Performance Feminina
Uma reflexão sobre mulheres no humor.

Algures nos meus 11-12 anos, quando apareceu a Internet na minha casa, dei por mim perdida no Sapo Vídeos, vasculhando a secção d’Os Incorrigíveis. Provavelmente fui lá parar depois de ter andado no YouTube a ver sketches dos Gato Fedorento, como tantas pessoas da minha geração. Os Incorrigíveis era um projecto do Sapo e das Produções Fictícias que juntava uma série de comediantes para comentar, em vídeo e com humor, assuntos da actualidade. Já não existem os vídeos nem a página d’Os Incorrigíveis no Sapo, mas ainda se encontram alguns no YouTube. Para referência, foi aqui que o Ricardo Araújo Pereira fez o mítico sketch do telefonema do INEM, para criticar as urgências fechadas (loop, loop, loop…).
Papei os vídeos todos, do RAP, do Quintela, do Bruno Nogueira, até dos outros menos conhecidos, até chegar - por fim!!! - ao vídeo da Joana Cruz, a única mulher que me lembro de ver n’Os Incorrigíveis. Adorei o vídeo dela, afinal eu estava sedenta de ver uma mulher a ter graça e nem sabia. Aliás, se tenho companheiros geracionais que agora são humoristas de sucesso porque cresceram a ver os Gato Fedorento, eu nunca sequer equacionei que isso era possível porque o humor era (ainda é?) uma autêntica festa da salsicha. As únicas excepções eram a Maria Rueff, a Ana Bola, a agora-problemática Parrachita, e as actrizes do teatro de revista. O humorista cool era o homem, quer fosse guionista, quer fosse radialista, convidado do Levanta-te e Ri, estivesse numa parelha com outros comediantes, ou tudo em conjunto. Portanto, não é de estranhar que eu não achasse que aquilo fosse para mim, já que nunca vi lá ninguém como eu.
Felizmente para todas nós, isso está a mudar e são cada vez mais as vozes femininas no humor. No entanto, continuo com a mesma ânsia de quando era mais novinha, uma vez que tenho dúvidas de que esteja lá alguém como eu… Tenho vindo a pensar neste assunto já há algum tempo e espero conseguir consolidar aqui as minhas reflexões de forma clara e construtiva, como em tempos fiz em relação à ausência de convidadAs no Watch.TM, o podcast do Pedro Teixeira da Mota. Este preâmbulo todo para dizer que abaixo poderão estar opiniões “polémicas”, mas que peço que encarem com mente aberta para que compreendam o que vou tentar explicar.
As gajas do humor, neste momento, estão divididas em duas grandes categorias: as “Baddies” e as “Bumbas”. Depois, existe ainda uma terceira categoria que eu apelidei de as “Correctas”, não tanto sobre humoristas mas mais sobre mulheres que vejo no espaço mediático. Por fim, pois eu disse que isto ia ser construtivo, ainda vos mostro aquelas que eu considero serem as excepções à regra e a mulher que mais gostei de “conhecer” em 2025. Vamos?
As Baddies
As Baddies são suuuuper cool, ok? Estou a falar a sério: são bonitas, estilosas, fazem daquelas sessões de fotos bem produzidas naquela espécie de editorial street style, tal como os colegas masculinos da profissão (acho muito bem). Mas, por isso mesmo, já fico de pé atrás. Ah, mas isso é preconceito. Pois, exactamente: a ideia pré-concebida que esta apresentação provoca em mim faz-me hesitar na hora de acompanhar o trabalho destas comediantes, mas insistimos. O problema é quando vejo os reels e o preconceito se comprova: o texto não me diz nada e até me questiono se é o meu estilo de humor. Os temas andam sempre à volta das relações amorosas, as traições, o sexo - sempre de ângulos previsíveis e que pouco ou nada questionam o status quo, sendo este, na minha humilde opinião, o objectivo máximo de fazer comédia. Ah, a tua punchline é que vais meter botox, ou seja, compactuar com os ideiais de beleza impingidos à força nas mulheres? Uau, revolucionário. Ah, és bue boa a fazer broches? Que fixe, estou perdida de riso, isto de uma mulher querer bue agradar sexualmente ao homem, tendo em conta a monstruosa orgasm gap entre os dois géneros, é realmente um ângulo inédito.
