Que silêncio é este?
Sobre a Palestina e a humanidade.

Demorei até chegar à questão da Palestina. Sabia que havia qualquer coisa a passar-se por lá, mas foi só de há uns pares de anos a esta parte, graças ao que me ia chegando das pessoas que sigo no Twitter, que me fui apercebendo do que realmente era todo este conflito. À data do 07 de Outubro, já eu estava plenamente consciente do que era o estado de Israel e do seu objectivo naquele território ocupado.
Desde aí, como todos sabemos, temos assistido ao horror do que tem sido a chamada guerra “Israel-Hamas”, que é na verdade o genocídio do povo palestiniano, que morre às mãos das forças sionistas israelitas. Pronto, se calhar chegado a este parágrafo tenho de admitir que este vai ser outro texto mais do coração do que da razão. Lamento. Se calhar, para preciosismos geopolíticos, deviam antes ouvir um diplomata ou assim. Sou apenas uma cidadã a escrever umas coisas na Internet, face ao que tenho visto e lido nestes últimos anos.
A escalada deste conflito deixa-me embasbacada e perplexa. Não por achar estranho ter chegado a este ponto (claro que chegou, basta pensar que Israel é um aliado dos EUA e, consequentemente, do mundo ocidental), mas pela forma como está a ser tratado e gerido. É-me surreal, enquanto fenómeno sociológico e político, a dissonância entre aquilo que as instituições apregoam e o que os cidadãos sentem.
Os palestinianos estão a ser mortos, torturados, presos, deixados a morrer à fome, sem tectos, sem hospitais, sem medicamentos, de sacas às costas a fugir, empurrados para armadilhas, sem escapatória. Sei disto tudo porque, no Twitter, me aparecem as contas destes palestinianos, as fotografias e vídeos que eles publicam, as crianças, os bebés, a destruição e o horror.
O mundo foi-se unindo, foi levantando voz. Marchas, protestos, vigílias, o que lhes quiserem chamar. Centenas de milhares de cidadãos, de vários países em todo o mundo, saíram à rua a protestar pelo fim desta guerra unilateral. E o que dizem os governos e as instituições destes países, perante os milhares de cidadãos da rua? Nada. Ou que Israel tem “direito a defender-se”, ou o raio que os parta a todos, sei lá eu. É surreal. Surreal tudo isto. Pronto, aqui e ali alguns países já vão reconhecendo o estado da Palestina, mas e então? Isso significa o quê? Que medidas é que se tomam para que Israel pare de matar um povo por inteiro?
No Twitter, palestinianos escrevem em desespero “don’t forget us”, “keep talking about Gaza”, “we’re being killed and the world doesn’t care” - como é que lhes dizemos que não é verdade e que nós queremos saber? Porque, deste lado, assombra-nos uma impotência sem igual. Que raios é que podemos fazer? Vamos para a rua, gritamos e apelamos aos nossos governantes, e isso é ignorado. Como é que conseguimos a ajudar?
Os meses foram passando e só penso no texto da minha amiga Diana, que trabalha com questões da ajuda humanitária, e tem acesso a relatórios semanais da violência praticada em Gaza (e não só). Que explica de forma mais elegante o que vos tento aqui transmitir. Convido à leitura.
Tive a ideia de escrever esta Crónica quando o navio Madleen, onde seguia Greta Thunberg, estava a caminho de Gaza e foi interceptado pela marinha Israelita. Porque, face a este embuste em águas internacionais, com captura de cidadãos europeus (incluindo uma eurodeputada eleita), os governos reagiram em silêncio. SILÊNCIO. Não houve condenação alguma, nem uma palavra institucional para encher chouriços, nada. Ninguém quis saber. O governo sueco RECUSOU o pedido de ajuda da sua cidadã Greta Thunberg.1 O que é isto?! Em que mundo estamos? Nem com o teu próprio país podes contar para apoio numa acção humanitária? Está tudo completamente louco? Que impunidade é esta perante as acções de Israel?
Também a Rita, chocada com este silêncio, escreveu um texto sobre isto. Convido, igualmente, à leitura.
Depois, já não sei bem como nem porquê, Israel decidiu atacar o Irão e matou alguém (a sério, eu peço mesmo imensa desculpa, mas eu estou mesmo a escrever de coração). O Irão decidiu retaliar e atacou Tel Aviv. A Internet festejou. Que me perdoem, mas até eu festejei - se “festejar” é a palavra certa para descrever o que senti. Agora, é sábado à noite e no separador ao lado de onde escrevo este texto, estou ligada ao canal da Al Jazeera a ver o que se está a passar em mais uma noite de ataques.
Apesar de não ser especialista em geopolítica nem no conflito Israel-Palestina, também não sou infantil nem tola de todo. Pergunto-me: temos mesmo a Terceira Guerra Mundial à porta? É isso que querem? É por isso que tem sido levada a cabo uma verdadeira lavagem cerebral institucional pró-Israel no Ocidente? É por isso que a UE está a fazer pressão aos seus estados-membro para aumentarem o investimento na defesa? Mais uma vez, em nome não sei bem de quem nem porquê, vamos enviar tropas de homens e mulheres para morrerem na guerra? O que é que é suposto esperar daqui para a frente? Ou é mais uma daquelas situações em que nothing ever happens?
O que me faz impressão, quando penso nisso, é que estamos do lado dos maus. Sei que isto é uma simplificação muito primária, mas no fundo é isto, não é? A União Europeia está do lado dos maus neste conflito. O que é que vai ser disto tudo? Não sei, não sei nada.
Por cá, neonazis estão em grande força a existir e a fazerem notar a sua existência. Numa semana, agridem um actor à entrada do teatro.2 Que raios, pensei eu, porquê? Tão tola, tão à procura de uma justificação, ainda achei que fosse um actor negro que tivesse sido o alvo. Mas não, não era. Depois, percebi que a peça de teatro que estava a ser ensaiada era sobre Camões, com um olhar crítico aos “descobrimentos” portugueses e tudo fez sentido. Aparentemente, no meu país, em Portugal de 2025, acontece um actor ser brutalmente espancado à porta do teatro onde vai representar uma peça que critica o processo de colonização português. Dias mais tarde, outro grupo de neonazis decide agredir duas mulheres voluntárias que se encontravam a distribuir comida a pessoas sem-abrigo no Porto.3 Porque, ao estarem a dar comida a pessoas sem-abrigo, estavam a ajudar “quem não trabalha”, ou uma estupidez semelhante. O que é isto?
Que país é este? Depois dos infiltrados na manif do 25 de Abril, que desataram a distribuir pancada no Martim Moniz, temos agora espancamentos e agressões na via pública a pessoas que estão só a existir? Qual é o plano de acção? O Ministério Público vai fazer alguma coisa? Nem sei se é tema do Ministério Público. A Polícia Judiciária? A Procuradoria Geral da República? Alguém?
Ou é suposto começarmos a ter medo destas pessoas? É suposto eu pensar duas vezes se vou ou não a uma manifestação, não vá eu estar precisamente ao lado de um capanga infiltrado que decide começar a agredir pessoas à sua volta? É suposto ficar alerta no caminho do carro até às portas da Festa do Avante, em Setembro? As ruas são deles, agora? O que é que se passa?
Bem sei que há semanas escrevia sobre não desesperar e organizar, mas hoje escrevo em desespero. Estou triste e angustiada com o meu país e o mundo. Nunca, ao crescer, eu imaginei que estaria a viver a minha vida adulta nestes termos, com ameaças de grandes guerras, o retorno do nazi-fascismo e uma descrença absoluta na humanidade.
Aguardemos os próximos capítulos.


