Um corpo é um corpo
A difícil relação com a forma da carapaça humana & a minha nova jornada desportiva.
Avisos e Gatilhos: leve menção a distúrbios alimentares; relação com o corpo; imagem corporal; cultura da dieta.
Tenho a perfeita noção de que foi entre os 9 e os 10 anos de idade, quando as engrenagens das hormonas começaram a trabalhar para me encaminhar para a puberdade, que o meu corpo começou a mudar. Anteriormente chamada de “trinca-espinhas”, começava agora a ter mais formas e volumes. Apareciam umas riscas vermelhas nas coxas, a barriga salientava-se e já estavam a nascer no peito uns projectos de maminhas. Comecei a reparar que as camisolas, em mim, agora ficavam justas, evidenciando a minha pancinha púbere, o oposto do que acontecia em todos os corpos que eu via na televisão, nas revistas, na vida real, que eram admirados e elogiados. Posso dizer que desde os 10 anos de idade me sinto gorda.
Poupando uma descrição exaustiva do que é crescer e passar a adolescência com este bicho papão que assola a consciência de todas as meninas, raparigas, e mulheres (estás gorda, estás gorda, estás gorda), vejo-me chegada aqui com, possivelmente, o maior peso que já tive (não sei, não me peso), definitivamente com a forma que aparece no espelho mais larga que já tive (será?). Houve exactamente uma fase, a meio do Secundário, em que tomei as rédeas da alimentação o melhor que pude, me inscrevi no volley do desporto escolar, e comecei a aplicar-me nas aulas de educação física e, de facto, emagreci a olhos vistos. Mas aos olhos de quem? Estás gorda, estás gorda, estás gorda. Eu sabia que tinha emagrecido, mas ainda escrevia no meu caderno, onde registava esta jornada, coisas aterradoras como “Peso: 54kg - tens de perder mais”.
Olhando em retrospectiva, já me perguntei se estava a passar por um distúrbio alimentar nessa fase, sem saber. Mas não acho que seja isso. Por respeito a quem, efectivamente, sofre com ED, não vou afirmar que sofria de uma doença grave que não é brincadeira nenhuma. A minha “dieta” foi simplesmente parar de beber refrigerantes e de comer tantas Oreos - o que, sejamos honestos, não é mau. Depois, o desporto e o metabolismo adolescente ajudaram ao resto. Não acho que tenha sofrido de um distúrbio alimentar, mas sofri de crescer na cultura das dietas. Estás gorda, estás gorda, estás gorda. Sofri de achar que só o corpo magro é bonito e digno de valor, de se vestir de uma certa maneira, de aparecer em fotografias.
Eventualmente, a adolescência fica para trás e vem o corpo de adulta. A entrada no mercado de trabalho, que proporciona uma vida mais sedentária de escritório, e mais mudanças hormonais e de crescimento. Novamente longe dos “54kg - tens de perder mais”, via-me a voltar a uma forma física que eu não queria mas que era difícil de combater. Mais uma vez, o olhar à volta, a comparação incessante. Estás gorda, estás gorda, estás gorda. “Ah, eu estava super inchada mas assim que mudei a pílula perdi logo peso”, eu mudei a pílula e não aconteceu nada. “Ah, eu estava mais gorda mas deixei de beber leite e perdi-”, eu deixei de beber leite e não aconteceu nada. Continuava a sentir-me a ver-me gorda.
Olhando para trás, acho que fui injusta comigo. Não sofri distúrbios alimentares mas, definitivamente, sofro de algum grau de dismorfia corporal. Ou seja, vejo-me sempre mais gorda do que realmente sou, mas imagino-me mais magra do que realmente sou. Digo que fui injusta porque eu tentava, possivelmente tinha resultados, mas não eram os resultados correctos e aceitáveis. Andei no ginásio religiosamente e fiz coisas com o meu corpo que não achava possíveis, como levantar 40kg-50kg em agachamento com barra. As minhas pernas eram fortes e atléticas, mas eram volumosas, portanto, aos olhos de quem está de fora, dos conhecidos na rua, da mãe, dos meus, eu continuava gorda. Lembro-me de estar na elíptica e uma senhora se pôr ao meu lado, perguntar há quanto tempo eu andava no ginásio e se sempre tinha sido “assim magrinha”, e eu ter ficado embasbacada. Magrinha?! Mas eu não estou magra, minha senhora, eu estou gorda. Foi, possivelmente, a única vez nessa fase da minha vida que alguém me disse que eu estava “magrinha”. Portanto, pergunto-me… Como é que, de facto, aparentava o meu corpo?
Andei no treino funcional, que consistia num treino com exercícios de alta intensidade, em circuito. Passei de me esgotar no aquecimento para conseguir fazer o treino de forma eficaz. Mas olhava para as colegas do treino, mais magras, que gostavam de ir correr, e sentia que continuava gorda. Veio a Covid, o ficar fechada em casa sem desporto, os 25 anos de idade que já lá vão, e uma espécie de segunda puberdade que poderá ser, simplesmente, fruto deste sedentarismo imposto na altura. Mas cá estava eu, mais pança, mais mamas, mais coxas, mais gorda.
