Sugestões de cenas
Terei eu algum hobbie para lá de media consumption?
Tal como vos tinha prometido a semana passada, hoje trago-vos as coisas que fui descobrindo e que quis guardar para trazer numa newsletter. A verdade é que adoro partilhar estas recomendações de séries, filmes, livros, etc., porque, do alto da minha arrogância saudável, eu considero que tenho bom gosto e que as minhas sugestões são boas. Portanto… se não as seguem, não tenho culpa, depois não se queixem de que não vêem nada de jeito. 😛
Sem mais demoras, vamos lá. Hoje trago-vos uma série, um podcast e um YouTuber.
série: Insecure (HBO Max)
Andava órfã de séries já depois de ter acabado não sei bem o quê, ou porque não me apetecia ver nenhuma das que tenho em mãos, e fui novamente ao Google pesquisar o que ver. Parece ridículo, mas já encontrei muito boas sugestões assim. A minha pesquisa foi, precisamente, séries similares a GIRLS e, como resultado, apareceu-me esta Insecure.
Insecure pode parecer GIRLS mas, ao mesmo tempo, não tem nada a ver. Acompanhamos, igualmente, a vida de quatro amigas (com especial foco na nossa protagonista Issa) mas as semelhanças ficam por aí. Eu fiquei logo agarrada desde o primeiro episódio, já que a série começa no 29.º aniversário de Issa (hello!!!! é a MINHA idade), sendo que ela está infeliz no seu relacionamento, infeliz no trabalho, infeliz na vida no geral e prestes a dar muitos trambolhões e a cometer muitos erros. No jantar de aniversário conhecemos, ainda, a Molly, a sua melhor amiga. A Molly é uma advogada workaholic, está solteira e começa a série embrulhada no caótico mundo do dating.
Ao longo das cinco temporadas, vamos acompanhando estas duas amigas (e as outras, num papel mais secundário) enquanto navegam na complicada idade do final dos 20s e início dos 30s. Os episódios, embora curtos, estão cheios de emoção e a série fez-me rir, fez-me chorar e, não poucas vezes, deixou-me mergulhada nos meus próprios sentimentos. Sabem quando as personagens passam por situações que vos fazem remexer em feridas que não estão bem curadas, e depois ficam com um amargo que se prolonga quando desligam a série? Foi mais ao menos isso. Mas foi bom!
Não se deixem desanimar com isto: a série está muito, muito engraçada. Adorei que retratasse precisamente os 29-30s, já que muitas vezes as séries focam no começo da vida adulta. Ver a Issa, aos 29, a questionar o trabalho e a carreira, e a começar de novo foi catártico. Mostra-nos que nunca é tarde de mais para mudar de rumo. Além disso, a série mostra-nos os erros que elas cometem e as atitudes questionáveis, trazendo-lhes humanidade numa era em que todas as personagens têm de ter uma moral exímia e irrealista.
Curiosamente, ainda não toquei num ponto fulcral: as nossas protagonistas são todas afro-americanas e a série é muito centrada nas vivências da comunidade negra jovem adulta. Ainda não tinha mencionado porque, com tanta coisa espetacular dessa série, não me parece justo reduzi-la a mais uma série-com-questões-raciais. Ao mesmo tempo, não há como evitar e, como é óbvio, há momentos em que a etnia é a protagonista. Gostei de ver esses temas escritos e interpretados por pessoas negras, até porque nos trouxe, além do aspecto racial, outras condicionantes do foro socioeconómico que são interessantes para quem consiga apanhar as dicas.
A série passa-se em Los Angeles e, embora tenha gostado dessa mudança de cenário e de conhecer melhor a cidade, deu para perceber que não é para mim e que continuo a ser uma nova-iorquina de coração. Porém, contudo, enquanto pessoa citadina, foi interessante de acompanhar mais um processo de gentrificação e de ver a comunidade local a tentar resistir a isso. É impressionante como são sempre os mesmos problemas, em todo o lado, ao mesmo tempo.
Última nota que me lembrei ao editar o texto: a banda sonora da série é espetacular e um deleite para quem gosta de hiphop & o figurino é incrível, passei os episódios a admirar muitos dos outfits das meninas.
podcast: Livros da Piça
Já tinha ouvido falar dos Livros da Piça, o podcast do Bruno Henriques e do Sérgio Duarte (a dupla por detrás do Jovem Conservador de Direita), mas ainda não lhes tinha dado uma hipótese. Pois bem, com o fim do campeonato (😒), perdi o interesse nos podcasts da bola e aproveitei para descobrir a versão tuga do If Books Could Kill.
Comecei por dar play ao episódio do livro P’ra Cima de Puta, da Cristina Ferreira, mas cheguei ao meu destino antes de eles começarem a falar dessa obra e depois perdi onde ia no episódio. Graças a isso, quando voltei aos Podcasts, chamou-me a atenção o título “Profissionais da Noite”, de João Pina e… oh, meu Deus! Oh!! Meu!!! Deus!!!!!!!! Ouçam. Ouçam só. Acabem de ler isto e façam play e venham-me agradecer depois.
