Troikacore
Um retrato do tempo mais negro já vivido em democracia.
Foi em 2010, meros dois anos após a grande crise financeira global de 2008, que o Governo de José Sócrates - já sem a maioria absoluta - começa a implementar os seus Programas de Estabilidade e Crescimento (PEC), de forma a tentar controlar as contas de Portugal. Vai PEC I, vai PEC II, vai PEC III… cada vez com medidas mais austeras e sem grandes resultados. Quando, em Março de 2011, José Sócrates anuncia o infame PEC IV, numa última tentativa de controlar os danos antes de se chamar a ajuda externa, este é chumbado no Parlamento e Sócrates demite-se imediatamente. Portugal acaba por ter de recorrer à ajuda externa e, em Abril de 2011, chega a Lisboa a Troika: a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional, para pôr ordem aqui no barraco.
Em Junho, com as eleições antecipadas ganhas pelo PSD/CDS, entramos oficialmente no Programa da Troika. Graças a um novo primeiro-ministro jovem, bem-parecido e muito ambicioso, o nosso governo decide ir além da Troika e inaugura-se assim o período mais negro que alguma vez me lembro de ter vivido. Pedro Passos Coelho é implacável na sua governação e não deixa margem para dúvidas: os portugueses estão a viver acima das suas possibilidades. Em jeito de revista, algumas das coisas que aconteceram neste período: corte brutal na despesa pública, com cortes de salários e subsídios na função pública e também nos pensionistas; aumento generalizado dos impostos, como o IVA que passou dos 21% para os 23%; encerramento de diversos serviços, como Centros de Saúde e escolas; cortes nos transportes públicos mas com aumento de tarifas; privatizações de empresas estratégicas, vendidas ao desbarato, como a PT, TAP, CTT, ANA, REN…; flexibilização das leis laborais, facilitando o despedimento; cortes nos feriados e dias de férias.
O resultado? Enfrentámos o pico do desemprego no nosso país, com uma taxa de 16,3% de desempregados1. Nos jovens, este número dispara para 35,7%. Sim, mais de 35% dos jovens deste país estavam desempregados. O ordenado mínimo esteve congelado nos 485€ mensais entre 2011 e 2014, isto num país em que o passe social podia facilmente custar mais do que uma centena de euros, na altura. Fora o clima pesado e obscuro que se viveu, o aumento do número de pedidos de ajuda junto das instituições sociais, o aumento de pessoas a mendigar nas ruas e nos transportes, e uma sensação de medo (do desemprego, da crise…) generalizada. Foi terrível, mesmo.
No entanto, praticamente uma década depois, já conseguimos ter uma certa distância em relação a tudo o que se passou e apercebi-me de algo engraçado. Ou, vá, tragico-cómico: entre 2011 e 2014 passámos por tantas tormentas que acabámos por viver uma data de fenómenos muito específicos daquela época, numa manifestação socio-cultural que eu baptizei de Troikacore.
Fui-me apercebendo disto aos poucos, e começou quando há uns tempos passei por um Honorato e exclamei “oooh! um Honorato!”, com uma certa nostalgia por estar diante tamanho ícone de um determinado tempo. Este ano, com o agravar do cenário político, começo a ter flashbacks de coisas que já vivi. Depois, em Maio, li o Sinais de Fumo, do Alex Couto, que se passa igualmente durante os anos da Troika e foi o sinal que me faltava para pôr estas ideias cá para fora.
comer menos bifes
A palavra que descreve este período é, sem dúvida alguma, austeridade. Os Portugueses viveram sob uma austeridade radical que nos deixou a todos na penúria. No entanto, havia uma certa moralidade imposta e era assim que o próprio governo comunicava: a puxar bem às nossas raízes católicas, havia um tom de culpa, afinal, andámos a viver à grande e acima das nossas possibilidades. Quem não se recorda da célebre frase de Isabel Jonet, Presidente do Banco Alimentar, quando diz que “se não temos dinheiro para comer bifes todos os dias, não podemos comer bifes todos os dias”?2 Aliado a todo o restante clima de terror, nomeadamente o desemprego e a crise do subprime, uma das principais características do troikacore é a noção de que se podia, muito facilmente, ficar desempregado e perder a casa. Ah, Rafa… Que horror, isso não foi nada assim!
Ai, não? Então expliquem-me como é que, em plena telenovela da TVI, se tem um plot de um casal em que o marido fica desempregado, eles perdem a casa e têm de se mudar para a casa da sogra? Isto foi de tal maneira uma realidade portuguesa que apareceu numa novela da TVI! Mas este não é caso único de novelas que espelham o troikacore, como veremos mais adiante.

