Fase lútea
Recortes da quinzena mais complicada do ciclo.

Costumo dizer que há um dia em que uma gaja acorda e sente mesmo a descida do estrogénio. Ok, não se “sente mesmo”, é subtil. Mas para quem está atenta ao ciclo, é fácil perceber: é aquele dia em que, após a euforia do período fértil, damos por nós a ceder a uma irritaçãozinha ou mais tristonhas. Pronto, já está. Chegou a fase lútea, o esperar pela menstruação. E depois a menstruação em si. A quinzena - mais coisa, menos coisa - mais chata do ciclo.
Há dois sábados acordei com dor de dentes. Já tinha consulta marcada desde Fevereiro e a vaga era só em Abril. Mas nos finais de Março o cabrão do dente teve de me doer. Pensei que ia passar, não passou. Quando dei por mim a ter de recorrer a medicação mais forte, vi que não dava para esperar mais. Na terça-feira, um dos dias em que o meu dentista está na clínica, lá lhe apareci de urgência. Calhou bem porque o patrão esteve fora a semana toda e na loja ficou uma santa que me abriu a porta a horas e esperou por mim.
Baldei-me a semana toda ao ginásio. Estive com dor de dentes, porra, deixem-me! Detesto (!!!!) exercício físico. Faço, sim. Até me consigo divertir em certas actividades. Mas se tivesse a lotaria genética de ser ~magra naturalmente, não sei se fazia. E isto é o mais honesta e franca que consigo ser em relação a este assunto.
O chefe esteve fora e, ainda assim, a semana custou a passar. Fiquei com uns processos complicados em mãos e estive ó tio-ó tio até ver as Escrituras feitas. Correu tudo bem. Sinto-me cansada. Mais uma vítima do accidentally became important at work.
Work… Fez três anos que comecei a trabalhar aqui. Quantos mais ficarei? Um? Dois? Três? Não sei. Não sei o que hei-de procurar porque as pessoas próximas de mim, desempregadas, relatam-me o desespero que está o mercado de trabalho. Estou assim-assim. Dá medo pensar no vazio do futuro. Recebi um e-mail do Teledipity a dizer que em Abril eu ia ter impulsos de mudança, mas para lhes resistir que não é o momento. Ok, vou aceitar.
Muito se falou da série Adolescência e eu estou a pensar se falarei ou não. Assistiu-se a um pânico sem precedentes por causa de emojis. Depois, a notícia de que uma menina de 16 anos foi violada por três rapazes. Eles estão em liberdade a aguardar julgamento, com acesso livre às redes sociais. Parece que a série não chegou a toda a gente. Certamente não chegou aos senhores juízes. Talvez sejam mais pessoas de Teatro? Também têm uma peça boa em cena para irem ver. O Dani Alves foi absolvido do crime de violação pelo qual estava a ser julgado. A Fiona Apple1 tem razão
there’s no hope for women
there’s no hope for women
there’s no hope for women
A minha Psi manda-me mensagem, a meio da semana, pedindo desculpas mas que teve um imprevisto e tem de cancelar a nossa consulta. Dou graças aos céus porque, naquele momento, sentia que não tinha nada para dizer na sessão. E porque me ia saber bem um fim-de-semana totalmente sem compromissos.
A Primavera chegou e foi um fim-de-semana quente! Não aconteceu nada de especial. Estive na preguiça, não fui a lado nenhum de destaque. Nem me apeteceu fazer o bolinho de domingo como de costume.
Vi-me confrontada com uma falha minha, um momento de má-amiga que estupidamente fui arrastando, não sei porquê, por meras falhas de comunicação. Ficou resolvido e aprendi que posso, de facto, ser honesta e falar abertamente do que penso, o que sinto, e dar a minha real opinião. Porque nem toda a gente recebe potenciais contraditórios como se fossem uma ameaça pessoal cujo resultado é um corte de relações brusco. É algo que ainda me surpreende pois somos todos resultado da nossa história, e a minha ensinava-me aquilo.
A dor nas mamas já não deixa margem para dúvidas. Ele está a chegar.
Acabei aquela que será uma das minhas leituras preferidas do ano. City of Girls foi leve, divertido e deixou-me nostálgica por um tempo que não vivi, numa cidade que ainda não visitei. Adorei a complexidade da protagonista e gostei que ela se tivesse tornando uma mulher solteira. Fiquei a pensar neste tema, se o abordo ou não numa Crónica futura.
Eis que o sangue finalmente me desce e o Benfica joga em casa. Este é um dos campeonatos mais medíocres de que eu tenho memória de assistir. É tão triste quando nem ao entretenimento da bola o pobre já tem direito, até isso o capitalismo envenenou.
Ficando sem leituras, porque ainda não tinha tido tempo para passar o ebook que requisitei na Biblioled para o Kobo, fui buscar à estante o Tanta Gente, Mariana que está no primeiro volume das obras completas da Maria Judite de Carvalho. Até há bem pouco tempo, percebo agora, eu passei anos a fio da minha vida a ler livros mas sem estar verdadeiramente presente na leitura. Há livros e livros cujos enredos, histórias, personagens, acontecimentos… eu não me lembro de nada. Então eu, que não sou de repetir leituras, dou por mim a querer ler muita coisa de novo. Porque é como se fosse ler pela primeira vez.
