vem do nada" e ainda no outro dia comentava isto com alguns amigos meus mais velhos que eram adolescentes nos anos 90 (eu era uma criança), porque eles lembram-se de existirem esses espaços no bairro alto, etc (que hoje desapareceram ou perderam a essencia). E ainda que aos dias de hoje exista uma tentativa de (re)criação desses espaços culturais (estive no outro dia no novo Largo residências) o que sinto é que tens de pertencer a certos grupos e apresentar-te de certa forma, para seres e te sentires bem recebido (nota: senti-me um peixe fora de água) . Acho tambem que há aqui um fenómeno relacionado com o aparecimento da internet, redes sociais, telemoveis, etc. Os movimentos que falas nos anos 60, 70, 80 eram orgânicos e estas novas formas de comunicar e interagir com outras pessoas tornaram tudo muito mais mecanico e pouco natural. Antes sabias que se saissses de casa entre as 19h e as 20h ias encontrar os teus amigos no muro, na praceta, na rua, no café do bairro, you name it. Ias sem planos ao sitio tal, porque à sexta sabias que havia musica ao vivo (hoje tens mil eventos disponiveis em todas as plataformas e redes sociais). Procuravas um sitio onde estivessem pessoas como tu e a rotina tornava os desconhecidos em conhecidos e em amigos. Eu hoje em dia, se quiser encontrar pessoas com os mesmos gostos que eu vou onde? Perdeu-se o conceito de tribo e de comunidade.

Avatar de Rafaela

Completamente, concordo contigo! Noutra dinâmica, eu cresci no meio associativo e os meus pais e respectivos amigos da família vinham todos da colectividade. Era onde a população ia para se encontrar, ver teatro amador, participar na banda filarmónica, ter cinema, etc. Mas ali por altura dos anos 2000, a GenX começou a comprar casa e formar família fora desse centro urbano e deixou de se conviver na colectividade. Tenho mesmo muita pena que se tenha perdido estes espaços embora, admito, que não sou muito de sair, pelo que posso estar a falar sem conhecer grande coisa.