Viva o PrEP!
O milagre da Profilaxia Pré-Exposição e um alerta para os moralismos da sociedade civil.
Tenho andado a ler o livro Maus Hábitos, de Alana Portero, uma mulher trans espanhola, que nos escreve sobre a sua vida enquanto pessoa trans que cresceu num bairro operário, nas redondezas de Madrid, bem como toda a sua viagem de descoberta pessoal. Vou muito no início, a narradora está agora a entrar na adolescência, relatando o que custa crescer com disforia e com o corpo a transformar-se numa forma que lhe é estranha. É por esta altura que ela tem o seu primeiro amor e os encontros clandestinos que o acompanham. Ela e o outro rapaz vão passear para uma zona diferente, conhecida por ter “má fama”, já que era local de “maricas” e outros dissidentes sociais da altura. Passam umas horas no café, tal como outros casais de homens, até que a protagonista repara numas fotografias penduradas na prateleira atrás do balcão e questiona o dono do estabelecimento, que diz o seguinte:
— Eram meus amigos; este daqui, o meu namorado, olha, coitadinho, que feio e que bom era. (…) Eram a família que formei quando cheguei a Madrid, há vinte e cinco anos.
(…)
— Podes imaginar o que aconteceu à maior parte deles, por isso distribuo preservativos a mariquinhas jovens como se fosse o Pai Natal. Tornei-me uma mãe-galinha, muito chata, e sei que é estranho um desconhecido arrogar-se o direito de se meter no que vocês fazem ou deixam de fazer com o vosso material, mas, filha, prefiro que venham aqui outro dia, em carne e osso, chamar-me nomes enquanto tomam um café a ter-vos em fotografia para sempre.
(pp. 113 e 115)
Caso não seja óbvio, eu explico: morreram de SIDA. Aqueles homens - a família-escolhida do dono do café - morreram de SIDA.
Para mim, é bafienta a conversa do “nasci na época errada”. Acho que somos todos uns sortudos por termos nascido, crescido e estarmos a viver nesta época, a melhor e mais avançada época da Humanidade, já que é a mais recente. Enfim, se não contarmos com as complicadas explicações do espaço-tempo, que não tenho cabeça para isso. Esta é a época com os maiores avanços científicos, que estão continuamente em inovação, houvesse ainda mais vontade política, e mais avanços seriam conseguidos.
Um dos maiores avanços científicos dos últimos anos tem, precisamente, a ver com o VIH/SIDA. De doença altamente mortal, dolorosa e causadora de intenso sofrimento às suas vítimas, passou a ser levada a cabo como uma doença crónica “normal”, com muito menos perigo de vida, deixando que os seus doentes consigam viver com relativa normalidade. Apesar de ainda não haver uma cura definitiva, existe outro grande avanço na forma como lidamos com o VIH: o desenvolvimento da Profilaxia Pré-Exposição, vulgo, o PrEP.
O PrEP, para quem não sabe, é um comprimido que previne a infecção por VIH, devendo ser tomado antes de se ter contacto com o vírus. Trocado por miúdos, é como uma pílula anti-VIH, uma segurança extra para prevenir a infecção. O PrEP está acessível a quem o quiser tomar, através do Serviço Nacional de Saúde.
Eu sei disto porque um dos meus melhores amigos é homossexual, o grupo de risco de excelência para questões relacionadas ao VIH, mesmo que, por exemplo, o número de novos diagnósticos de SIDA seja mais alto na população heterossexual. O estigma continua, e direcciona os cuidados para esta franja da população, daí que, ironicamente, os novos casos da população gay masculina sejam muitos deles de VIH assintomático, enquanto que os hetero descobrem que têm já a doença (SIDA) e mais tardiamente. O meu amigo toma o PrEP, pelo que sei alguma coisa sobre o processo, até porque sou naturalmente interessada neste tipo de questões.
Segundo o que ele me diz, pois assim ouviu dos vários médicos que o acompanham, o objectivo a longo-prazo é que toda a população sexualmente activa tome o PrEP, de modo a prevenir novas infecções por VIH (duh!!). As consultas são regulares, são feitas análises às ISTs de seis em seis meses, se não me engano, e a equipa que acompanha os utentes do PrEP, pelo menos na Unidade de Saúde onde ele vai, é jovem, descomplexada e muito, mas mesmo muito franca na forma como conversa com os doentes e lhes faz questões. Deixas que se venham na tua boca?, coisas deste género, assim tudo muito directo, o importante é saber e proteger os doentes, já que esta é uma questão de saúde pública, acima de tudo.
Ainda bem que os profissionais de saúde que trabalham nesta área são assim. Infelizmente, a sociedade civil às vezes parece não acompanhar os avanços científicos. Temos medicamentos e medidas inovadoras e, por outro lado, parece que a percepção pública destes assuntos está a regredir.
Não é incomum ver, em várias línguas e oriundos de vários países, comentários indignados de “porque é que os preservativos são grátis mas os produtos de higiene menstrual não?”, o que é uma questão válida e uma luta que igualmente apoio, mas traço a linha quando o argumento que sustenta esta contestação é de cariz moralista: “podem escolher não fazer sexo, mas eu não posso escolher não-menstruar”. Os preservativos são grátis para prevenir gravidezes indesejadas, infecções sexualmente transmissíveis e - sim, adivinharam - para tentar controlar ao máximo o risco de infecção por VIH. Preservativos grátis são uma questão de saúde pública. Produtos menstruais também, mas uma luta não pode diminuir a importância de outras.

