O primeiro já foi
Dramas pessoais de Janeiro e a tragédia nacional pós-Kristin.

O primeiro dia do ano estendeu-se com preguiça e algum cansaço. Saí da casa dos meus amigos de tarde e atravessei o rio ao pôr-do-sol, debaixo do céu nublado e escuro. Mal sabia eu que era o pronuncio meteorológico do que vinha para durar e durar e durar e durar. Tenho a tradição de réveillon de fotografar o último pôr-do-sol do ano e o primeiro, vistos do Cacilheiro, já que tenho ido à outra margem passar os anos. Desta vez, não apanhei um céu bonito mas quis assinalar na mesma, com umas palavras sobre o que tem sido a vida até agora, e um desejo para que algo mude.
O mês foi lento, como de costume. Na primeira semana, de regresso ao trabalho, tive a benesse de ter uma manhã livre, para a minha consulta de Orientação de Carreira. No dia seguinte, fui ao dentista para começar a desvitalização de um dente. Em termos de peripécias de saúde, foi um mês interessante. Na semana seguinte, cortei-me na mão ao vincar as dobras da pasta de cartão. Passados dois dias, stressei-me de manhã com uns problemas burocráticos que eu, ciente desses exactos problemas, resolvi ignorar até à última, tentando “ensinar uma lição” aos outros, mas que só teria como consequência prejudicar-me a mim. Porque é que faço isto? Se eu sei que falta algo, porque não falo mais cedo? Não aviso? Auto-sabotagem? Vontade de ver tudo a arder? Não sei. Só sei que o que me ardeu nessa tarde foi o meu xixi. Cheguei a casa e fui de urgência ao hospital privado com o meu pai. Entre consulta, análise e receitas, confirmou-se uma infecção urinária de 80€. Na semana seguinte, levei com uma boca passivo-agressiva sobre como “temos” de estar mais “atentos”, e fervi tanto por dentro que me deu tonturas, um sintoma que já conheço desde os tempos da faculdade e sei que é uma consequência de picos de stress. Enquanto isto tudo acontece, torna-se impossível ignorar o reaparecimento do líquen plano nas minhas axilas, que eu ando desde o final de 2025 a fingir que não está de volta.
Eu sou uma pessoa muito mental e vivo muito dentro da minha cabeça, tendo até alguma desconexão com o meu próprio corpo. No entanto, sou capaz de ignorar tantos alertas e de continuar a vida no automático, achando sempre que até estou bem, que acaba por ser a pobre coitada da minha carapaça a manifestar que não, não estamos assim tão bem.
Tudo em mim grita por uma necessidade de mudar de trabalho. Porém, já não estou no princípio dos 20s e a impulsividade de outrora foi substituída pelo overthinking, o medo e o receio de tomar a decisão errada, tendo como consequência atrasar ainda mais a minha vida. Mas que vida tenho agora? Para onde estou a ir? Mais vale arriscar algo de uma vez por todas, ao menos faço alguma coisa, vivo alguma coisa nova, não?
Estou a construir um caminho novo, já comecei uma formação nesse sentido. Porém, o caminho é lento, o que não combina com a urgência que sinto no corpo e no espírito. Temos de ter calma. Decidi que queria arriscar já este ano num certo mestrado e empolguei-me com essa hipótese, só para ruir a motivação quando vi que não cumpria os requisitos de entrada. Parece que vamos mesmo de ter calma.
Passei um fim-de-semana mergulhada em desespero existencial e o mais ridículo é que eu própria sei o que gostaria de fazer. Nem tenho medo de o fazer, a ideia agrada-me. Caramba, a ideia deixa-me feliz. Mas pergunto-me se é idiota da minha parte, na pior das hipóteses, pausar a minha vida três anos para este capricho. Será que encontro um trabalho para conjugar com esta ideia? Ou vou só viver das minhas poupanças? Como é que faço para depois conseguir pagar o passe e o telemóvel e a psicóloga e um jantar fora com amigos porque também sou filha de deus?
Todas estas questões dramáticas e ainda estávamos a uma semana do final do mês. Mais uma consulta, mais um consolo que a minha terapeuta consegue sempre arranjar. Afinal, o meu mini-breakdown de fim-de-semana foi saudável, pois foi uma resposta expectável face às circunstâncias. Felizmente para mim, isto deu-me tudo em Janeiro, portanto tenho mesmo tempo para ir reflectindo nas decisões que realmente quero tomar.
É muito difícil termos de continuar a ir trabalhar num sítio de onde já nos despedimos mentalmente. No entanto, cabe-me ter alguma cabeça fria neste momento. Tenho perante mim um plano faseado para seguir, é só continuar o caminho. Não estou parada, não estou presa nem estou condenada.
Chegada à última semana do mês, o Trubin faz aquele milagre e dá aos Benfiquistas uma injecção cavalar de alegria e de esperança. Confesso que estava a precisar desta vitória moral. Não é primeira vez que o futebol me consegue consolar quando algo está tremido na minha vida pessoal, e certamente não será a última.
Infelizmente, finda a euforia futebolística, o país inteirou-se do rasto de destruição que ficou depois da tempestade Kristin. Estou desolada, de coração partido e com muito medo. Portugal não está preparado para estes fenómenos extremos e toda a actuação dos nossos Governantes tem sido embaraçosa, descabida e insuficiente. Avizinham-se mais 10 dias de chuva quase ininterrupta, no nosso Inverno mais chuvoso de sempre (sinto que está a chover desde Novembro!), com as populações do centro completamente vulneráveis, os solos saturados de água, as barragens cheias e o caudal dos rios idem. Não consigo imaginar o que poderá vir daqui. Olho para trás e só penso na sorte colectiva que tivemos de apanhar a pandemia durante o Governo do António Costa - sim, estou mesmo a dizer isto. Ainda que tivessem havido falhas, imaginem ter estes ministros a lidar com o caos que foi a Covid-19. Tenebroso.
Tenho-me lembrado desta minha Crónica, quando falei das cheias de Valência e da necessidade dos Governos darem formação de Protecção Civil às populações:
E assim foi o mês de Janeiro. Sim, ouvi podcasts e li livros, comprei algumas coisas, pensei noutras, mas neste momento nem tenho vontade de escrever sobre isso. Parecem-me pequenos fait-divers insignificantes face às dificuldades que tantas pessoas estão a viver. Sinto-me até um pouco tola de estar aqui a escrever para a Internet, quando as populações estão sem comunicações, mas só queria deixar um forte abraço virtual a toda a gente afectada pelo temporal. Muita força para todos nós nestes dias complicados que estamos a viver.
Até para a semana.





Que formação estás a tirar? Se calhar já partilhaste e não me lembro. Se serve de consolo, mesmo com toda a gratidão/coisas boas ando com tanto síndrome de impostor ultimamente, a pensar que devia era tentar entrar em corporate e escalar qualquer coisa palpável, que me desse um cargo com validação externa. ai ai. Força para ti <3 mudanças de carreira são assustadoras, mas é a situação certa para pensar qual-é-o-pior-que-pode-acontecer?
A torcer por ti, sempre. E ouve o teu corpo, que não mente.
(às vezes, é mais fácil estudar combinando com um emprego daqueles em que se sai mesmo de lá quando se sai de lá. Em que "nós" não "temos de". Sei lá, na florista...)
(Tenho uma amiga que no ano passado se demitiu e foi experimentar empregos fora de escritórios sugadores de almas, só uns meses de cada um. Achei genial, mas claro que é uma amiga que mora num país de salários decentes, onde se pode trabalhar na florista e ter uma vida...)