Ok, muito resumidamente, “Profissionais da Noite” é um livro de memórias (eeerrr…) de João Pina, um homem que foi, entre muitas coisas, dono de uma boîte e figura conhecida da noite Algarvia nos anos 70 e 80. Neste livro, ele fala um pouco do que eram esses tempos, o que é gerir uma casa de alterne (sim) e faz-nos um retrato, à sua maneira, do mundo da noite, da droga e da prostituição. Isto dito assim parece coisa séria e pesada, mas contado pela voz de um marialva com pouca noção das suas contradições torna-se simplesmente HILARIANTE.
Eu ri-me mas a bom rir, eu fui às lágrimas de riso com esse episódio. A melhor parte é que o livro é tão rico em absurdez que eles tiveram de fazer não um mas DOIS episódios sobre o Profissionais da Noite. E, melhor ainda, além desse livro, o autor escreveu outro que os nossos amigos já tinham apresentado noutro episódio, o Dor de Corno, livro de João Pina sobre a solidão masculina e a sua dificuldade em navegar na vida sem a companhia de uma mulher. João Pina, o nosso incel original?!??! Dêem play para saber!
Além dos episódios do João Pina, recomendo igualmente o episódio sobre o livro do Fernando Madureira, mais conhecido como o Macaco, líder da claque dos Super Dragões. Episódio igualmente cómico e que também me fez rir no meio da rua. Depois, o episódio sobre o afamado Poeta da Cidade é outro que vos deixo para cuscarem.
Às vezes sinto que vivemos em tempos de absoluta estupidez, em que já não podemos criticar coisas objectivamente fracas e más, como livros de merda, sem que apareça alguém a dizer que é snobismo, ou que não se pode falar mal porque as pessoas têm o direito a gostar. E, por isso, sinto que este podcast advoga pelo direito a ser hater - algo que tenho andado a pensar. Além disso, eles fazem o trabalho humanitário de ler os livros que todos temos curiosidade de saber mais sobre, mas que não queremos perder tempo de vida a ler porque, vocês sabem, são livros da piça.
Ouçam o episódio dos Profissionais da Noite. A sério.
YouTube: Alexander Avila
Com a pandemia e o passar mais tempo em casa descobri e rendi-me aos video essays. Imaginem a minha surpresa quando percebi que há mais YouTube para lá dos vídeos de makeup e de recebidos do mês… Vou acompanhando diversos YouTubers, eventualmente posso fazer uma newsletter a mostrar-vos os meus preferidos, porque meto os vídeos a dar enquanto estou a tricotar ou a fazer crochet. Adoro! E foi assim que fui descobrindo muitos criadores de conteúdo interessantes. Os meus preferidos são os que falam de temas da net, ou filosofia/política de forma teatral, ou ainda os que pegam em fenómenos de cultura pop precisamente para fazerem análises filosóficas e políticas. Foi assim que descobri o Alex Avila, um rapaz trans que me chamou a atenção com um vídeo sobre como a Hannah Montana é um guia para a vida no capitalismo - conseguem resistir a isto? Eu não consegui.
O Alex é carismático, muito inteligente e engraçado. Adorei a estrutura dos vídeos, do cenário à edição, passando pela banda sonora. Numa altura em que nos domina uma estética clean e muito monocromática em tons greige, atraio-me sempre por quem vai buscar tons mais quentes, uma aura vintage e um jazzinho de fundo.
Para os swifties de serviço (e não só), o Alex tem igualmente um vídeo onde faz uma análise detalhada à carreira da Taylor Swift. Gostando eu moderadamente de Taylor Swift, achei na mesma o vídeo interessante porque me deu a conhecer as suas origens e a perceber mais do fenómeno em si.
Depois, também já vi o vídeo que ele faz sobre os homens e feminismo, que tem uma análise muito interessante sobre o problema da socialização das crianças para papéis de género rígidos. O vídeo fica ainda mais interessante e enriquecido porque, sendo o Alex uma pessoa trans, consegue trazer-nos a perspectiva dos dois lados da moeda: o que foi crescer sendo percepcionado como uma menina e o que mudou quando a sociedade o começou a entender como homem.
Se gostam de YouTube e video essays, dêem uma espreitadela ao canal do Alex.
E pronto, foram estas três coisinhas que descobri recentemente e adorei a ponto de querer partilhar convosco. Tentei mesmo manter tudo conciso, mas depois começo a escrever e nunca mais me calo… Se seguirem alguma das sugestões, espero que gostem!
Aproveito e deixo aqui outras publicações onde sugeri coisas para verem/lerem/ouvirem:
E até para a semana,
Rafaela
P.S.: estou a escrever a newsletter no sábado, o dia do meu corte de cabelo, então ainda não tenho feedback do corte, estou só muito entusiasmada por saber que faltam menos de duas horas para ir ao salão. Aaaaaaaaah!!!






