Estou numa reading slump?!
Problemas das minhas leituras actuais.
Os meus hábitos de leitura são muito rotineiros e limitam-se, na maior parte das vezes, àquele período da noite antes de ir dormir. É o que é. Gosto muito de ler, mas não estou sempre a ler. É um hábito que tenho, como lavar os dentes. Porém, longe de ser aborrecido ou uma tarefa chata, eu gosto de ler - como é óbvio.
O problema é quando a obra que tenho em mãos me está, precisamente, a aborrecer. Aiiiiiiii! Eu já não leio muito por aí além, se nem no momento que dedico à leitura, tenho vontade de lá ir… alguma coisa não está bem. Não costumo trazer para aqui muitas reviews de livros, gosto de as deixar pelo Goodreads. No entanto, estou a precisar de desabafar umas mágoas literárias, por isso cá vai. Com ajuda do meu histórico de leituras, para tentar perceber onde se originou o problema.
a subida até à montanha
Nas minhas férias de Verão, li o Ecologia, da Joana Bértholo. Foi um verdadeiro ARROMBO de livro e uma das minhas leituras preferidas deste ano. Adorei, cinco estrelas. Depois, passei para uma das minhas compras da Feira do Livro, Festa no Jardim e Outros Contos, a colectânia de contos da Katherine Mansfield, editada pela Penguin. Adorei, igualmente! Noutro estilo, como é evidente, mas gostei muito de navegar pelas pequenas histórias, bem como de notar a capacidade que Mansfield tem para descrever tratos sociais peculiares e o horror trágico-cómico do quotidiano - daí não ser descabida a comparação que a tradutora fez, no prólogo, com Maria Judite de Carvalho. Mais umas generosas cinco estrelas.
expectativas demasiado altas
Lembram-se de dizer que comecei a ler o Ecologia nas Férias de Verão? Pois bem, nessas férias trouxe comigo uns quantos livros emprestados pela minha amiga, entre eles o Coisas Ruins, do João Zamith. Tendo eu vindo de duas leituras excelentes, e com tanto hype que a internet estava a dar ao romance de estreia do Zamith, que inclusive é um tipo simpático com quem cruzo caminhos no Twitter, eu própria estava muito expectante para entrar no universo das Coisas Ruins.
Aproveitando que o Verão estava a ficar para trás, quis inaugurar a spooky season com esta história assustadora. Pois bem, vou ser sincera e directa: não gostei. Podia inventar mil eufemismos: não “adorei”; não era o que estava à espera; não me impressionou; ou outra maneira qualquer de adornar o sentimento que se traduz assim: eu simplesmente não gostei do livro.
Resumidamente, Coisas Ruins é uma espécie de Novela da TVI meets The Haunting of Hill House. Temos a família rica-muito-rica (eheh iykyk), aqui apresentada em três ou quatro gerações de homens, todos com nomes muito genéricos: Henrique, Francisco, Ricardo, Miguel. Custou-me muito perceber quem é que era quem, porque o livro não inclui sequer um desenho de uma árvore genealógica. A trama principal acontece porque há um avô que morre, mas esse avô também é pai de alguém, para outros é mesmo só avô, pode ainda ser um bisavô, depende de quem é que a voz narrativa está a falar. Confuso? Exacto.
Este começo novelesco aborreceu-me e fez com que me custasse a entrar na história. Só me comecei a interessar quando começam a aparecer os elementos spooky, e mesmo assim…
Achei a construção das personagens muito superficial, deixando demasiadas coisas subentendidas no não-dito. E não estou a dizer que gosto do recurso básico de explicar tudo muito bem explicadinho ao leitor, não é isso. É apenas por não saber que é suposto perceber triângulos amorosos intensos entre personagens só porque uma delas foi pedir imperiais, e depois voltou para a mesa e os amigos já lá não estavam. É igualmente suposto entender que há um amor muito profundo por concretizar porque duas personagens uma vez estudaram juntas na biblioteca, e depois deram meia dúzia de quecas na casa de uma delas. (????)
Juntando a isto tudo, ao longo do livro temos constantes bicadas e “críticas” à cidade de Lisboa, o que… pronto, ok. E, la crème de la crème, para esconder que está a escrever clichés, o autor constantemente diz, ao longo da narrativa, coisas como “bla bla bla como num filme de terror básico”; “bla bla bla parecia um cliché de filme de terror”. A mim pareceu-me uma forma preguiçosa de lidar com a situação. Ou bem que assumimos o cliché, ou bem que nos esforçamos para inventar algo original. Agora, achar boa ideia este recurso “se eu disser que isto parece um cliché, os meus leitores não vão ficar chateados e vão achar muito engraçado e cómico eheh”…
Bom, escusado será dizer que, a dada altura, dei por mim a ler e a querer acabar este livro por pura embirração. Não quero ser mal interpretada: o livro entretém, consegue divertir, e gostei que tratasse de temas do oculto e do folclore português. Mas… não me prendeu, pronto. Achei fracote. Ainda assim, dei-lhe umas sólidas três estrelas.
limpeza de palato
Pronto, ter estado a ler este livro que achei fraco deixou-me sedenta de livros a sério, daqueles que me arrebatam as entranhas, normalmente escritos por mulheres. Houve um fim-de-semana em que fiquei a passar a noite na casa dos meus amigos e, na manhã seguinte, fui à estante buscar A Paixão Segundo G.H., da Clarice Lispector. Comecei a ler enquanto bebia o meu café e já voltei a sentir coisas. Trouxe-o comigo para continuar a ler. Até que… eventualmente cansei-me deste livro, estava aborrecida de morte. Ainda quero lá voltar, mas já andava tristonha com a minha vida no geral, não me apetecia nada estar naquele rol de pensamentos embrulhados da Lispector.
