#xatiada*
Um desabafo laboral.
Porra, há dias em que só me apetece reclamar do trabalho, sabem? Aqueles dias em que tudo nos chateia e em que estamos fartos das funções, das rotinas, de ter de responder, de tudo!!! Aaaaaah!!!
O mais engraçado é que eu nem desgosto do meu trabalho per se… Já aqui estou há tempo suficiente para dominar praticamente todos os assuntos e, na maior parte do tempo, o meu trabalho e as minhas funções são bastante chill: verificar documentação, redigir contratos, mandar e-mails e organizar papelada no geral. Não me exige um grande esforço mental nem me esgota criativamente, como acontecia no marketing e na publicidade, por exemplo. No entanto, tendo em conta que fui uma vítima do accidentally became important at work, há alturas em que tenho chatices mais a sério, porque se alguma coisa (eu) falha, podemos ter como consequência não terminar um processo na altura devida (o que, convenhamos, não é uma consequência por aí além. O que é o pior que pode acontecer? A escritura não ser num dia e passar para outro? It’s fine. Não sou neurocirurgiã.)
Ainda assim, há duas particularidades do meu trabalho que me conseguem enervar de forma especial, e é isso que hoje tenho para partilhar.
atender o telefone
Não querendo parecer demasiado leviana, há muita coisa que me aborrece na minha jornada laboral e que eu gostava que fosse diferente. Mas, se eu só pudesse escolher uma coisa, umazinha, um pequeno detalhe, uma mudança mínima para implementar JÁ, era não ter de atender mais o telefone. ODEIO ter de atender a merda do telefone, irra!
Supostamente……… como eu mudei de funções, devia ter mudado de gabinete, saindo do front desk e da tarefa mais chata de menina da recepção: atender a porcaria do telefone. No entanto, obviamente…….., em vez de “mudar” de funções, eu “acumulei” funções, portanto aqui continuo neste híbrido de papéis, na melhor promoção 2x1 que existe: 1 funcionário + 1 salário = 2 funções!
Mas, minha nossa senhora, o quanto me irrita sempre que vejo o visor do telefone iluminar-se, antecipando a melodia dos infernos, tlu-lu-lu-lu-lu-lu-lu, que raiva, meu Deus. Detesto ouvir telefones a tocar! Eu atendo SEMPRE ao primeiro toque - os apresentadores do Show Me The Money ficariam orgulhosos - porque eu não suporto aquele toque. Tlu-lu-lu-lu-lu-lu…. tlu-lu-lu-lu-lu-lu……. tlu-lu-lu-lu-lu-lu….. tocou mais do que uma vez? É porque a menina que atende telefones (eu) não estava lá. Mas leva cinco ou seis toques até alguém se lembrar de ir atender o telefone! Como?! Se aquilo dá mais do que um toque e meio é porque EU NÃO ESTOU ALI!!!! Atendam essa merda!!!
Não tenho paciência, principalmente quando os telefonemas interrompem o meu fluxo de trabalho (das funções novas, lembram-se?) e tenho de estar ali cinco minutos a perceber o que é que o cliente quer, a registar o contacto, a meter no sistema. A sério que ainda tenho de ser EU a fazer isto? Que saco.
intermediação de crédito
Graças às novas funções, eu tive de ir tirar a formação de crédito hipotecário para poder estar habilitada a gerir os processos de financiamento bancário dos clientes. Tudo certo. Era necessário para poder gerir tudo com mais fluidez e, na altura, encarei como uma oportunidade para desenvolver uma nova habilitação porque quem sabe o que o futuro nos reserva, não é? Na altura, contente por ter passado no teste com boa nota, até escrevi um textinho sobre isso:
É verdade que não sabemos o que o futuro nos reserva, mas eu certamente sei o que o futuro NÃO me reserva: trabalhar com intermediação de crédito de forma permanente e/ou exclusiva. Meu Deus, como eu detesto trabalhar crédito!!!!! Está mesmo ali taco a taco com atender o telefone, este com duas agravantes mais penosas: 1. é um trabalho de extrema responsabilidade e muito técnico; 2. faz-me sentir a Christine Lagarde a maior parte do tempo.