É um humor que, francamente, me afasta de querer acompanhar estas mulheres. Onde está uma proximidade, um tema comum desdobrado e entregue com graça? Onde estão as comediantes mulheres reais? E é aí que aparecem, para nos salvar…
As Bumbas
Vou já esclarecer para não haver mal-entendidos: eu gosto muito da Mariana Cabral aka a Bumba na Fofinha, apesar de já não acompanhar tanto o trabalho dela. Porém, quem é que ficou indiferente àquele início de carreira, com os vídeos divertidos e os temas pertinentes? Ninguém! Além disso, a Mariana até estudou na mesma Escola que eu e tirou o mesmo curso do que eu, o que me enche de #orgulhoescsiano. Adiante.
Ao contrário das Baddies, as Bumbas têm outro estilo: não são gostosonas bombshell, são as “feias” - muitas, muitas, muitas, muuuiiiitas aspas -, desajeitadas e desastradas, muito quirky e engraçadotas. Eh pá… São giras. Sim, são giras, naquela vertente gira-girl-next-door, gira-Tina Fey, gira-até-apareço-despenteada, mas giras. No entanto, porque a sociedade é lixada e os padrões de beleza mais ainda, estas mulheres não se vêem assim, então acabam por fazer da sua “feiúra” (mais aspas) um dos temas do humor.
Só que a performance feminina não acaba, nunca estamos livres. As Bumbas podem ser “feias” mas só mais ou menos, já que continuam a ser mulheres bonitas, fotogénicas e telegénicas. As Bumbas são reais, são “gorditas”, e fazem bandeira do quanto gostam de comer chocolates/gomas/bolachas/outra comida qualquer “proibida” quando és mulher - mas serão mesmo? Não são, meus amigos. Porque — ai Jesus! — se uma mulher fosse realmente gorda e fizesse gala das comidas tidas como não-saudáveis que ela gosta de comer, isto saltavam logo das profundezas dos infernos os nutricionistas de bancada, que horror, mulher, olha pela tua saúde, mas agora vais ser uma gorda comediante?! Não sabes que só os teus colegas homens é que podem ser gordos, desleixados, exibir abertamente que gostam de ir a rodízios de picanha, vestir-se mal, tornar público que têm problemas de saúde derivados do seu estilo de vida sedentário, sem que isso os faça perder público ou ser criticados?! Juízo!
À parte as suas formas, comecei-me a afastar do estilo humorístico das Bumbas porque o texto e a sua entrega começam a ser um bocadinho parolo a mais para o meu gosto. É muito vozinhas inflexadas; é muito dobrar as palavras para lhes dar uma entoação tolinha engraçadota; fora quando sacam sempre da algibeira a punchline auto-depreciativa mas para mostrar que são super cool apesar da depreciação: ou é porque são “pobres” e não “betas”; ou porque são da Zona X; ou porque não têm jeito nenhum para coisas “de gaja”; ou porque têm aqui na testa uma borbulha e o braço flácido; enfim, e por aí a fora, acho que deu para perceber…
Portanto, quer sejas Baddie estilosa assumidamente bonita e escrava dos padrões de beleza, ou uma Bumba mulher real “desajeitada” que curiosamente continua bonita e num tamanho de corpo socialmente aceite, nunca estás livre da performance feminina a que todas estamos sujeitas. E estou numa fase em que não me identifico com nenhum dos espectros. Eu só queria ver mulheres normais, mas já desenvolvo isto mais à frente, primeiro tenho uma última categoria para apresentar.
As Correctas
Costumo notar a presença no espaço mediático - sobretudo digital - de mais um tipo de mulher, próxima das Bumbas, mas talvez mais contida na sua expressão dramática, digamos assim. São mulheres também reais, também relatable, no entanto, carregam consigo uma postura tão impecável, tão clean e tão imaculada que dão a volta e só as consigo achar aborrecidas. Ai, miga, sabes bem como eu adoro ir ao Aldi comprar lá aqueles iogurtes que eles têm - num tom tão cordial, tão miguxo cutxi-cutxi que me enjoa, vou ser sincera. Mais uma vez, onde está a normalidade? O corriqueiro e o coloquial?
É aqui chego ao cerne da questão: eu ADORAVA ver mulheres a conversarem umas com as outras de forma descontraída e à-vontade. Adorava que pudesse haver episódios de podcasts de conversa de café com três amigas, em que uma até vai de boné da SIC, em que brincam umas com as outras e dizem palavrões porque realmente falam assim, e não pela performance - seja a super cool, seja a desastrada, seja a correcta. Por que é que as mulheres nunca podem estar livres deste maldito olhar que exerce sobre nós tanta pressão para estarmos em constante personagem? Por que é que não podemos só existir?
Excepções
Claro que isto pode ser tudo um grande exagero porque, para ser honesta, eu de facto não acompanho assim tantas mulheres do humor, caso não tenha ficado evidente até agora. Portanto, até me podem estar a passar ao lado mulheres que encaixam nestes meus critérios. Uma há, pelo menos - a Luana do Bem.