Fiz uma pausa, lembrei-me de ir ler o primeiro memoir da Lena Dunham e adorei! Sim, já sei que a Lena é polémica, mas eu gosto dela, nada a fazer. Até dei por mim a trazer o kobo comigo para ir lendo sempre que pudesse. Não li muito rápido, ainda assim. Então, enquanto ia lendo, estava a debater internamente se ia voltar à Clarice ou ia ler outra coisa. Sabia perfeitamente que tinha lá em casa o Maina Mendes, da Maria Velho da Costa, também comprado este ano na Feira do Livro. Percebam uma coisa, o ano passado eu li o Casas Pardas e achei a Maria Velho da Costa GENIAL. Estava desejosa de ler o Maina Mendes, para continuar na onda de admiração literária. E… foi diferente. A escrita muito ardilosa, desnecessariamente ornamentada, e depois a prosa muito confusa. Tive parágrafos inteiros em que não percebi nada do que estava a ler. Ainda assim, por respeito à Maria Velho da Costa, quis push through it e continuar. Já passei a barreira das 100 páginas e, neste momento, o livro está a tornar-se mais interessante. Só que, para ser honesta, estou a gostar? Está a arrebatar-me? Ai, Maria… Eu lamento, mas não.1
Que aborrecimento. Tenho uns quantos livros por ler no kobo, talvez vá lá dar uma olhada para tentar encontrar outra coisa mais leve e que me divirta. Tal como partilhei a semana passada, há dois anos terminei o ano com leituras muito interessantes, sobre as quais tinha muita curiosidade. Se calhar preciso de ir passear na minha wishlist de leituras e ir buscar alguma coisa que eu realmente queira ler.
Não costumo ter problemas em dar ghost a livros, abandonando-os quando embirro com alguma coisa. Talvez porque tinha tanta expectativa em relação ao Maina Mendes, está a custar-me pausar um segundo livro em prol de outra coisa. Mas também me custa imenso olhar para a mesa de cabeceira e saber que vou ter ali um serão de narrativa meio confusa que não me vai divertir. Enfim. Talvez mande tudo às urtigas e pegue noutro livro que trouxe emprestado nas férias, o The Signature of All Things, da Elizabeth Gilbert, que só ainda não comecei a ler porque a grossura da lombada me intimidou. No entanto, sei que a escrita da Elizabeth Gilbert é acessível, e o seu City of Girls também é uma das minhas leituras preferidas deste ano.
Desconfio que isto me está a deixar em baixo porque vejo que já estamos em NOVEMBRO e pensava que, por esta altura, já teria atingido o meu objectivo do Goodreads de ler 22 livros, até porque durante muito tempo estive adiantada em termos de ritmo. Depois, aquele final do Verão quebrou-me e estou, desde aí, nesta espécie de reading slump. Vam’lá ver como é que saio daqui.
umas últimas coisinhas sobre livros e não só
Tenho três livros debaixo de olho, que quero muito ter e ler, porém, procrastinei tanto a compra que agora estou só à espera do Pai Natal, confesso… São eles: o Porque Sou Comunista, do jornalista Pedro Tadeu, pela curiosidade em ler as suas razões e para apoiar um camarada; o Portugal de Morte a Sul, da Rafaela Ferraz, esta homónima simpática que chegou até mim via twitter e que tem como objecto de estudo e de escrita os cemitérios, as práticas fúnebres, e demais temas adjacentes à mortalidade; o último é, como não poderia deixar de ser, o Calhamaço do Chega, do Miguel de Carvalho, que já toda a gente comprou, tirou foto, pôs na net, leu e comentou, portanto dispensa apresentações ahahahah
Ainda mais ou menos sobre livros, no dia em que estou a escrever este parágrafo li dois artigos interessantíssimos no Shifter. Primeiro, uma entrevista a Gabriela Wiener, escritora peruana que só conheci graças a esta entrevista e que já sei que vou ter de ler a sua obra, em especial o Sexografias, livro pelo qual fiquei muito - MUITO - curiosa. Depois, dei por mim a ler este ensaio do Alex Couto sobre reality shows, a propósito do seu novo livro. O Alex escreve aqui pontos muito interessantes sobre este formato televisivo, alguns sobre os quais eu própria já tenho pensado e até já trazia comigo o impulso de escrever algo sobre este tema, embora com outra perspectiva - talvez me tenha dado a motivação que faltava. Este ensaio surge a propósito do segundo livro do Alex que se passa num reality show que quer “eleger o melhor artista português”. Estou igualmente curiosa para ler, já que o Sinais de Fumo é, também, uma das minhas leituras preferidas deste ano.
Entre a escrita deste desabafo em particular e o dia da edição, já avancei no livro e a prosa desenrolou. É, de facto, mais um livro excepcional de Maria Velho da Costa. Na mesma, gostei muito mais da leitura do Casas Pardas, mas raios me partam que esta mulher Escreve!!!






Não sei se é um género que aprecias mas para isto "daqueles que me arrebatam as entranhas, normalmente escritos por mulheres."
recomendo toda a saga Realm of the Elderlings da Robin Hobb.
Encontrei o teu Substack hoje e esta foi a primeira publicação que li, mas já estou rendida à tua escrita! ❤️👏🏻 Muitos parabéns pela fluidez da mesma e também pela magia conferida às palavras 🥰