Vou clarificar: não me importo, quando o processo tem pernas para andar, de desempenhar a função de pombo-correio (no fundo, é isto o intermediário de crédito: o pombo-correio entre o cliente e os bancos) e agilizar as papeladas para aqui e para ali. Mas chateia-me, aborrece-me, enfade-me e tira-me do sério quando tenho de perder tempo a organizar papelada (os clientes nunca sabem onde ir buscar; nunca mandam tudo o que é preciso à primeira; não sabem descarregar PDFs e mandam screenshots dos documentos via whatsapp; …) de pessoas que simplesmente não têm condições financeiras, face à situação macro-económica que estamos a viver, de ter algum tipo de crédito palpável que lhes dê hipótese de comprar casa. Não suporto trabalhar para coisas que não valem a pena; e pedir uma viabilidade bancária para pessoas que ganham o salário mínimo, têm créditos automóveis e não têm capitais próprios NÃO VALE A PENA!
Eu lamento. Nada contra as pessoas que ganham o salário mínimo (eu), mas, infelizmente, não estamos num tempo em que os pobres têm conquistas materiais e podem ir ao banco em casalinho pedir uma viabilidade na esperança de comprar um T2 para depois se fazer um filho. A menos que queiras, sei lá?, comprar uma ruína na Guarda? Uma casota alentejana a cair de podre? Isso, com os 140.000€ de empréstimo que o banco te concede por especial favor, talvez consigas.
E eu detesto isto porque faz-me sentir uma banqueira sem escrúpulos que olha sobranceiramente para recibos de ordenado semelhantes ao meu e só pensa “patético… quem é que pensas que és para me vires incomodar com pedidos de viabilidade?! Desaparece-me da frente, seu POBRE!”. A ponto de eu ter guardado esta imagem específica para ilustrar os meus desabafos de intermediária de crédito, até já transformei em sticker do whatsapp para facilitar na conversa com amigos.

Fora os meus queridos pobretanas, não suporto quando o processo já está em andamento e depois entram em cena todas as mil e uma chatices e complicações: ora falta um papel (qual papel? o papel!), ora o cliente lembra-se de perguntar uma dúvida que eu não faço ideia de como responder, ora entramos na cOmPLIcAçÃo de preencher os formulários, porque é muito difícil de perceber que é para escrever o nome onde diz “Nome” e assinar onde diz “assinatura”; depois entramos no vai-vem do gestor bancário a dizer-me o que falta, eu a explicar ao cliente, o cliente devolve-me, eu mando para o banco, o gestor responde que afinal falta não sei o quê... Uma moça de recados deste processo infernal - e digo infernal porque assinar um contrato de crédito à habitação, meus amigos, é o mais próximo que estamos de assinar um Pacto com o Diabo.
À semelhança ali do amigo telefone, se amanhã me dissessem que eu já não ia fazer mais intermediação de crédito, acho que chorava de alegria. Pensando bem, ok, admito derrota: em vez do telefone, ficava mesmo feliz era se pudesse largar os créditos de uma vez por todas.
Numa nota mais séria, para fechar, admito que tenho tido alguma dificuldade em expressar a minha frustração laboral mesmo para comigo própria. Como uma espécie de síndrome do impostor mas para a reclamação, sinto como se não me pudesse queixar do trabalho se depois, no final do dia, cá continuo sem procurar alternativa. E ouço uma vozinha na minha cabeça, de tom muito altivo, a lançar-me um “então não te queixes!!!”. Porquê? Será um sintoma de vivermos numa era de escolhas quase infinitas e ultra-higienização moral? Estou infectada de um discurso pseudo-motivador e linkediniano que nos obriga a agir e nos culpa por não estarmos felizes no trabalho? Tornou-se démodé reclamar do trabalho? Tinha ideia que era bastante normal e evidente ao comum mortal.
Acredito que temos direito a expressar os nossos sentimentos, independentemente de agirmos sobre eles ou não, porque são nossos e os estamos a sentir. No caso dos trabalhos, por vezes não é bem uma questão de escolha. Temos mesmo de mamar a bucha. Mas quem sabe o que vem deste quotidiano enfadonho rodeado de móveis de escritório dos anos 90…? Reza a lenda que o Ricky Gervais conseguiu escrever o The Office precisamente graças aos anos que passou num escritório normal, desempenhando funções normais. Da minha parte, ainda longe de escrever uma série de comédia icónica, levam com esta Crónica que espero que vo-… merda, o visor iluminou-se, desculpem, tenho de ir atender o telefone.
*este título não é um erro ortográfico, é meme.






Pelo direito de nos queixarmos do trabalho, mesmo quando gostamos dele. Ninguém aguenta estar em estado de gratidão permanente.
Li este texto enquanto regresso a casa depois do meu primeiro dia de trabalho depois de uma pausa do mundo corporativo (burnout, yey!), e não sei se choro ou se rezo para que ambas possamos um dia escrever uma comédia devido aos nossos anos num escritório.