Coisas que faço bem
Nem todas as minhas decisões são más.
Aqui há dias, em conversa com a minha bff, partilhava, mais uma vez, as minhas frustrações laborais e o quão perdida me sentia em relação ao que fazer. Apesar de, na verdade, eu saber o que quero e estar a trabalhar em prol desse plano. E ela diz-me, certeira, que na verdade eu é que não valorizo aquilo que já estou a fazer, além de querer igualmente algum tipo de aprovação que posso nem chegar a ter. E quando li esta mensagem, percebi imediatamente que era isto mesmo, eu ando desenfreadamente à procura de uma aprovação, de uma autorização, alguém que me diga que eu posso fazer isto, que é uma boa ideia.
Ao pensar nisto, cheguei igualmente à conclusão de que esta procura por aprovação está relacionada com uma quebra de confiança que tive em mim mesma. Desde sempre que tomo as minhas decisões sozinha, ou com pouca consulta alheia, até porque não tinha muitas pessoas a quem pedir ajuda, para ser sincera. E não podemos deixar de tomar em consideração a minha teimosia adolescente, a certeza absoluta que eu tinha em relação a coisas que afinal se revelaram erradas para mim e das quais, mais tarde, só me quis afastar. Então acho que é normal, volvidos estes anos todos, que eu tenha deixado de confiar em mim mesma para tomar decisões, porque a minha vida tem sido uma série de decisões bosta, todas tomadas por mim.
O meu curso superior foi uma bosta; a minha abordagem ao mercado de trabalho foi uma bosta; o período que passei desempregada foi uma bosta… Mais recentemente, meti na cabeça que queria mesmo era ir estudar Psicologia: candidatei-me, convencida de que era este o caminho, - tinha ficado um ano a pensar nesta decisão! -, já não era assim tão nova nem tão tonta, agora sabia o que estava a fazer. Depois, vieram os resultados, não entrei e simplesmente desisti da ideia. Vejo que foi pelo melhor, mas não deixo de sentir, mais uma vez, uma quebra de confiança. Então, eu queria tanto, tanto, tanto, tanto, e agora já descartei por completo a ideia, a ponto de me parecer absurdo que a tivesse tido, sequer?
Como é que sei, então, se o caminho que juro a pés juntos que quero agora, não vai ser mais uma ideia que me fica pelo caminho, se não a conseguir pôr em prática? Como é que deixo de me sentir uma tonta que vai tentado tomar decisões ao sabor do vento e das amarguras da vida? Ou então, melhor ainda, como é que deixo de me sentir um fracasso só porque mudo de ideias? Sendo a mudança de ideias e planos apenas uma consequência de se ser um ser humano em constante crescimento e amadurecimento, se formos sinceros.
No entanto, há sempre uma vozinha irritante a questionar: era isto que tanto querias e afinal já desististe? Não tens força anímica para prosseguir com o plano? Não sabes que não podes sair? Não era disto que gostavas tanto? Agora já não é? Agora queres outra coisa? Vê lá se é mesmo isto que queres, ou vais desistir outra vez? Não sabes que isso é ser fraco? Mas vais andar sempre a querer outra coisa?
Enfim, exaustivo. Por isso, para contrariar todas estas vozes incessantes que me atormentam e para mostrar a mim mesma que o que elas dizem não é correcto, decidi fazer uma lista de decisões que tomei e que foram boas para mim. Porque a minha vida não é um sem-fim de más decisões, eu também soube fazer coisas boas.
Nem tudo nesta lista são decisões grandiosas, algumas são coisas pequenas, quase inócuas, mas que importaram para mim.