Talvez por ser uma mulher lésbica e, por isso, estando “fora” daquela expectativa heteropatriarcal do que é “ser mulher”, a Luana acaba por ter a postura aproximada daquilo que eu tento explicar aqui como “normal”: é só uma miúda a falar dos seus temas, de forma engraçada, na mesma com os seus trejeitos e a sua quirkyness, e também com a sua apresentação pública bem cuidada (a “estética”, como os humoristas gostam tanto de dizer) (ela fez uma photoshoot para a GQ - hello!), sem nunca parecer que está sob o manto da Performance Feminina. Não consigo explicar melhor, espero que desse lado consigam perceber o que quero transmitir, pois isto é tudo uma questão de vibes, no fundo.
Este ano, fui ver o solo da Luana e adorei! Ela fala de particularidades da sua relação, com ângulos acidentalmente revolucionários (no episódio do Ar Livre em que ela foi convidada, o Salvador notou e bem que ela foi a primeira humorista-mulher em Portugal a chegar a palco e proferir a frase “a minha namorada (…)”), incluindo as particularidades da sua saída do armário; falou da relação com a avó; falou de fumar; falou de adorar reality shows; enfim, falou de tantas coisas sem nunca mostrar de forma evidente e fabricada uma persona de palco. Mostrou-se artista, claro, mas mostrou-se genuína, como os colegas-homens têm o privilégio de se mostrar.
Em jeito de revista, talvez por isto eu também me tenha afeiçoado à Joana Marques. Gosto da Beatriz Gosta, entra na categoria das Personas Assumidas que não tive vagar de explorar aqui, mas onde encaixo igualmente a Bruna & Mia, por exemplo. Em termos de personalidades femininas públicas, com graça e sem andar a passar paninhos quentes e a fingir ser algo que não é, acho que a Pipoca continua imbatível (sorry not sorry!!!).
A Mulher 2025
Às vezes pergunto-me se o meu texto chegou à baila do PTM (acho que não, mas gosto de pensar que sim), porque a verdade é que, desde que o escrevi, já lá têm aparecido mais mulheres, incluindo alguns nomes que tinha deixado da lista. Um belo dia, o Pedrito convida para fazer vez de side kick a Inês Rogeiro e, quando começo a ouvir a conversa, dou por mim a ficar cada vez mais maravilhada com a convidada. A Inês Rogeiro é tão, tão, tão fixe! Ela está ali, conversa com ele num tom de uma pessoa normal, é engraçada, é pertinente, tem opiniões interessantes e, de um modo geral, aparece de igual para igual. Não está em persona nem fala com vozinhas tolas, está como é. Gostei tanto dela que dei por mim a acompanhar com mais interesse os episódios onde ela aparecia, em detrimento de outros. Entretanto, ela já fez umas participações no Irritações (acho que lhe deviam dar lugar permanente!!!) e já lançou um podcast próprio, que ainda não ouvi. Mas sim, foi ela a personalidade pública que mais gostei de “conhecer” este ano.
Em jeito de conclusão, quero dizer que estou feliz e contente de ver mais mulheres a subir a palco para fazer comédia, e a assumirem-se como humoristas. No entanto, acho que não é só por serem mulheres que estão isentas de críticas ou que sou obrigada a adorar independentemente de tudo. Quero muito acompanhar mais carreiras de mais mulheres comediantes, só que têm de aparecer mais estilos, mais posturas, diferentes textos e ângulos. Por vezes dou por mim a pensar se não estarei a ser demasiado exigente, ou se estou enviesada para me permitir gostar mais dos conteúdos dos gajos, mas acho que não é por aí. O que me atrai em muitos dos comediantes homens da nossa praça é, precisamente, a descontração e o à-vontade com que aparecem e falam entre si. Só queria isso para nós: liberdade absoluta para sermos realmente genuínas.









O primeiro parágrafo podia ter sido eu a escrever, passei muitas horas no Sapo Vídeos nessa idade.
Já agora, a primeira mulher no humor que me fez pensar “eu gostava de ser amiga dela” foi a Rita Camarneiro, no 5 para a Meia-Noite.
Também sinto esta dificuldade em encontrar mulheres no humor. Não aguento as corretas, pelo simples facto de que têm o conhecimento, mas depois acabam por não relaxar e ser descontraídas. Sem dúvida de que a Mia e a Bruna são as mais relatable na forma de falar e de se expressar. Ficam sempre à beira da água