just give up
Às vezes é melhor admitir a derrota do que continuar na luta.
Está a acontecer-me um fenómeno curioso que é eu perceber que, em muita coisa da minha vida, tenho presente que considero ser de determinada maneira, mas depois, analisando as minhas acções, ter de aceitar a dura verdade de que, afinal, sou de outra. Confuso? Basicamente, em muitas coisas, eu acho que sou assim e assado mas depois acabo por perceber que sou o oposto, muitas vezes até o oposto que eu menosprezava.
Nos últimos tempos, apercebi-me disto em relação à minha dificuldade em simplesmente desistir das coisas quando estas deixam de me agradar. Logo eu, que tinha em mim a noção de ser uma pessoa muito mutável, que facilmente abre caminho para coisas novas. Lol.
No entanto, para contrariar isso, tenho-me permitido desistir de mais coisas. Este ano, após mais de mil dias de sequência, simplesmente desisti do Duolingo. Já eram mais os dias em que fazia o exercício por obrigação do que por gozo, além de já ter chegado ao final do curso e só estar nos desafios de manutenção. Para quê continuar? Deixei o Duolingo e o resultado? Senti alívio.
Percebi, meses antes de ter comunicado a minha decisão, que queria deixar o Yoga. Por algum motivo, já não me sentia motivada a ir e precisei de encerrar esse capítulo. Isso trouxe-me alívio. Agora, com o passe do ginásio, tinha começado a ir à aula de Pilates, e não é que descobri que detesto Pilates? Ainda assim, passei semanas a continuar a marcar a aula e a ir… sem retirar nenhum prazer do exercício e até a deixar-me magoada pois, sem interesse, nem mantinha a postura correcta nos movimentos. Ironicamente, fazer Pilates deu-me dores e maus jeitos nas costas. Pronto, não vou mais ao Pilates, que se lixe. Que. Alívio.
Isto tudo é mais fácil com decisões de cacaracá mas vejo-me chegada a Dezembro, fechada para balanço, no meu merry little Christmas, e a ter de aceitar mais uma desistência. Uma que eu me fartei de batalhar internamente para contrariar. Lutei com todas as minhas forças para tomar a decisão oposta mas tornou-se insustentável. Por enquanto, pelo menos, desisti da minha grande ideia, do meu grandioso plano de voltar a estudar.
Receber o e-mail com a nega deixou-me de rastos. Mais uma vez, toda a minha expectativa e a fantasia que idealizei caiu por terra e vi-me sem nada. No entanto, em vez de isso me dar força para tentar de novo, apenas me deixou a pensar que, se calhar, não valerá assim tanto a pena...? Dias depois do e-mail, chegou-me a casa um livro que tinha encomendado sobre o tema quando ainda estava em pulgas com a nova fase que eu iria construir. Está, até hoje, na minha estante, ainda com o invólucro de plástico. Depois, passado o mês de Setembro, passado Outubro, obriguei-me a comprar o manual de apoio do exame de MACS para começar a estudar. E eu tenho força anímica para, depois de um dia de trabalho, chegar a casa e ainda estudar MACS para preparar uma ida a exame, para ter uma segunda hipótese de tentar entrar numa licenciatura, caso leve uma SEGUNDA nega no concurso especial? Eh pá… Não, não tenho. Não vou estudar MACS. Nem Português.
Ainda dei por mim a pensar, se calhar é porque não agarrei logo nisto a partir de Setembro… Se calhar vou-me focar nessa ideia em Janeiro… Mas a quem é que eu estou a enganar? Fiquei completamente destroçada e não tenho motivação alguma para empreender nesse caminho. Além de que ainda tenho tudo o resto: cinco anos de curso (ok, time will pass anyway) para acabar numa profissão também ela precária. Agarrada, mais uma vez, a falsas promessas. Talvez faça investigação. Talvez dê aulas. Talvez isto corra bem. Ok, mas e se correr mal? E se eu fantasio com isto como um escape, uma fuga, como faço sempre com tanta coisa na minha vida? Se perdi completamente a chama e o interesse, para quê culpar-me tanto e querer tanto dar a volta em vez de aceitar a realidade?
Esta decisão de desistir foi apoiada e ajudada com uma reviravolta no meu trabalho actual. A colega nova, plot twist, saiu e ficou um cargo por preencher. E eu pensei, rendida às evidências, caramba… e se eu me chegar à frente e tentar esta coisa nova? E se propuser tirar a certificação para poder trabalhar com crédito hipotecário? Assim fiz e assim estou. Não considero tanto uma promoção ascendente, encaro mais como uma promoção horizontal. Porém, trouxe-me algo de novo. Estou genuinamente interessada na formação que vou tirar, nem que seja por ser mais uma valência que ganho. Estou a encarar as coisas com curiosidade e de mente aberta. Em terapia, surgiu a ideia de que, não tendo nada em vista para o meu futuro, este é uma tela em branco e que isso pode ser bom, porque é uma oportunidade de o pintar de forma criativa. E se isto parece um cliché básico, algo deve ter resultado porque fiquei a pensar nisto. Foi algo que me ajudou a chegar aqui.
À semelhança do que também me acontece quando insisto e não desisto de romances não-correspondidos, estava a ser insustentável eu continuar a partir o meu próprio coração ao saber que não quero pensar em toda a logística de voltar a estudar, mas todos os dias sujeitar-me ao meu próprio julgamento: devias estar entusiasmada, afinal queres ou não queres, devias procurar a calculadora, como é que vais a exame se ainda não começaste a estudar, olha que tens de procurar um explicador, devias reler Os Maias…
Não consigo mais lidar com isso, não consigo. Que se lixe. Eu não sei se esta história acaba aqui. Se eventualmente volto a querer ir ou se não. Só sei que, neste momento, era-me mais doloroso continuar neste limbo do que simplesmente carregar no botão da pausa. Então, carreguei. No final do dia, estou aliviada.
em jeito de despedida…
Não consegui encaixar isto no texto, mas não queria deixar de mencionar. Para quem não está a par dos trânsitos astrológicos, estamos neste momento com um Marte Retrógrado em Leão - curiosamente, é o meu exacto posicionamento de Marte natal. Marte é, ainda hoje, um planeta que me é difícil de interpretar. O meu, então, mais difícil ainda, pois vem com retrogradação. Não consigo perceber NADA do que é suposto isto significar nem de que formas se manifesta na minha vida. Porém, como dizia, agora assim está no céu. E cruzei-me com esta dica:
Uma coisa é básica e evidente, e ensinada como elementar em qualquer curso de Astrologia: com Marte retrógrado não se deve comprar guerras! Talvez também seja um indicador de que é o momento ideal para admitir as nossas derrotas, e saber quando desistir.





adorei, rafa. e também adoro desistir. alívio!!! sucesso no seu caminho.
Sinto o mesmo em relação ao Duolingo, no início ainda gostava de fazer lições para aprender algo mas hoje já só abro e faço uma lição para não perder o streak xD