Certificados de Aforro
Esta é a mais óbvia e, talvez, a mais importante, mas uma das decisões dos últimos anos de que mais me orgulho foi ter começado a poupar dinheiro a sério, investindo igualmente em Certificados de Aforro. Já sei que podia procurar mais alternativas de investimento - e mais rentáveis-, no entanto, face ao meu perfil de investidora (preguiçosa que não quer chatices), pareceu-me a melhor hipótese para começar. Tenho uma poupança considerável e isso deixa-me muito feliz. Ainda que me pareça insuficiente, até porque comecei-a com o objectivo de ser a entrada para a minha casa (ah, ah, ah, ah, ah, ah, quando ainda havia casas na minha freguesia abaixo dos 170.000€ ah, ah, ah, ah, ah), tenho a noção racional de que é sempre vantajoso para o pobre ter dinheiro de lado. Dinheiro de lado que ainda por cima rende uns trocos? Sim, esta foi uma ÓPTIMA decisão.
Pagar as contas no início do mês & o “mealheiro” da terapia
Ainda na temática das finanças pessoais, ter decidido pagar logo as minhas contas no começo do mês livrou-me das chatices de me esquecer que as tinha de pagar. Calma, não tenho grandes contas (como é que acham que consigo a poupança generosa?!), estou a falar, por exemplo, de carregar o saldo do telemóvel (nunca mais a Vodafone me cobrou aqueles 50 cent de “lembrete”). Ao mesmo tempo, ter criado na app do moey um cofre onde coloco o dinheiro das consultas da terapia desse mês, livrou-me do medo de gastar o dinheiro “sem querer” - já sei que, independentemente dos gastos do mês, tenho aquela quantia guardada. Escrevi em tempos um texto sobre tudo isto, continua actual porque ainda não fiz grandes mudanças nos meus hábitos financeiros:
Bloquear algumas apps a partir de certa hora
Não me lembro exactamente da altura em que fiz isto, mas activei a opção do iPhone de bloquear as apps a partir de determinada hora. Podemos personalizar e deixar de fora do block algumas apps, a mim serve-me para me tirar o instinto de ir ao twitter e ao instagram. Tenho o block a partir das 22h, porque uma vez desactivei a função e depois quando voltei a activar esta era a hora pré-definida. Mas quero pôr para mais cedo. Sei que não estar nas redes à noite me faz bem e esta é uma boa decisão.
Deixar de trabalhar aos sábados
Quando comecei neste trabalho, além do horário de segunda a sexta, eu fazia umas horas extra ao sábado de manhã. Passei dois anos assim, sem uma sexta-feira verdadeira e com o fim-de-semana só a começar às 13h de sábado. Em Dezembro de 2024, aproveitando que ia começar a ter outras funções, propus deixar de trabalhar aos sábados e assim foi. Obviamente, uma boa decisão.
Terapia
Também nesse final de 2024, comecei à procura de terapia e encontrei, com grande sorte, um sítio acessível, um horário compatível com a minha pouca disponibilidade e com uma psicóloga de que gostei à primeira. Talvez um dia escreva sobre o que está a ser este processo para mim, por agora queria só deixar registado que foi uma boa decisão porque tenho um espaço para me ajudar a pensar.
Ir ao gym mesmo quando não me apetece
Sou uma grande preguiçosa, mas consegui encontrar umas aulas de grupo de que gosto e lá vou eu, duas vezes por semana, fazê-las. Mesmo quando não me apetece, sei que me faz bem ao corpo e à cabeça. Ok, pronto, andei a baldar-me por causa do temporal… mas já voltei!!! E o lado irónico de ir ao ginásio mesmo quando não nos apetece, é que nunca nos arrependemos de ter ido.
Plano Médis Dental
Já tenho este plano há uns seis anos e vale-me cada cêntimo, tendo em conta algumas chatices dentárias que tenho tido nestes anos. Dá-me muito jeito não hesitar na hora de ir ao dentista por questões financeiras e saber que vou ter as consultas por um preço muito simpático (por norma, pago 3€ por consulta - yap!). Uma grande decisão, sem dúvida. Recomendo vivamente a todas as pessoas arranjarem algo deste género, mesmo que sejam mais sortudos do que eu e usem só para fazer check-up 2x ao ano.
