Stop the binge!
A minha relação problemática com as séries de conforto.
Lembro-me de ter sido graças a um episódio d’O Homem Que Mordeu o Cão que ouvi falar da série Gilmore Girls. Se calhar já tinha ouvido antes, eu desconfio que não, porque o Markl apresentou-a como sendo “a mítica série dos anos 90 que retratava uma bonita relação de mãe-filha” e eu achei encantador, e ficou-me na minha lista mental para eventualmente ir ver.
Não sei situar temporalmente quando é que isto aconteceu, mas consigo facilmente transportar-me para o início de 2017. Entrei nesse ano a despedir-me, definitivamente, do meu primeiro trabalho. Tinha tido uma experiência horrível em agência e queria, agora, ir trabalhar in-house. Consegui trabalho na sucursal portuguesa de uma seguradora que, tendo encerrado a sua operação em Portugal, continuava aqui com o centro de tratamento de dados. Foi o meu primeiro e único trabalho 200% corporate culture: tinha de andar com a credencial ao pescoço; havia “protocolos” para marcar salas de reuniões; tudo era tratado por e-mail; eram 200 pessoas naquele piso, a trabalhar naquela empresa, entre empregados internos e externos. Eu, uma jovem de 22 aninhos a ir para 23, tinha agora um estágio para tratar da Comunicação Interna, inserida no departamento de Recursos Humanos. E tinha uma chefe bully, como descobri passadas poucas semanas de ali estar.
Não me quero alongar na exposição do que foi a minha passagem naquela empresa, basta ter em mente o seguinte: entrei ali fugida da minha desastrosa primeira experiência profissional, tinha uma chefe bully, e o escritório ficava a mais de 1 hora de transportes da minha casa. Durante 11 meses, 11 longos e míseros meses, a minha vida foi ir para aquele trabalho.
A dada altura, não sei bem porquê, veio-me à memória a voz do Markl e a menção às Gilmore Girls e decidi começar a ver a série. Lembro-me de, também, ter sido nessa altura que comecei a ver The Office (US Version).
O mundo das Gilmore Girls apresentou-se como um cobertor quentinho que nos aconchega num serão frio. A cidade era encantadora, as personagens eram castiças, a Lorelai era um charme e a história super fofinha. Era perfeito. Tudo naquele mundo era perfeito, contrastando com o meu mundo, o mundo em que tinha de acordar cedo e fazer o longo percurso até aos Olivais, fantasiando cenários em que o autocarro onde ia tinha um acidente eu precisava de ficar de baixa prolongada, sem precisar de ir ao escritório nem de trabalhar.
A dada altura, o que acontecia era isto: eu chegava a casa, ao final do dia, e deitava-me na cama a ver Gilmore Girls. Depois ia jantar. Depois de jantar, deitava-me na cama a ver Gilmore Girls e The Office. Porque, naquele par de horas em que deambulava entre essas duas séries, o meu cérebro desligava-se. As minhas preocupações, a minha frustração e a dor que eu vivia no dia-a-dia ficavam dormentes. Só tinha de olhar para o ecrã e ver a história a desenrolar-se. Episódio seguinte. Episódio seguinte.
Eventualmente, saí desse trabalho. Não me recordo se cheguei a terminar a série nessa altura ou se retomei mais tarde. Mas foi o ano de 2017 e as Gilmore Girls que me fizeram perceber uma coisa: quando eu não estou bem, quando as circunstâncias da minha vida não me estão favoráveis, eu acabo o dia deitada na cama, imersa numa série de ficção de conforto.
Há dois anos, talvez, aconteceu-me o mesmo com as Golden Girls. Mais recentemente, estava a acontecer-me com Charmed. Algures nos idos de Outubro para Novembro percebi que estava, mais uma vez, a viver os dias à espera do quentinho da cama e do aconchego da série. E, quando dava por mim a clicar no “Episódio Seguinte” em vez de desligar e ir ler, percebi que não estava bem. Felizmente para mim, isso coincidiu com algumas mudanças positivas que me trouxeram um novo alento e estou melhor. Salvei-me a tempo.
Bom, mas o meu binge-watching não se cinge a períodos mais depressivos. Às vezes está tudo ok, no entanto, por ter descoberto uma série que já está terminada, acabo por ficar um tanto obcecada e não vejo mais nada sem ser isso até chegar ao fim (cof cof, ter visto The L Word no final do Verão, cof cof). Ou seja, se levar semanas, meses, a terminar uma série, só vejo aquilo e passo ao lado de outras coisas que também poderia gostar de ver.