Claro que, ao longo deste tempo todo, e com a minha politização, sei que estas noções estéticas não aparecem do nada. Tal como vão aparecendo outras de contra-corrente, como a body positivity ou, a que acho ainda melhor, body neutrality. Estou consciente de que não sou uma mulher magra, principalmente aos padrões que a sociedade mostra como ideais. Mas também sei que, perante uma mulher realmente gorda, eu não sou gorda. Estou ali no meio, no que agora já denominamos de mid-size. Também estou consciente, ao olhar para as outras mulheres da minha família, que a genética não nos abonou com corpos secos e magros. Gosto de comer uma alimentação variada e saudável, mas não me torturo por calorias. Como vi a Filipa Gomes dizer há uns tempos, prefiro ter refeições com amigos que me dêem prazer, e se isso significa um determinado tamanho de roupa, que seja.
Mas…
O que fazer quando, efectivamente, me está a custar olhar ao espelho e ver a forma como as roupas me assentam? O que fazer quando não suporto ver-me nas fotografias que me tiram? Ou, o pior de tudo, quando noto que fico ofegante ao subir um lance de escadas? Ou quando vou a caminhar na rua enquanto gravo um áudio no WhatsApp?
E agora entraria a parte em que vos digo: vou fazer uma dieta e muito exercício para mudar! Porém… mais ou menos. Em relação à alimentação, considero que a tenho saudável e variada, embora o meu corpo transpareça outra noção. Em relação ao exercício, de facto, admiti para mim própria que precisava de algo diferente. Mais mexido do que o Yoga, algo que me fizesse suar e, sendo franca, onde também me conseguisse divertir mais. Por esta e por outras razões, senti que estava na hora de encerrar o capítulo do Yoga. Então, troquei o estúdio por um livre-trânsito no ginásio, com acesso a aulas de grupo.
Se eu tenho esperanças de que, com mais e diferentes modalidades desportivas, o meu corpo mude? Sim, tenho. No entanto, admito que me sinto uma fraude, culpada e com algum receio. Quero emagrecer? Porquê? Mas e se o meu corpo não mudar? E se voltar ao tempo em que me exercitava e, quando mencionava isso numa conversa, começava a sentir o olhar do meu interlocutor a inspeccionar-me o corpo, vendo a confusão surgir na sua expressão, “como é que esta fulana diz que anda no ginásio e é assim gorda”? A ponto de, nessa altura, eu ter começado a dizer “sim, eu faço desporto XYZ mas eu sei que não se nota ahah”. Que violência, esta minha necessidade de me justificar, de reconhecer de forma humilhante: eu faço desporto mas o meu corpo não mostra os resultados que se tomam por serem os “correctos”, portanto peço desculpa, acredita em mim quando digo que eu estou a tentar.
Não quero a pairar sobre mim uma pressão para emagrecer, ou para alcançar uma certa figura física, com esta minha nova fase desportiva. Porque, se “falho”, ou se me continuo a percepcionar como ainda não sendo magra o suficiente (”Peso: 54kg - tens de perder mais”), que benefícios é que isso me traz? Desta vez, quero que as coisas sejam diferentes.
Eu vou lá e faço o meu desporto. Sem expectativas para o que se vê no exterior, eu só quero a consciência tranquila de que estou a mexer o meu corpo, estou a suar e me estou a divertir. Se, por acaso, o corpo mudar e se moldar à diferença de hábito que lhe estou a trazer, então ainda melhor, não vou ser hipócrita. Mas não tenho coragem de dizer que quero emagrecer, porque sei que não me vou sujeitar a controlos alimentares milimétricos e porque o meu corpo pode não mostrar de forma evidente os resultados do exercício. O meu objectivo é subir escadas sem ficar ofegante e fomentar a circulação sanguínea das minhas pernas, que tendem ao lipedema. O que vier além disso, será um bónus bem-vindo. Cá estarei para testemunhar, desta vez de forma mais compassiva comigo mesma.



De alguem que cresceu do outro lado do espectro, da magreza e dos complexos por não ter mamas que enchessem um decote, acho que todas acabamos por sofrer de algum tipo de dismorfia corporal, por ausência de representação de todos os tipos de corpos. Cresci nos anos 90 e sempre que vejo aqueles videos que nos lembram que nessa altura o bonito era o heroin chic e que a Bridget Jones era gorda e que a Britney era uma descuidada quando apareceu nos VMAs, percebo quão nos corroeram o cérebro com ideiais irreiais do que é um corpo perfeito. Durante a pandemia engordei 7 kg e tive de aprender a lidar com este meu novo corpo (mamas!), com a roupa que deixou de servir, com os novos números na balança e com o facto dos tamanhos de roupa das lojas de fast fashion estarem cada vez mais pequenos. Tenho feito na terapia algum trabalho para aceitar o meu corpo. Afinal tenho um corpo típico-padrão e saudável. É através deste corpo que me permito viver e ter todas as experiências que quero. É com ele que venho trabalhar todos os dias, é ele que me leva a ver os concertos que tanto gosto, não tenho limitações de locomoção e de movimentos, não vivo com dores crónicas. Sempre odiei desporto. Nunca tive jeito, era sempre das ultimas a ser escolhida para os desportos de grupo na escola. Decidi que vou começar a treinar a partir de setembro, com o objectivo de melhorar a minha mobilidade, força, etc...até porque não estou a ir para nova e vou ter de começar a lidar com perda de densidade ósea e massa muscular. É um processo aprendermos a gostar do nosso corpo. Só quase nos 40 é que comecei. Acho que ainda vou a tempo.