Esta Crónica não é #pub
A minha irritação com a publicidade via influencers.
Tenho inveja das influencers.1 Já sei, inveja é um sentimento muito feio, lá dizia o Boss AC, e às vezes não sei se é inveja ou ressabiamento. Fico ressabiada de ver, através do meu rectângulo, mais uns stories a exibir mais uma merdinha qualquer. Adorava poder andar de hotel em hotel, de Junho a Agosto, sem pagar um tostão, porque #pub. Adorava ter uns recebidos de maquilhagem, logo eu, que gosto tanto de maquilhagem e nem uso no meu dia-a-dia. Agora que penso nisso, também fico ressabiada de não ter sequer motivo para me maquilhar no dia-a-dia. Nada me impede, mas eu gosto de o fazer por diversão, porque vou sair, por exemplo, e não para vir para o trabalho. Francamente, não me dá alegria nenhuma pensar em maquilhar-me para vir trabalhar aqui. Tenho ainda inveja de alguns eventos da treta onde elas vão, lá está, mais uma desculpa para passar um pesseguinho na pele, ir beber uns copos e petiscar uns canapés, trazendo no final um saquinho de brindes.
Quando penso na ideia-ainda-na-gaveta de levar este Substack para outras plataformas - pá, que se lixe, quando penso em abrir um Instagram para o Substack, porque que outras plataformas há, sejamos sinceros? - quando penso nessa ideia, penso sobretudo na hipótese de conseguir chegar a mais público, arranjar mais leitores, fazer números porque é isso o importante, é ter números e fazer números, com o objectivo principal de ser notada pela indústria; porque a ponta final da minha inveja é ver que, para os influencers, as portas das editoras - aquelas supostamente a sério - se abrem de par em par. Lá vem mais uma proposta de livrinho, um contrato editorial dado de bandeja a uma pessoa que… nunca demonstrou sequer interesse na escrita? Enfim.
Quando penso nessa ideia, de ter uma página pública com muitos seguidores, também penso que não me importava nada de receber batons da MAC e ter convites para ir aos festivais de verão, para a zona VIP, que é a única forma de uma pessoa aguentar frequentar aqueles eventos naqueles espaços insalubres. Que bom, que maravilha receber merdas grátis, nem vou fingir. Mas acho que traço a linha quando penso na hipótese de ter de fazer uma #pub.
A #pub, para o caso de alguém não saber, é a hashtag que agora é obrigatório apresentar quando o influencer faz um vídeo/post/story que foi pago pela marca. Eu digo que acho que traço a linha porque pode haver uma marca, um projecto, ou um preço (todos temos de fazer pela vida) que me compre, por alguma razão, sei lá eu o dia de amanhã.
No entanto, enquanto vejo os stories de mais uma figura pública e encontro mais uma #pub, pergunto-me se os nossos influencers são assim tão poucochinhos e tão rasos, tão deslumbrados e tão desesperados por borlas, que fazem #pub de absolutamente TUDO e se prestam a todo e qualquer papel, perante os seus milhares de seguidores no Instagram, só para não terem de pagar rigorosamente NADA na vida?!
Eu não sigo muitos influencers. Ou achava eu que não seguia. Assim puro e duro de influencers, sigo a Pipoca porque a sigo há quase 20 anos; sigo a Joana Shino, que agora se vai dedicar à criação de conteúdo a tempo inteiro; ainda sigo a Catarina Filipe mas já nem vejo, sabem?; talvez a Bruna e a Mia contem como influencers? Malta old school, não sigo mais ninguém, toda a gente me irrita. De resto, o fenómeno portuguese girlies passa-me ao lado, para ser sincera, e não conheço nenhuma dessas miúdas. Sim, tornei-me naquela pessoa de vibe boomer que diz “mas quem é a Não Sei Quantas?!” quando anunciam um documentário sobre uma destas miúdas que é famosa no Instagram.
