Now what?!
As coisas não correram como planeado, mais uma vez.
If karma's really real
How am I still here?
Just seems so unfair
I could be wrong though
If there's a point to being good
Then where's my reward?
The good die young and poor
I gave it all I could
SZA - “Saturn”
A minha grande decisão, que já anda a pairar na minha mente há muito tempo e que decidi tomar este ano, era candidatar-me novamente ao Ensino Superior, ir estudar outra coisa completamente diferente, e tentar que isso fosse uma boa mudança na minha vida. Candidatei-me em Abril, através do concurso para titulares de outros cursos superiores, e recebi os resultados na segunda-feira.
Não fui colocada.
Não consegui, não deu. As vagas são poucas e houve muita gente com melhores médias de final de curso do que eu a concorrer. Ainda posso ter a sorte de haver desistentes, mas já não conto com isso. Este ano, pelo menos, não deu.
Fiquei sem chão, não vou mentir. Eu tinha decidido isto em Outubro do ano passado e, desde aí, convenci-me de que a minha vida ia passar por ser trabalhadora-estudante já a partir de Setembro. Andei a ensaiar conversas mentais com todas as pessoas que seriam afectadas com esta decisão. Falei com colegas, falei com o meu chefe (!!!), estava tudo a correr bem. Planeei como é que me ia gerir com os estudos, estudei rotas de transportes, estava a preparar-me para o que ia ser exigido de mim. Andava mentalmente a despedir-me do Yoga, pois já não iria voltar em Setembro. Enfim, you get the point.
Estranhamente, não me preparei para o cenário de não entrar. Eu pensei nisso, claro, mas estava mesmo tão convencida de que ia resultar para mim, que nem conjurei essa hipótese. E cá estamos, é com essa hipótese que estou a lidar. E é uma valente merda.
Estou cansada. Estou triste, desiludida e francamente farta de tudo. Chorei baba e ranho e senti-me de coração partido. Isto doeu-me MUITO, não estava mesmo nada à espera. Depois de toda a merda que já passei, achava que estava a tomar uma decisão madura em prol de mim, e nem essa benesse eu consegui. Afinal, os 20s são maus de uma ponta à outra e a minha reviravolta não vai começar nos 29.
Eu sei que isto não é o fim do mundo nem o fim da minha decisão. Para o ano vou tentar novamente, e vou precavida. Estou seriamente a ponderar ir repetir exames nacionais para poder concorrer através do concurso geral, e não ficar dependente de mera meia dúzia de vagas no concurso especial. Estou irritada. A última vez que me irritei com uma injustiça bacoca destas foi no meu exame de código, quando chumbei com quatro perguntas erradas e depois repeti o exame para passar com zero.
Mas pensar em toda essa empreitada, neste momento, derrota-me. O Retorno de Saturno não está a ser fácil, definitivamente. Caramba, eu candidatei-me no dia em que estava a ter o meu exacto Retorno de Saturno, a achar que seria um alinhamento cósmico perfeito. E cá estou! A recompensa foi esta! Queres? Não tens. Sofre!
Estou cansada de sofrer. Quando é que isto passa? Quando é que acontece algo de bom? Quando é que posso tomar uma decisão e vê-la a desenrolar-se? De todo o lado ouço para me focar no que posso controlar. Eu controlei tomar esta decisão, controlei candidatar-me, e queria controlar a nova situação em que me ia meter. Mas não deu, porque nem isto esteve verdadeiramente no meu controlo e eu sinto-me só à deriva, ao sabor dos acasos por onde a vida me tem levado, com poucas vitórias para o tamanho de derrotas.
Sinto-me desterrada e que nada mais importa. Não consigo trazer uma referência visual, mas sinto que estou no meio do vazio, caída e já indiferente ao que me possa magoar mais. O que vem aí? Mais uma merda negativa para lidar? Siga. Magoem-me só.
Enfim.
