Viver em loop
Sobre a dificuldade de quebrar ciclos.
Aviso de conteúdo: este texto vai falar sobre depressão e ter uma breve menção a uma hipotética toma de comprimidos.

Encontrei essa foto há dias, no feed do Instagram, e acabei por partilhá-la nos stories. É uma foto da cidade de Lisboa onde se conseguem ver cartazes de convocação de uma Greve Geral, em protesto a um Governo AD. A foto é de 1982. Passados quarenta anos, cá estamos: em vésperas de uma greve geral, governados por um Governo da AD. Partilhei esta fotografia porque fiquei chocada com esta constatação visual de que vivemos em loop.1
Este Outono não tem sido fácil para mim, emocionalmente. O mês de Novembro, então… não sei se guardei alguma espécie de memória muscular sentimental que me deita abaixo graças à recordação de maus Novembros passados, mas andei no buraco. Sinto uma grande frustração por saber que a minha tristeza advém, como tenho vindo a partilhar, da insatisfação com a minha vida laboral. Acho tão, tão injusto isto, porque não tenho grandes preocupações fora disso: tenho uma relação pacífica com os meus pais e a vida em casa é tranquila; tenho amigos que adoro; tenho interesses e hobbies; não estou em dinâmicas relacionais tóxicas, nem sequer tenho crushes que me poderiam moer o juízo (!!!); vou passear e a “cenas” (espectáculos de standup, teatro…).
Ainda assim, não consigo evitar as nuvens que, volta e meia, andam aqui à volta da minha cabeça. Se calhar faço mal, mas dou por mim inclusive a ter receio de perguntar à minha terapeuta se eu realmente tenho ou não depressão. Tenho medo da resposta, talvez. Eu acho que não, acho só que estou a ter uma reacção emocional normal face às minhas circunstâncias de vida. Mas às vezes dou por mim tão triste e frustrada que penso se não seria só melhor tomar um comprimido para me tornar apática e conseguir lidar com o meu dia-a-dia, para conseguir funcionar, para conseguir fazer as tarefas que me pedem e que não me apetece fazer porque me deixam tão inexplicavelmente triste. Fico a pensar: por que é que só não consegues fazer a porcaria da tarefa, que apesar de veres que não faz sentido, podias fazer na mesma e poupar-te ao desgaste de combater? Por que é que tens de ter “princípios”? Por que é que não consegues seguir em frente mesmo quando nada daquilo te faz qualquer sentido lógico? Que se foda que a pessoa trabalha a recibos verdes, se querem ver do crédito, vê do crédito!!! Adormece-te, não penses, não tenhas emoções - faz só!
Não é penoso ler isto? Que uma pessoa adulta, saudável, sem grandes problemas na vida, dê por si a desejar um comprimido que a faça desligar das emoções só porque está num trabalho de merda? A sério que, enquanto sociedade, achamos isto normal? Achamos que isto é um modelo socio-económico em que é bom viver? Adiante.
Tenho dias em que vou a andar na rua, a caminho do trabalho, e os meus olhos marejam-se até caírem uma ou duas lágrimas, e depois fico bem. Até tenho nome, chamo a isto o micro-crying. No outro dia, porque tenho laivos de mulher melancólica e melodramática, depois de a minha mãe se ir despedir de mim antes de se ir deitar, fechei o computador e comecei a chorar, finalmente sentido-me sozinha e à vontade o suficiente para o fazer. Que dramática.
Devia esclarecer, para acalmar potenciais preocupações, de que isto aconteceu tudo na semana em que eu estava com o priúdo, portanto there’s that. Há aqueles dias no mês de uma gaja. Entretanto arrebitei e aqui estou a escrever este texto. Escrever também me ajuda a processar estas emoções e a dar-lhes sentido, aliviando-me do peso que é tê-las dentro de mim - sim, tenho Lua em Gémeos.
Fico sempre muito receosa quando me vou abaixo, precisamente porque eu mascaro muito bem o quão baixo eu estou. Continuo funcional: levanto-me de manhã, saio da cama. Tomo banho, lavo os dentes e até passo fio dental (!!!). Existo no meu dia-a-dia. Vou ao ginásio fazer desporto. Caramba, até me divirto com os podcasts que ouço e os programas de humor que acompanho. Mas, ainda assim, assustei-me durante uns dias, porque me senti sem energia até para as minhas coisas. Tenho projectos que ainda não retomei por estar sem energia. Tenho um compromisso com os meus amigos que ando a procrastinar por estar sem energia. Até aqui para o meu substack tenho estado sem ideias - e sem energia para trabalhar as ideias e os rascunhos mentais que tenho.