Se foi uma decisão inteligente eu, agora em fase menstrual, uma gaja solitária, com tendência a ser abandonada, ir ler a história de outra gaja solitária, triste e abandonada? Não sei, mas pude estar atenta à genialidade da escrita da Maju e isso já valeu a pena. Entretanto, como tinha requisitado o ebook, tive de deixar a Mariana de lado mas hei-de lá voltar. Deixo-vos com isto:
Mole. E enjoada comigo mesma como se me tivesse provado. Um pedaço de pão que depois de se mastigar durante muito tempo acabasse sabendo mal. Sabendo a mim própria, aos meus próprios sucos. Cuspi-me com desagrado para cima da cama e aqui fiquei líquida e espapaçada. É um estado de espírito entre calmo e desesperado com uma leve ansiedade à mistura. Por vezes sinto medo desta solidão maior do que nunca foi, imensa. Para onde quer que me volte, só dou comigo mesma. Mas já me vi bastante e acabo de reparar que nada mais tenho a dizer-me. Nada mais.
(Será que a Mariana estava na fase lútea?)
e só mais isto, já agora:
(…) Penso neles mesmo sem querer, até quando faço um esforço que me dói para não os deixar entrar dentro da minha testa. Eles vêm, apesar de tudo, e instalam-se sem demora. Vejo-os como dantes e também como os imagino. Felizes todos eles, imensamente felizes depois de me terem varrido de si como a um bicho sem importância que os aborrecia. (…) Só me dói terem conseguido ser felizes à minha custa. Fui eu e o meu silêncio quem lhes deu toda essa ventura. Uma palavra teria bastado, um grito, uma lágrima, mas eu não pude tirar de mim nenhuma dessas coisas.
Porra.
Cheguei a sexta-feira, que coincidiu com o dia das minhas dores menstruais. Estive irritadiça o dia todo, o que até não foi mau porque me livrou do filtro de people pleaser e fui muito assertiva nas minhas respostas a umas situações que aconteceram. Começo a perceber aquela coisa de, a partir dos 30, estarmos cada vez menos tolerantes a bullshit e mais confiantes na nossa afirmação pessoal. Boa, gostei. Continuava cansada e estive até à última para ver se mandava mensagem à minha bff a cancelar o nosso encontro. Só que não quis dar essa vitória à semana de trabalho. É sexta-feira, vou sair depois de jantar, descontrair e divertir-me com a minha amiga. E assim foi.
Ter aprendido mais sobre o ciclo menstrual fez-me ganhar noção do impacto das alterações hormonais no meu quotidiano. Na minha disposição mental e emocional para as coisas do dia-a-dia. E também me fez aprender a relativizar certas situações. Estive mais em baixo, é verdade. Mas sei que vai passar. Ainda que esta fase seja perfeita para dar pistas sobre o que pode não estar a funcionar tão bem, tanto a nível físico como emocional, sei que a tristeza da fase lútea é passageira e outros dias mais alegres se seguirão, depois da menstruação.
Os períodos mais complicados, a nível de saúde mental, que passei nos últimos anos, levaram a que agora eu tenha um certo medo de emoções negativas. Como se, estando uns dias mais em baixo, estivesse condenada a cair no poço, demorando de novo até conseguir sair. E isso não é verdade. Os dias passam, as hormonas mudam e as disposições também. Faz parte do ciclo da vida.





Descobri muitas coisas interessantes com esta crónica (desconhecia o teledipity e achei fixe) e levo daqui sugestões de livros novos (aqueles excertos que partihaste bateram!). Apercebi-me recentemente do impacto da fase lútea durante um treino de força. Ao fim do aquecimento estava exausta e durante o resto do treino não estava a conseguir fazer exercícios relativamente simples e que já tinha feito com facilidade. Enfim. O nosso ciclo menstrual praticamente só nos dá uma semana de sanidade mental e o resto andamos ao sabor das hormonas a tentar sobreviver.
"Os períodos mais complicados, a nível de saúde mental, que passei nos últimos anos, levaram a que agora eu tenha um certo medo de emoções negativas. Como se, estando uns dias mais em baixo, estivesse condenada a cair no poço, demorando de novo até conseguir sair. E isso não é verdade. Os dias passam, as hormonas mudam e as disposições também. Faz parte do ciclo da vida."
Identifico-me. Sempre que entro na fase lútea (que nunca me apercebo que chegou) eu vou muito abaixo e começo a pensar: meu deus, é agora que vou ter uma recaída. E depois vem-me o período e percebo que não, não é uma recaída, são só as minhas hormonas.
Tenho o "Não é só sangue" na minha cabeceira e quero-lhe dar atenção, mas tenho priorizado outras leituras. Preciso *mesmo* de me sintonizar mais com o meu ciclo e trabalhar com base nele, está mais que provado que facilita a nossa vida, mas eu sou uma procrastinadora crónica.