Depois, sigo pessoas cujo trabalho gosto de acompanhar. Ou achava eu que seguia. Por exemplo, eu achava que seguia, desde quando tinha apenas 5 mil seguidores, uma psicóloga-sexóloga jovem, a abordar estes temas de forma fresca e diferenciada no panorama português. Mas afinal chego à conclusão de que sigo uma Influencer, pela forma como tudo o que esta pessoa mostra, à parte o podcast relativo à sua área de trabalho e presenças em conferências, é #pub! A refeição que chegou via plataforma de entrega de comida é #pub; o veterinário dos gatos é #pub; os faz-tudo que vão lá a casa arranjar coisas é #pub; até a manicure é #pub.
Começo a ter algumas questões: estas #pub são compatíveis com o exercício da profissão? É ético um psicólogo fazer um trabalho publicitário para uma marca de bebidas alcoólicas? É ético um profissional de saúde fazer qualquer tipo de publicidade, de todo? Em termos de gestão de reputação, qual é a vantagem para ela, enquanto Psicóloga, de estar a anunciar ao mundo que tem uma parceria com o sítio onde foi fazer a depilação a laser?! Eu percebo que a Pipoca mostre quando vai à Nails4Us, porque entretanto caiu na etiqueta de “influencer lifestyle”, mas qual é a relevância disto para alguém que supostamente tem uma exposição pública de cariz profissional? Não consigo compreender. A mim, este tipo de situações afasta-me da pessoa e faz-me perder o interesse. Passa-me a imagem de uma pessoa que se apoiou naquela que era a sua profissão para chegar agora ao objectivo final: ser influencer, ter parcerias, borlas e falar de coisinhas lifestyle.
Não quero ser injusta, se calhar isto foi acidental. Tal como disse uns parágrafos acima, todos temos de fazer pela vida. Aliás, entristece-me ver outras pessoas cujo trabalho gosto de acompanhar a irem por estes caminhos, obrigadas a vergarem-se perante o papel de influencer. Como é que profissionais consagrados da comunicação social têm de estar a fazer vídeozinhos para a NOS, no Alive? Armados em palhacitos a fazer mais um voxpop para entreter e dar conteúdo para as redes da marca? Até às miúdas giras, já não basta irem só existir no espaço, as marcas metem-nas a trabalhar e a fazer #dinâmicas com os transeuntes.
Chegámos a um ponto de saturação tal com estas figuras públicas e famosos online a fazer publicidade que já nem podemos acreditar no que dizem. Que coincidência, duas pessoas famosas diferentes a dizerem que vão tirar uma licenciatura online na mesma universidade privada. Conto os dias até ler que afinal é #pub, como tudo na vida destas pessoas.
Pergunto-me quando é que o público se vai cansar disto? Não me importo nada de ver aqueles stories blasé da Mia Fernandes a mostrar uma fotografia do perfume que alguma marca lhe mandou - aqui penso “fogo, que fixe, quem me dera!”. Mas aborrece-me, francamente chateia-me e irrita-me quando aparecem a falar para a câmara “aaaah opaaaaa então não é que a minha máquina de lavar roupa avariou? Bem, que chatice, não é verdade?! Isto só connosco, comuns mortais eheheh não é?” e passadas 48 horas, invariavelmente, lá vem a gravação do técnico agachado na cozinha “Malta, o Zé Carlos - Serviços ao Domicílio salvou-me a vida! A sério! Se algum dia precisarem bla bla bla” e escrito no ecrã PARCERIA.
Não me chateia ver fotos da catrefada de livros que as editoras mandam àquele pessoal que eles sabem que gosta de ler, e que publicam para agradecer e tal. Também penso: olha, quem me dera! Até porque, em consequência disto, de vez em quando a Pipoca faz aqueles giveaways de Livros da Piça, que ela usa para despachar livros que não lhe interessam, dizendo muito diplomaticamente “pois, sabem e tal, não tenho tempo para ler tudo…”, e isso diverte-me sempre.