Felizmente, em Portugal a questão do PrEP está a passar despercebida ao comum mortal (se não fosse o meu amigo, não saberia nada disto), e parece que temos uma tendência para fazer as coisas bem feitas quando precisam de ser bem feitas, sem grande alarido. Faz-me lembrar a maneira progressista e inovadora como lidámos com a questão da toxicodependência nos anos 90, às vezes pergunto-me se agora seria assim.
No entanto, principalmente em tweets oriundos do Brasil, vejo igualmente muita indignação perante a ideia de que o serviço nacional de saúde estará a comparticipar uma “pílula anti-SIDA” só para os gays “poderem transar no pelo” (sem preservativo). Eventualmente, quando aparece uma notícia relativa ao PrEP num jornal português, há sempre comentários deste estilo. Acho de uma profunda ignorância e, pior de tudo, de uma falta de empatia gritante.

Será que ficámos tão dessensibilizados perante a SIDA que nos esquecemos do horror que é esta doença? Que as suas vítimas tinham um final de vida desesperante, cheio de dor e sofrimento? Quando qualquer constipação mínima seria uma sentença de morte? Esquecemo-nos de que haver medicamentos para controlo da doença, para prevenção e até para pós-exposição, é um verdadeiro MILAGRE da ciência, que deve ser celebrado?
Os anos 80 foram um pesadelo com a questão da SIDA, principalmente na comunidade homossexual masculina. Em todo o mundo, pensem nos milhares de homens que sucumbiram a uma doença tão cruel porque a ciência ainda não tinha lá chegado e, a princípio, nem se fazia grande caso disso, pois era a “doença dos maricas”. Pensem na quantidade de familiares, amigos, companheiros de vida que viram os seus entes queridos acamados, mortos num espaço curto de meses, praticamente sem explicação. Homens da cultura e das artes, li algures que a SIDA deve ter sido responsável por um atraso imenso em termos culturais porque se perdeu tanta, tanta gente do meio. É uma ferida e um pavor enorme que vive no inconsciente colectivo LGBT.

Não consigo conceber a moralidade aplicada às questões de saúde sexual. Não me surpreende - é o mesmo princípio do acesso à IVG, se não querias engravidar, não fosses foder, quem te mandar ser sexualmente activa? Na mesma linha, se usar preservativo previne a transmissão do VIH, isso basta!, usa o preservativo, e se romper, quem te manda ser sexualmente activo? Agora os meus impostos têm de sustentar isto?
Ideias ignorantes e pequeninas: os seres humanos fodem, sim, e então? Devemos, temos a obrigação, de o poder fazer de forma segura e com o mínimo de consequências para a saúde. Sim, devem ser disponibilizados métodos contraceptivos gratuitos, métodos de barreira gratuitos, e comprimidos que previnam doenças horrendas gratuitos. Se tudo isso falhar, devemos ter acesso a cuidados de saúde, seja para fazer uma IVG segura, seja para tomar o PPE (igual ao PrEP mas versão pílula-do-dia-seguinte, para quem teve contacto recente com o vírus).
Se a questão de adultos fazerem sexo incomoda assim tanto, pensemos em todas as outras pessoas que podem beneficiar do acesso gratuito ao PrEP:
companheiros de vida de pessoas seropositivas;
profissionais de saúde;
familiares ou pessoas próximas de alguém seropositivo;
toxicodependentes.
Para mim, é óbvio que o PrEP é um milagre da ciência e que deve ser comparticipado pelo SNS. Ainda bem que os meus impostos servem para isto. Às vezes, receio que os moralismos da sociedade civil ganhem espaço político e travem estes programas e iniciativas, o que implica pôr vidas em risco desnecessariamente, quando temos a tecnologia e a medicina disponíveis para que isso não aconteça. Escrevo sobre este assunto, para dar a conhecer esta realidade e deixar um alerta para ficarmos atentos e não deixarmos que possam sequer ter a ideia de nos impedir de aceder a cuidados de saúde sexual. Porque todos os merecemos, independentemente da nossa orientação sexual e se vamos fazer sexo com o amor da nossa vida ou com alguém que acabámos de conhecer.
Olho para o meu amigo e dou graças ao facto de poder estar com ele, enquanto ouço as histórias que ele tem para me contar, sem medo de algum encontro que corra mal e que acabe comigo a vê-lo acamado, sucumbindo a uma doença terrível. Emociono-me quando penso na sorte que tenho, sorte que não teve a Madonna nem a Patti Smith, de saber que o meu querido amigo está protegido. Ainda bem.
Viva o PrEP!
E viva o Serviço Nacional de Saúde.
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Se nunca viste procura no youtube o documentário "how to survive a plague". É um retrato durissimo do que foi a epidemia da SIDA e da quantidade de pessoas que morreram e sofreram para ter direito ao mínimo de cuidados de saúde
Parabéns pelo artigo, está excelente!, e obrigado por trazeres um tema tão importante desta forma direta e descomplexada. Não fazia ideia do que era o Prep, mas sem dúvida que é da maior importância. Tal como elogiar o nosso SNS que faz maravilhas com tão pouco.