fuga de cérebros
Com o desemprego em altas, o que é que o nosso querídissimo primeiro-ministro diz aos jovens do seu país? Que estes não podem esperar que o Estado lhes faça tudo, não é? Temos de ser menos piegas! Ora, é preciso sair da zona de conforto… E que tal emigrar? E foi assim que grande parte dos nossos jovens recuperou uma tradição de décadas com novos contornos: emigraram como sempre, mas eram qualificados como nunca. Foi desta forma que Portugal viu sair uma data de licenciados, mestres, doutorados… naquilo que ficou apelidado como “fuga de cérebros”3. Surgiram programas como o “Portugueses pelo Mundo”, na RTP, com o propósito de mostrar como agora a emigração era modernaça. Não há cá mais os avozinhos analfabetos a servir os senhores lá na França, contando os dias até Agosto para virem à terra. Agora os avecs estão integrados e são super cool, como se vê nestas pequenas reportagens em que o emigrante passeia pelas diversas cidades como se fossem a sua cidade. Jovem, vê lá se não queres ir para a Holanda? Isto o melhor é ir “pra fora”! Aqui não se vai a lado nenhum! - tudo mantras troikacore - sim, que se estão a voltar a ouvir nestes últimos tempos.
é preciso bater punho!
Além da emigração, que outra oportunidade espectacular é que nos traz o desemprego? Adivinharam: o empreendedorismo!4 Portugal era uma vergonha… ouçam, uma vergonha! Era tudo um bando de broncos com o 9.º ano, vai daí, pegando no programa Novas Oportunidades, começado pelo nosso ex-PM Zé Socas, começa-se a incentivar à formação profissional, ao empreendedorismo e à criação dos negócios próprios, chegando a uma das minhas partes preferidas do troikacore: o empreendedorismo louco + a hipsterização dos espaços + um pseudo-êxodo urbano que não aconteceu propriamente.
Começando por este último, com a vida na cidade tão cara, que tal começar um negócio no interior? Isto foi mais uma ideia do que um acontecimento, mas conta para aqui porque é 100% troikacore: a noção de ir à procura de algo melhor, juntando um patriotismo bacoco que também nos rondou por estes anos, indo buscar o melhor de Portugal: os nossos vinhos, os biscoitos e a doçaria, as compota, aquele artesanato mixuruca de cortiça, etc., e abrindo uma empresa porque agora somos todos empreendedores e faz-se uma Empresa na Hora… no campo! Isto aconteceu? Não! Foi culturalmente relevante? Bom, a RTP inventou uma novela chamada “Bem-vindos a Beirais”, a novela mais troikacore possível e imaginária, portanto vou assinalar. Vejam bem esta sinopse:

A busca pelo empreendedorismo estava tão em altas que houve gente que achou espectacular a resposta do Martim das t-shirts à Raquel Varela, naquele mítico Prós&Contras, quando ela questiona se ele acha bem pagar apenas o salário mínimo às empregadas da fábrica, e o puto diz - bem troikacore - que mais vale receber o mínimo do que estar no desemprego.
👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏
Porra, Martim das t-shirts!! Como é que não me lembrei dessa?! Génio! Tenho em crer que foi aqui que nasceu a IL.
Mas nem só de pequenos negócios falhados se fez este período… A crise era global e a resposta também. Com a entrada nos anos 10, surgiu uma nova estripe de urbanóide: o jovem hispter. Filho desta recessão, o hipster precisou de se reinventar, porque a fórmula clássica estudar → trabalhar → ter a vida adulta começou a falhar. Vai daí, inventa uma nova maneira de vestir, com roupa vintage e em segunda mão (quem é que tem dinheiro para comprar roupa nova?!); abre uma barbearia moderna, porque é empreendedor e tirou a formação de barbeiro no Novas Oportunidades; interessa-se por produtos de nicho, tipo a cerveja artesanal, quem sabe a piscar o olho à exportação (mais empreendedorismo); entra aqui numa mentalidade de renovar e aproveitar os espaços, man… Porque há mística, há estética, há formas de reaproveitar o que já temos de tão bom.