Janelas de vidro duplo
Por alturas da pandemia, falei com os meus pais sobre a hipótese de colocar janelas de vidro duplo (com caixilharia oscilo-batente e estores com corte térmico) no meu quarto. Não me lembro se suportei os custos sozinha ou a meias com o meu pai, mas sei que foi uma boa decisão, tendo em conta que o prédio é velho e que a janela do meu quarto dá directamente para a rua (ou seja, nem estou do lado da marquise). Não é nenhum milagre (felizmente tenho ar condicionado), mas ajudou bastante no conforto térmico do meu quarto. Realisticamente, como sei que ainda tenho alguns anos pela frente neste meu quartinho, mais vale investir em melhorá-lo. A próxima decisão é a cama nova, que gostava de conseguir lá para o final da Primavera.
Mudar de esteticista à primeira red flag
Ando a pensar se escrevo sobre esta história caricata numa Crónica própria… O ano passado, quando comecei a jornada da depilação a laser, fui a uma esteticista e, nessa primeira sessão, notei logo uma data de red flags. Acreditam que, no final, apesar de estar uneasy com a situação, ponderei… continuar a ir lá??? Felizmente, dei-me permissão para ouvir os meus instintos e mudei de sítio. Melhor decisão de sempre!!!
Segunda-feira do Avante de férias
Tal como escrevi na altura, é muito duro ir trabalhar pós-Festa do Avante, porque saímos de três dias utópicos para a crueldade do mundo real. O ano passado, meti a segunda-feira de férias e foi uma maravilha. Não sei onde vou estar em Setembro deste ano, mas se continuar num trabalho penoso e que odeio, vou pôr não só a segunda-feira de férias, como também a sexta. Lidem.
Pronto, eu avisei que não eram mega, mega cenas, e também não ia escrever aqui uma listagem de todas as coisinhas patetas e óbvias, estilo “não comer bolachinhas digestivas de chocolate sempre que tenho vontade” ou “não comprar cigarros”. Quis antes fazer um exercício para me lembrar que também faço coisas acertadas por mim, mesmo indo “contra” algumas opiniões, por vezes. Quando avisei lá em casa que ia abrir conta nos Certificados de Aforro, o meu pai disse-me que em tempos já tinha tido mas que “isso não dá nada”. Hmmm… A mim já me deram mais de 700€ em juros, muito obrigada! Então, sei que tenho comigo a capacidade de fazer o que está correcto, mesmo tomando a decisão sozinha. Só preciso de reencontrar um pouco da confiança perdida.
E aprender que viver é mudar, desistir é normal e que não tenho de ficar amarrada às (más) decisões passadas. Não sou refém de mim mesma e posso escolher novos caminhos sempre que assim me for possível e desejável.
só mais uma coisinha antes de irmos embora…
Chamou-me a atenção aqui no substack o facto de o António Brito Guterres ter começado um podcast junto com a Andreia Galvão, o Ponto de Fuga. Comecei a ouvir e, durante uns dias, foram as conversas deles que me fizeram companhia (andei a ouvir todos os episódios atrasados). Gosto muito da dinâmica do podcast, sobretudo pelos temas que abordam e pela lente político-ideológica que impregnam na discussão. São duas pessoas de esquerda, anti-capitalistas e anti-imperialistas, ao mesmo tempo que mantêm uma conversa num tom despretensioso e descontraído. Se os media tradicionais estão virados à direita, resta-nos fazer por ir à procura de vozes mais à esquerda, em meios pequenos e independentes, e deixar por lá a nossa atenção e apoio. Fica a recomendação.
* encontrei a imagem nesta conta de Twitter, onde vou tantas vezes procurar referências para ilustrar as Crónicas. Achei curiosa a descrição no tweet dado o teor do meu texto, e não quis deixar de partilhar:







Gosto de tudo neste texto, é tão urgente que aprendamos a dizer "eu faço bem X", "eu tomei uma boa decisão ao optar por Y".
"na verdade eu é que não valorizo aquilo que já estou a fazer, além de querer igualmente algum tipo de aprovação que posso nem chegar a ter." Tua amiga me definiu, a gente chega até se auto sabotar