Estou a tentar pôr as coisas em perspectiva e a ser mais branda comigo porque, na verdade, eu estou a lutar por mudar o meu paradigma. Isto não é uma coisa que vá acontecer do dia para a noite, portanto tenho de ter paciência durante o processo. Calma, crl! Já tenho as consultas de orientação de carreira marcadas e tudo!
Numa tentativa completamente bacoca e inócua de tentar puxar-me para cima, dei por mim a ir buscar a ferramenta preferida dos vendedores de banha da cobra online: abri o Canva e comecei a fazer um moodboard. Sinceramente? Animou-me. A sério! Não façam essa cara, já sei, eu sou igual: que parvoíce, mas ela acha que vai meter ali fotos aleatórias de “objectivos” e só por isso os alcança? Não! Claro que não! Então olhem a liberdade de fazer uma coisa só porque sim, sem esperar um resultado místico daquilo. Eu recomendo. O que é que querem? Maldivas? Metam lá. Um carro novo? Metam lá. O Euromilhões? Metam lá. Vai dar em alguma coisa? Provavelmente, não. E então?? Ao menos é divertido no processo.
No outro dia fui ao meu arquivo ver o que andei a escrever em Novembro 2024, fui à procura deste texto em específico que escrevi na semana em que ia começar, pela primeira vez, a fazer terapia. É um texto pesado e, em retrospectiva, noto ali um princípio de (mais um) burnout. (E era, que este a minha terapeuta disse-me logo.)
Passado um ano, continuo no mesmo sítio, a caminho da quarta árvore de Natal. Assustou-me constatar isto, sentir que estou na mesma: porra, literalmente foi a semana em que comecei a terapia e passado UM ANO estou IGUAL?!?!!?? Mas não estou. Alguma coisa vai mudar, não sei como nem por onde, mas vai.
Vou quebrar o loop.
Não é um choque assim tão grande, para ser sincera. Há uns tempos tive uma fase em que andei a ver o Herman Enciclopédia, no RTP Arquivos, e é engraçado ver como o monólogo inicial podia ser dito aos dias de hoje, que pouca coisa mudava…




querida Rafaela. antes de mais, lamento que te estejas a sentir assim, e espero que entretanto, seja através do moodboard do Canva ou de outro entretenimento qualquer, te sintas um bocadinho melhor. depois, quero também partilhar que te entendo muito bem. e, aliado a isto, dizer que, enquanto alguém que faz terapia - com as suas pausas, trocas e períodos de interrupção pelo meio, claro - desde os seis anos, posso dizer-te que a nossa autodescoberta e cuidado mental são assuntos para sempre inacabados. e não digo isto para te desanimar, precisamente pelo contrário. as coisas melhoram, muito. mas haverá sempre mais. porque fazer terapia é sobre descobrir mais e mais camadas de nós, da vida e do que nos rodeia, e isso não termina num período definido. mas também importa dizer que se torna muito mais fácil, e que um dia a terapia já não será tanto sobre o que te faz sofrer mas sobre aplicar tudo o que aprendeste e ver os frutos a nascer. como alguém que foi diagnosticada em 2024 - sim, esse tempo todo depois - com depressão crónica, sei bem o que é a sensação de viver em loop e de nos vermos tantas vezes naquilo que parece o mesmo buraco de sempre. mas também como alguém que acha que, apesar disto tudo, está melhor do que nunca (com muita coisa para resolver, ainda, claro), digo-te que nunca é o mesmo buraco. estamos sempre num lugar diferente, mesmo que não pareça. grande parte das mudanças não são visíveis em tanto pouco tempo - principalmente, porque as grandes transformações começam sempre subterrâneas, dentro de nós, sem que tenhamos muita noção delas, até que um dia vêm à superfície e vemos com orgulho o enorme caminho que fizemos. sem dúvida que te vai acontecer o mesmo -- vais quebrar o loop sim ❤️
Gostava de dizer que não me relacionei mas puseste em palavras muito do que tenho sentido nos últimos meses/1 ano. Adoro o que faço (o meu trabalho é escrever, como não adorar?), mas na prática tenho-me sentido cada vez mais afastada (é o salário de merda, as mudanças todas na redação, o já não poder escrever tanto sobre livros e teatro, o ter outros sonhos que cada vez mais gostava de realizar, como ter a minha própria livraria e/ou trabalhar no sector editorial…) Depois lembro-me que tenho uma filha e comida para pôr na mesa e começo a pensar que não é hora para pensar nisto, mas se não agora, quando?