Depois do choque, do choro, do dramatismo, de sentir que nada corre bem, de me aperceber da intrusão de pensamentos negros um tanto assustadores, de só pensar na vontade de fumar um cigarro, tenho de seguir em frente.
Não quero e não vou desistir tão facilmente, vou voltar a tentar. O plano de acção será algo para pensar daqui por uns tempos, quando tiver realmente a confirmação de que não ocorreu nenhum milagre que me pusesse colocar ainda este ano. Se não conseguir para o ano, o que faço? Atiro-me da p-? Não sei. Vou vendo, sei lá eu. Chateia-me perder mais este ano, mas quero acreditar que não é por mais um ano que isto não dá certo. No grande esquema das coisas, daqui a 10, 20 anos, o que interessará se tive de esperar mais um aninho?
Será essa a moral disto tudo? Será que é tudo um plano de uma força maior para me obrigar a estudar biologia e geologia do secundário, para ter bases para a cadeira de Biologia e Neurociências do curso?
Ironicamente, não é a primeira vez que “perco” a oportunidade de entrar. Há dois anos aconteceu-me o mesmo, na altura por outras razões, não me tendo chegado a candidatar. E, para me sentir melhor com a situação, escrevi uma lista de coisas que iria conseguir fazer nos entretantos devido ao adiamento da situação.
Desta vez, tenho um adiamento mais forçado e custoso, mas continuo a ter uma janela de tempo para resolver outras questões pendentes. O primeiro factor imediato é que vou poder subscrever mais uns Certificados de Aforro, o que é sempre positivo e bem-vindo, já que adiei o gasto de uma pequena fortuna em propinas.
Depois, e sem mais desculpas para continuar a adiar, vou-me informar sobre horários e preços para fazer terapia. Ando a arrastar isto há demasiado tempo e tinha como responsabilidade minha começar este ano.
Sair do Yoga é algo que tem andado a marinar na minha mente e “não poder” voltar em Setembro era a minha saída fácil. Ok, não vou ter essa desculpa, mas isso não significa que precise de continuar uma actividade que, embora eu tenha adorado praticar, me apetece encerrar por agora. Então, já que não consegui o que eu realmente queria, vou aproveitar para fazer algo que também há muito que tenho curiosidade de experimentar: dança do ventre. Pá, preciso de algo divertido na minha vida.
E pronto, aqui estamos. Seguindo em frente na medida do possível. De forma macabra, conforta-me saber que a maior parte das pessoas da minha idade também está na sua merda. Não digo isto numa óptica de “ah! Se eu não posso ter algo bom, então tu também não podes!”, mas sim como um conforto de saber que não estou sozinha.
Saturno representa, entre muitas coisas, o tempo e a sua passagem, o envelhecer. Talvez este Retorno venha comprovar o que ando a sentir que se passa connosco, millennials, derivado a todas as crises e mudanças sócio-económicas que vivemos. Sinto que a nossa geração está a ter uma nova vivência da idade. De repente, estamos com 30 anos e loooooonge de todos os indicadores materiais que, no passado, representavam a adultez: casar, ter uma casa, carro, um trabalho estável, filhos… E sentimo-nos a colapsar. Mas, ao mesmo tempo, estamos a ser uma geração que está a descobrir (de forma mais ou menos forçada) que a vida não acaba nem tem de estar decidida aos 30. Há espaço para mais.
Vejo isso com amigos mais velhos, com pessoas aleatórias da internet e com outras que acompanho e gosto de seguir. Já todas a chegar ou para lá dos 30, algumas já bem perto dos 40, outras até que já vão em 41, 42… Pessoas que descobriram novos interesses, que estão a estudar de novo, que mudaram de profissão, que encontram o amor, começam novos hobbies, continuam a viver. E todas têm em comum o facto de eu olhar para elas e nunca, mas nunca em momento algum, pensar “epa… esta pessoa já está velha para fazer isto”. Então porque é que o faço comigo? Será também essa mais uma lição do Senhor do Tempo? Veremos.
Um abraço e até para a semana,
Rafaela