No entanto, se o Joel consegue facilmente tirar a formação de barbeiro e abrir uma barbearia nova no bairro, para reinventar espaços antigos é preciso os Big Guys e os seus Big Bucks. Começamos então a namorar os princípios da gentrificação, manobrados por grupos económicos mas a fingir que somos todos o Joel, vítima da Troika, que só se quer reinventar. Aparecem as famosas hamburguerias gourmet, tão típicas desta fase que são uma caricatura em si mesmas, são um meme:
Reinventamos os espaços e inventam-se dois grandes ícones troikacore da cidade de Lisboa: a LX Factory, em Alcântara e o Time Out Market, no Mercado da Ribeira. Se o primeiro começou, em 2008, como tentativa de dar uma nova vida ao espaço e refúgio para pequenos negócios e artesãos, depressa se tornou o chamariz para hamburguerias gourmet, sushi, lojas dos 300 overpriced, “concept-stores”, Brigadeirias e Bolo-de-Chocolaterias, entre outros que já ninguém se lembra porque já ninguém vai à LX Factory. A sério. Lembram-se quando aquilo era o pináculo do cool? O “Time Out Market” é de um troikacore mais clássico, já que funde o empreendedorismo reabilitador de espaços icónicos porém negligenciados + uma neo-portugalidade do tal patriotismo que mencionei acima “ai os nossos mercados tradicionais, tão pitorescos, tão lisboetas, tão antigamente… bora espetar aqui meia dúzia de restaurantes overpriced em clima de cantina - que moderno, que inovador!”
Enfim. Conseguem perceber a minha visão? É ou não é Troikacore?
a cantiga é uma arma
Por último, não quero deixar de assinalar outro lado deste período: a forte contestação social. Ok que os Portugueses são mansos, mas há limites. Foi nesta altura, por exemplo, que se deu uma das maiores manifestações de repúdio ao Governo que alguma vez existiu, na chamada Manifestação Que se Lixe a Troika5. Estima-se que cerca de 1 milhão de pessoas saiu à rua em todo o país, nesse dia, contra as medidas da Troika e do governo de PPC.
Numa nota mais leve, foi engraçado notar que os tempos estavam tão negros que os nossos artistas reinventaram a Canção de Intervenção. Então, sim, o troikacore também tem banda sonora. Entre os bops deste período, destaco a Sexta-Feira, do Boss AC (de 2012 e que continua actual) e o Parva Que Sou, dos Deolinda (de 2011 e que continua actual). Se não fosse a Troika e estes anos negros, não teríamos os Homens da Luta nem os tínhamos levado à Eurovisão para cantar A Luta é uma Alegria.
Haveria muito mais a falar e muitos outros pormenores caricatos deste período para explorar, mas deixo aqui este apanhado que já vai longo. O troikacore foi, definitivamente, uma cena. E preocupa-me porque está a voltar, mas com outros contornos e de formas mais sinuosas, possivelmente com outros desfechos. Depois deste período da Troika, a Esquerda tinha maioria parlamentar e entrámos na era da Geringonça (sdds), voltou o optimismo e houve um aumento do rendimento das famílias.
Agora, sinto que vivemos numa crise escondida, com contornos muito mais negativos, já que o discurso populista inundou o espaço público. Hoje em dia sinto que, se alguém ousasse dizer coisas como “os desempregados passam o dia no facebook” ou “deviam era comer menos bifes”, isso já não gerava tanta indignação. Bastava escolher outra palavra em vez de “portugueses”. Sei lá… “imigrantes”, por exemplo.
É fácil, passados 10 anos, olhar para aquele período como quem relembra um tempo distante, meio tosco em algumas coisas, mas, na sua essência, muito duro de viver. Que fique este registo como lembrete do que foi e, espero eu, não como previsão do que estará por vir.






Adorei este teu texto e não podia estar mais de acordo, mas deixa-me fazer uma adenda com conhecimento de causa: o Time Out Market nasceu em 2014 para resolver um problema, que era a revista Time Out Lisboa ser um franchise da Time Out Londres e portanto precisar de maneiras de sobreviver para além da publicidade na revista. Quando nasceu, o TOM servia para financiar o jornalismo, foi essa a ideia do editor da revista na altura. Mas os ingleses acharam o conceito tão giro que compraram a revista e o mercado (que passaram de franchise e ideia original a subsidiárias, para que os ingleses pudessem replicar os mercados no mundo; agora há Time Out Markets em montes de países). Infelizmente, o TOM passou a ser um negócio por si e não uma forma de financiar as revistas, razão porque agora não há Time Outs em papel como já houve e é praticamente tudo online. Não deixa de ter sido uma ideia troikacore, mas não como a descreves: foi uma forma de poder ter dinheiro para manter a revista e, no fundo, o emprego aos jornalistas que lá trabalhavam.
Este post deu-me PTSD.
Há aqui coisas em que nunca tinha pensado, nomeadamente como o momento que estávamos a passar se infiltrou nas novelas do prime-time.
Gostei muito e até gostava de ver uma parte 2 (não sei se tens material, mas se tiveres não hesites!).