Mais limpezas digitais?
Limpar o Pinterest e tudo aquilo que já não somos.
Por volta da mesma altura em que fiz a limpeza à minha caixa de e-mail também quis entrar no Pinterest e arrumar um bocado a coisa por lá. Inclusive tirei alguns prints para um rascunho de um texto, no qual acabei por só escrever uma frase e abandonar.
não sei se isto vai ser um texto, mas estou a limpar o pinterest e está a ser difícil livrar-me de coisas que deixaram de fazer sentido na minha vida há 10 anos
a frase de rascunho
Reparem, eu sou uma pessoa muito online. Eu fiz conta no Pinterest quando apareceu o Pinterest. Tinha o quê? 16 anos? Algures por aí. Imaginem o arquivo de pins de uma rede social que está na vida de uma pessoa desde os seus 16 anos. Entrei no meu álbum de “beauty” e tinha uns 59 pins diferentes com tutoriais de smokey eye, como fazer eyeliner e aplicar batom vermelho. Ok, já percebi. Gosto de maquilhagem smokey eye/eyeliner/batom vermelho. Quantos mais pins é que preciso a mostrar a mesma coisa?
À semelhança do que acontece no e-mail, olhar para o meu arquivo do Pinterest foi como ver um relatório do meu crescimento e de todas as minhas fases. Entrar na faculdade e ter um álbum só com dicas de estudo. Quando me dá os entusiasmos súbitos por um artesanato específico e guardo para lá coisas que não volto a ver. A fase hippie ecofreak (não-praticante) que me levou a um álbum de receitas vegan, um de Yoga, e ainda a uma enchente de pins sobre produtos de skincare e cosméticos caseiros. Ou quando quis pintar o cabelo de vermelho e entrei num poço de investigação sobre tintas, como aclarar o cabelo de forma natural (lol), imagens e mais imagens de cabelos pintados de várias tonalidades de vermelho. Enfim, dá para perceber a coisa.
E depois é aqui que isto fica interessante e introspectivo.
A verdade é que o meu entusiasmo e interesse na rede social Pinterest foi diminuindo. Muito esporadicamente ia lá procurar ilustrações ou assim e pouco mais. Porquê? E penso que percebi. Os meus álbuns reflectiam partes de mim que, actualmente, já não fazem sentido. Já não existem. O que me traz alguma tristeza e melancolia.
Perdoem-me o palavreado astrológico, mas sendo eu uma pessoa muito Peixes e muito Caranguejo, estou por defeito presa ao passado e presa a ilusões de possíveis futuros. Livrar-me de pins antigos que já não fazem sentido significa retirar da minha vida um período que passou, no qual fantasiava sobre o que ainda estava por viver. Confuso? Imaginem ter 19 anos e estarem a pensar que, um dia, além da vossa casa principal, vão poder comprar uma casa de férias no Alentejo. E fazem um álbum de Pinterest sobre isso. Depois têm 29 anos, ainda estão a viver com os pais e sem saber para onde se virarem a nível profissional. Decidem ir limpar as redes sociais. Deparam-se com o vosso eu que acreditou que ia ter uma segunda habitação só para férias.
Não foi preciso chegar aos 29 para ir sentido as lições da vida sobre parar de estar agarrada ao passado e às ilusões do futuro hipotético. Acho só interessante reparar no padrão. Quando entrei para o Secundário, fui obrigada a mudar de escola porque onde estava não havia Humanidades. Meu Deus, foi uma adaptação horrível pois eu adorava a escola antiga e os amigos que tinha lá deixado. Plot twist: foi na escola nova que conheci a colega que agora é a minha melhor amiga, que conheci professoras que me marcaram profundamente e, da escola antiga, perdi as amizades de forma dolorosa. Amizades que, na minha ilusão, iriam durar para sempre.
Um exemplo entre tantos. Outra lição que tiro desta minha tendência é que fico tanto tempo agarrada a coisas que depois vai-se a ver e não são coisa nenhuma. Mas insisti, e insisti, e insisti. E, nesta insistência, sem querer aceitar que aquilo já não faz parte da minha vida, acabo por me arrastar miseravelmente pelo mesmo caminho em vez de abrir espaço para algo novo.
Parei de usar o Pinterest, de fazer álbuns novos e procurar novas inspirações, porque não queria desrespeitar os que já existiam nem ser confrontada com as cagadas que tinha guardadas mas que não tinha coragem de eliminar. Porque apagar isso é como apagar uma parte de mim. Mas, caramba, que parte de mim é que custa assim tanto apagar? A miúda ingénua que queria uma casa de férias? A jovem adulta à beira de burnout que achou que queria ser freelancer?
É verdade que me custou apagar os pins, mas apaguei-os. Por que raio haveria de os manter? Não os uso para nada. De que me vale manter estes lembretes dolorosos (ou mesmo insignificantes) ali a pairar, só para cumprir um sentido de dever e fidelidade completamente absurdo e sem sentido nenhum?