Mas chateia-me achar que vou ver um vídeo de alguém cujas opiniões gosto e respeito, sobre um tema que parece interessante para a sociedade civil, só para afinal ser uma #pub com uma marca qualquer. Não aguento mais. Nem vejo o vídeo e passo em frente. Estou farta, estou absolutamente farta que tudo seja #pub!
Será que sou eu que sou picuinhas? O resto do público acha isto normal? Ver tanta gente a reduzir-se à figura de idiota útil para promover empresas, muitas delas já de si riquíssimas? Nas influencers-clássicas, não percebo o interesse: nada do que vejo é particularmente apelativo, é como estar a ver televisão na parte dos anúncios. Nestas influencers-acidentais, chamemos-lhe assim, não só não percebo o interesse como ainda acho que isto prejudica a imagem destas pessoas. Se tens uma profissão a sério, qual é a necessidade de ires buscar uma #parceria para fazer uma manicure? Porra, não podes pagar tu a manicure e ter esse momento privado? Que falta de finesse, deixem-me que vos diga.
A Internet já foi um espaço incrível para a auto-expressão e para trazer para a ribalta pessoas que, à partida, estariam com um caminho mais dificultado pela via tradicional do showbiz. No entanto, agora pergunto-me se o objectivo é apenas ficar famoso até nos podermos transformar num spot publicitário humano? Até que a nossa plataforma, construída a pulso, sirva apenas para impingir #pubs aos nossos seguidores, porque entretanto essa torna-se a forma de estas pessoas poderem ganhar dinheiro: alugando segmentos dos seu espaço para publicidade. O conteúdo é nenhum, o conteúdo é exibir produtos. Uma influencer lifestyle é apenas uma versão moderna das televendas de antigamente. É triste. E mais triste ainda é ver a leviandade com que pessoas com outras carreiras acabam por se transformar, elas próprias, em spots publicitários humanos.
Não tenho soluções e não sou ninguém para julgar os caminhos profissionais de cada um. Se escrevi este textão, é porque acho, do fundo do coração, que a Tânia Graça tem um potencial enorme para marcar uma diferença na educação sexual deste país reprimido, retrógrado, machista, católico, grunho, patriarcal e bronco, e custa-me vê-la quando se presta ao papel de página de anúncios humana. Podemos exigir um bocadinho mais de nós próprios, não? Não sei.
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Adorei que começas a tentar “proteger” a identidade da Tânia (ou assim me pareceu) e depois salta-te a tampa e dizes o nome 🤣 Mas olha, entendo-te. No caso dela acho que não faz sentido nenhum, mas também já há muito tempo que não me deslumbro com ela. Não acho que ela alguma vez tenha sido só psicóloga/sexóloga sinceramente. Por outro lado, não acho que se deva enfiar todos os influencers no mesmo saco. Um influencer é alguém que te influencie a fazer alguma coisa. Não é quem tenta influenciar, é quem consegue. E nesse sentido tantos influencers que eu conheço aqui no Substack, que já me fizeram gastar dezenas de euros em arte e livros.
Tenho que concordar. Também já não aguento a #pub ! Deixei de seguir muitas “girlies” porque de facto acho que cheguei ao ponto de saturação que falas, parece que estou a ver anúncios de tv ou televendas! 🫠
Eu não me considero influencer 🥲 mas não posso deixar de dizer, que recebo livros de editoras e gosto de criar conteúdo sobre eles, seria hipócrita se dissesse o contrário. No entanto, já não consigo consumir muito conteúdo demasiado “show” ou de hauls, unboxing, não me cativa, nem que seja relacionado com livros…
No fundo acho que andamos todos fartos da quantidade de informação que nos chega pelas redes sociais, e estamos cada vez mais a filtrar o que vemos e isso até nem é mau, porque nos faz desconectar um pouco das redes e não ter tanto tempo de ecrã.
Acho que entretanto isto alastrará e será perceptível pelas marcas (espero eu) e encontrem outras formas de comunicar, que não sejam tão agressivas e tão “fake” como atualmente parecem todos os stories e publicações de #pub.