Em suma, o meu binge-watching tem estas duas facetas negativas: em primeiro lugar, é um sinal de alerta de que algo não está muito fixe comigo; em segundo, priva-me de ver outras coisas. Aproveitando que me encontro numa fase melhor e mais estável, quis começar a contrariar isso. Alguns planos já implementei, outros ainda estão por implementar, mas agora é assim que vou (tentar) lidar com as séries:
Ter mais do que uma série para ver
Ficar vidrada numa só série é terrível para mim, porque me deixo mergulhar naquele universo e às tantas sinto-me parte do cenário, alheada de mim própria. Para contrariar isso, vou passar a ter duas séries diferentes para ir vendo.
No final da semana em que estou a escrever, estreia a segunda temporada de Severance (estou completamente em pulgas!!!!!!!!!!!), então, aproveitei para, ao longo destes dias, ir revendo a temporada 1. Via um episódio de Severance e um de Charmed e foi muito mais interessante, além de ir fresca para a nova temporada. Agora, estou a rever Arcane pelo mesmo motivo, para ter uma série a mais para ir vendo e começar a segunda temporada com a história mais presente.
Não ver séries em dias de gym e ficar antes a ler
Tinha este hábito com o Yoga, porque ficava despachada do banho e do jantar para lá das 22h30 e já não me valia a pena ligar o computador para ver nada. Entretanto, como chego do ginásio mais cedo, lá ia eu olhar para uma tela mais uma horinha. Quero contrariar isso e, se só ficar despachada do jantar às dez e tal da noite, ir antes ler um livro. Além de poupar os olhos ao ecrã, permito-me mergulhar noutros universos e contribuir para ler os livros mais celeremente.
ao Domingo à noite, ver um filme
Tenho conta na Filmin há mais de um ano mas, vergonhosamente, uso-a muito pouco. Porquê???? Eu adoro cinema de autor!!! Eu adoro o catálogo da Filmin!!! Por isso, decidi dedicar o domingo para ver um filme da Filmin (ou doutro lado) em vez de ceder ao conforto do binge-watching da série-do-costume.
Para tornar isto divertido, decidi que vou explorar o catálogo e decidir, no início do mês, os quatro filmes que vou ver nos domingos. Uma espécie de Crónica Lunática Film Festival.
Mulholland Drive: esta semana faleceu David Lynch e percebi que nunca tinha visto nada da obra do realizador. Está este título na Filimn, portanto siga.
Lobo e Cão: é recente no catálogo e gosto de espreitar o que se faz de nacional. Espero gostar porque a premissa é muito interessante.
Pronto, por enquanto é isto. Nada do que escrevi são regras intransponíveis. Eu queria ver um episódio de Severance por dia, para terminar a tempo da segunda temporada, mas dei por mim tão entusiasmada com a revisão que cheguei a ver dois episódios e acabei mais cedo. Num domingo em que não me apeteça mesmo ver um filme, vejo outra coisa. Se chegar cedo do gym e quiser espreitar um episódio de algo, que seja. O ponto não é obrigar-me, agora, a um regime autoritário de algo que serve para entretenimento. É mais para me ajudar a não cair no binge-watching problemático. A fazer-me variar as séries e filmes que vejo de modo a não usar cenários fictícios como bálsamo diário para momentos menos bons.
Se gostam de séries e as vêem com moderação, poderão gostar de ler:







Gostei da reflexão e fico feliz que tenhas percebido um padrão e o estejas a tentar contrariar, mas fiquei vidrada na ideia de que a relação mãe-filha das miúdas Lorelai é fofinha. Pessoalmente, eu, que só comecei a ver a série este ano, acho que é tóxica. A Lorelai mãe não se porta como mãe e a Lorelai filha acaba por ter de gerir imenso as emoções de quem devia gerir as suas.
O que é verdadeiramente insano é a forma como começam a ser feitas séries para as pessoas "desligarem" - tipo emily in paris. Aí é que há mesmo uma intersecção entre capitalismo, entretenimento e escapismo. Ao menos as séries que falaste são feitas para serem mesmo vistas.