Pouco tempo depois de ter começado neste trabalho, decidi que ia cumprir o meu tão aguardado desejo de praticar Yoga - um dos álbuns que tinha no Pinterest, lembram-se? Inscrevi-me e lá fui. Gostei, quem puder praticar Yoga pelo menos uma vez na vida, devia fazê-lo. Mas aviso-vos já, pelo menos da minha experiência, que o Yoga, para ser bem praticado e trazer o progresso físico e espiritual da coisa, tem de ser uma actividade diária ou quase diária, vá. Com dedicação e entrega.
Durante a minha fase hippie não-praticante fantasiei que, quando fosse praticar Yoga, iria ter uma epifania espiritual. A minha vida ia ser o Yoga, eventualmente iria à Índia, ia tornar-me instrutora de Yoga e abrir o meu estúdio. Olhando em retrospectiva, eram sinais claros de que algo não estava bem na minha vida - isto foi no meu segundo ano de faculdade, um ano complicado.
Avançando até Maio de 2022 quando finalmente me inscrevi num estúdio. Eu gostei, a sério que gostei. Durante esse primeiro ano, ir ao Yoga era fundamental para me acalmar a mente e esticar o corpo, para descontrair do dia de trabalho. Fiz alguns progressos físicos e cheguei a fazer coisas com o meu corpo que nunca sonharia ser capaz, como fazer o pino (ainda que com o apoio da prof). Mas algures ali no ano passado, dei por mim mais chateada do que entusiasmada por saber que naquele dia era dia de Yoga. Dei por mim contente quando não havia aula. Mas negava isso, pois então que eu queria tanto ir para o Yoga, agora estava lá e queria abandonar?
O caminho até aceitar que algo não está do meu agrado e que não quero mais isso pode ser demorado. Mas depois, quando aceito e tomo a decisão, sinto uma liberdade imensa. Fiquei em paz quando admiti para mim mesma que já estava farta do Yoga. Ou que eventualmente quero deixar o Duolingo para trás. Quando deixei de seguir pessoas muito populares na internet mas que eu acho irritantes e poucochinhas. Quando apaguei os pins que não me fazem mais sentido.
Talvez estas reviravoltas da vida me sirvam para ensinar que eu não sou estanque. Os interesses mudam. Não falhei moralmente porque perdi o entusiasmo por algo que me apelava tanto.
À conta das minhas compras na Feira do Livro, percebi que precisava de arranjar espaço na estante, então pus mais uns livros à venda. Alguns nem tinha lido, outros deixei a meio. E esta semana uma pessoa interessou-se e comprou-me um dos livros. Um livro esotérico que eu quis tanto ter naquele momento, que comprei, comecei a ler mas depois larguei. E, digo-vos, senti uma dorzinha quando fui ao site e percebi que o interesse era naquele livro, que eu secretamente talvez quisesse manter. Mas quero mantê-lo para quê? Não o vou acabar de ler. O meu interesse no mundo esotérico está reduzido a mínimos, então não é como se eu futuramente fosse voltar a essas referências. Eu mudei.
(Aproveito para descaradamente deixar aqui o link com os livros que tenho à venda.)
E é bonito crescer, tomar consciência disso e abraçar antes esse lado. Que posso viver o momento com o que me faz sentido, até escamar essa minha pele e descobrir uma nova versão de mim. Sem culpa, sem sentir que tenho de ficar presa a coisas que já não me trazem nada porque tinha um compromisso imaginário qualquer. Sejamos mais livres na forma como vivemos os nossos interesses e com que saltamos entre eles.
Agora, com licença, vou aproveitar o novo espaço livre no Pinterest para fazer antes um moodboard do meu idílico Verão mediterrânico e divertir-me a fingir que é isso que vou viver.
nota da edição
Admito-vos que este texto foi de improviso, não tinha grande coisa estruturada e acho que acabei por falar de muitas ceninhas aleatórias, mas que vão dar à mesma conclusão: custa-me um bocado deixar ir coisas, pessoas, ideias, interesses, objectos, o que for, porque é admitir para mim mesma que acabou. Mas tenho aprendido que, com essa “perda”, abro espaço para outras mais interessantes e, acima de tudo, fico muito mais em paz comigo pois deixo de lidar com o stress do que o que me estava a “agarrar” trazia.
Como sabem pelo que vos conto, os 20s estão a ser desafiantes e, agora na recta final, sinto que estou na fase de realmente me desapegar de todas as merdas que já não me servem. Mas não é fácil, custa sempre abandonar bocadinhos de nós. E, a cada coisa que encerro ou deito fora, descubro uma instrospecção e fico com vontade de a partilhar, ainda que me aperceba que possa ser repetitivo para quem está de fora. Então aproveito para deixar um agradecimento a quem está desse lado e gosta de me ler pela vossa paciência para comigo nesta fase.
Uma boa semana,
R





